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De volta a Maaloula: algumas reflexões

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Há quase dois anos, o Perspectiva publicou um pequeno texto chamado “O que está em jogo”. Ali falamos da tomada da cidade cristã de Maloula por forças militares contrárias ao ditador Bashar Al-Asad. A cidade chama a atenção pela particular razão de ser um dos últimos lugares do mundo onde o aramaico, o idioma de Jesus Cristo, ainda é falado.

Entre estas forças havia grupos extremistas que, pouco tempo depois, ganhariam as manchetes do mundo sob o nome de ISIS – o Estado Islâmico.

O texto data de 2013. Na época, não faltaram avisos: os cristãos sírios e de regiões vizinhas foram à mídia ocidental atrás do apoio que não tinham em seus países. Muitos deles disseram, em voz alta e com tom desesperado: “estamos desaparecendo”. Quase ninguém os ouviu.

Pois bem. Há alguns dias, o New York Times publicou esta matéria com uma pergunta em forma de alerta: “será o fim do cristianismo no Oriente Médio?”. Ali estão elencados os motivos: a ascensão dos radicais islâmicos, a fragilidade das democracias da região, a falta de união dos grupos cristãos e muito mais. Tudo está correto. Mas atentamos para a data da publicação: 22 de julho de 2015. Vários anos depois do pedido de ajuda dos cristãos e dois anos depois do aviso dado por esta humilde página. E só agora o New York Times percebeu o problema.

Voltemos rapidamente para o nosso texto original – já que, neste tema, podemos nos proclamar, orgulhosamente, autoridade maior do que o New York Times. Ali está uma citação de artigo do sr. Daniel Pipes, um dos mais conhecidos articulistas neoconservadores dos EUA. O sr. Pipes diz-se um estudioso de temas islâmicos e um defensor da “civilização ocidental”; e, não raro, diz-se também defensor dos cristãos da região. Comentava ali que os EUA, naquele momento, deveriam apoiar Bashar Al-Assad – tradicionalmente um inimigo dos interesses americanos naquela parte do mundo –  não para vê-lo vencer o conflito que dilacerava seu país, mas para – pasmem –  mantê-lo indefinidamente. O raciocínio de Pipes era o seguinte: como Assad era um inimigo dos EUA e seus adversários também, o ideal seria provocar o máximo de derramamento de sangue e mortes dos dois lados para enfraquecer aos dois.

Sim, isso mesmo. O objetivo dos EUA, segundo a avaliação de Pipes – o conservador Pipes, o ocidental Pipes, o defensor dos cristãos Pipes – deveria ser o prolongamento da guerra que, entre outras coisas, estava destruindo os últimos vestígios de civilização cristã naquela região. É dizer: prolongar a agonia dos cristãos do local. É dizer: provocar-lhes a extinção. A extinção que, agora o New York Times teme acontecer, sem nomear, em momento algum, sujeitos como Pipes.

E Pipes não estava sozinho. Naquele mesmo artigo de setembro de 2013, lembramos que o historiador Niall Ferguson – outro suposto defensor da civilização ocidental, dos mal chamados “valores ocidentais” e de outas banalidades consagradas pelo mau uso – defendia algo parecido. John McCain, líder dos republicanos derrotado por Obama na eleição presidencial de 2012, chegou a se encontrar com parte dos grupos rebeldes. A atitude gerou revolta até mesmo nos seus companheiros de partido, aos quais McCain explicou-se, dizendo tratar-se de uma parte não-religiosa dos rebeldes. Balela: na prática, com Assad enfraquecido, quem sairia fortalecido eram os extremistas, muito mais fortes e muito mais organizados. E McCain, Ferguson e Pipes sabiam perfeitamente disso.

Quanto a Maaloula, a vila foi praticamente destruída. Restam ali apenas alguns poucos habitantes dos 4 mil originais, em geral velhos e seus familiares.Numerosas igrejas e monastérios ,alguns erguidos nos primeiros tempos de cristianismo, foram inteiramente destruídos, e quem passa por suas ruas depara-se com ícones ortodoxos feitos em pedaços, cruzes rompidas e construções demolidas. Maaloula é apenas uma das vítimas desta guerra que se alastra por anos – e cujas consequências hoje o New York Times e outros lamentam, sem querer nomear-lhes os culpados.

Discussão

Um comentário sobre “De volta a Maaloula: algumas reflexões

  1. Israel derrota e aniquila a Siria sem mobilizar exercito.

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    Publicado por paulo | 5 de fevereiro de 2016, 12:38

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