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Entrevista: Tutti Gregianin, cineasta

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“Projetos pessoais são como crianças adormecidas que nós precisamos despertar”

Tutti Gregianin é um homem de projetos – projetos longos e interessantes. E projetos seus e dos outros: uma conversa como a que tivemos com ele nos dá a conhecer um elenco de boas ideias e nos leva a ter tantas outras, despertas e moldadas a partir dos apontamentos inteligentes deste canoense registrado há 53 anos como José Luís Gregianin da Silva. Na sua atividade como gestor da Casa de Artes Villa Mimosa,em Canoas , onde nos recebeu com  a gentileza habitual, ele pôde pôr em prática esta rara habilidade: ajudou a despertar ideias e projetos de muitos, que participaram e vêm participando das várias oficinas e grupos que ali se reúnem para ensaiar, filmar, apresentar, escrever,criar.Além disso, a cortesia e a boa vontade de Tutti se encarregam de desfazer a pompa, obstáculo infelizmente frequente em locais deste tipo, e aproximam quem é criador daquele espaço, fazendo-o cumprir a sua finalidade.

Fora deste âmbito, Tutti talvez seja mais conhecido como o diretor e o roteirista de “Sargento Garcia”, muito bem sucedida adaptação do conto de Caio Fernando de Abreu para o cinema, que lhe rendeu o prêmio de melhor curta gaúcho no festival de Gramado, em 2000. Sua atividade no meio audiovisual gaúcho, todavia, vai muito além disso. A entrevista que segue nos traz um pouco de sua carreira pelo cinema do Rio Grande do Sul e importantes considerações sobre a atividade do roteirista, do artista,  do cineastas – e, claro, os seus projetos.

Onde nasceste?

Eu nasci em Canoas de uma maneira bem tradicional: como não havia hospital em Canoas em 1962 – ele só abriria no segundo semestre – eu nasci de parteira em março de 1962, na rua General Salustiano. Meus pais moravam de um lado da rua e, pouco antes de eu nascer, eles mudaram para o outro lado, onde em viria a nascer. Ali eu nasci e me criei. Estudei a vida inteira no colégio Marechal Rondon, onde entrei em 1969.

Época da direção do professor Frank. É dito que o Rondon dessa época tinha um ensino muito bom, com grande número de aprovados na UFRGS, mas também uma disciplina rigída. O que há de verdade nisso?

Era uma época interessante, muito boa, de ensino muito bom. Tenho muitos amigos que conservo até hoje. Existia uma rigidez quanto ao uso do uniforme, com a famosa camiseta com um R na frente…..mas sempre tinha uma certa coerência. Por exemplo: o terceiro ano do segundo grau não exigia o uso do uniforme. Até por uma questão de aproveitamento: como se estava em fase de crescimento, tu ias trocar rapidamente, e aquilo passava de irmãos para irmãos. Lembro de muita coisa dessa época, como os desfiles cívicos na 15 de janeiro, era uma animação bacana. Existia uma ditadura, um regime militar, mas a gente não sentia muito até porque não tínhamos muitas informações. Acho que alguns colégios estaduais de Porto Alegre sofreram mais com isso. O Rondon, ao menos na minha época, acho que não sofreu muito. Também não podemos esquecer que a nossa geração já era de filhotinhos da ditadura, por assim dizer. O pessoal que estava no segundo grau era diferente, já discutia e contestava certas coisas. Mas no 1o. Grau a vida era uma festa.

Em que ano terminaste o Ensino Médio?

Terminei em 1980.

Qual foi a tua escolha para o vestibular?

Fui tentar Administração na UFRGS. Eu queria estudar marketing, mas na época ir para SP estudar na ESPM era complicado…..eu já tinha me informado. Aí tentei a administração, que tinha disciplinas de marketing, administração de produção, etc, etc. Não passei no meu primeiro vestibular, passei na minha segunda opção – Estatística. Cursei algumas disciplinas e comecei a trabalhar na Brasilit, na área de recursos humanos. Depois prestei vestibular de novo, também na UFRGS, para Administração e passei: eram 200 vagas e fiquei em 20o. Lugar. Fui muito melhor porque fiz a prova com muito menos tensão. Depois que terminei Administração fiz vestibular para publicidade na Fabico, onde me formei em 1992. São públicos muito diferentes: na Comunicação havia um pessoal que era da dança, das artes plásticas, do cinema…….

Foi lá que surgiu o teu interesse por trabalhar com cinema?

Foi onde ele se desenvolveu. Os cursos de Comunicação na época – e de certa forma ainda hoje é assim – concentravam as pessoas que queriam trabalhar com cinema. O curso de cinema por aqui não existia. Quem quisesse algo mais específico tinha que ir para São Paulo estudar na USP. Só um tempo depois surgiria o curso de produção audiovisual na Unisinos e depois o tecnólogo em audiovisual na PUC e na Ulbra. Então, na Fabico tive o primeiro contato com vídeo. Meus primeiros trabalhos com vídeo foram na área de publicidade e de TV. Dirigi o Folharada na TV, na Band, com a Kátia Suman, um programa que marcou época. Trabalhei em algumas produtoras e uma época o Werner Schunnemann convidou a mim e ao Fábio Lobanowsky para fazermos direção e produção de comerciais.

O momento em que tu te formaste – 1992 – foi uma época complicada para o cinema brasileiro, não?

Sim, porque o Collor havia acabado com a Embrafilme. Os diretores, produtores, todos os que trabalhavam com cinema ficaram sem chão. Depois, lá pelo meio da década, veio a retomada do cinema brasileiro. E também a do cinema gaúcho, com o Lua de Outubro, do Henrique de Freitas Lima, e o Anahi de las Misiones, do Sergio Silva, que foi meu professor de cinema….

Vamos passar para o teu filme, o “Sargento Garcia”, baseado num conto do Caio Fernando de Abreu. Já eras admirador do trabalho dele?

Já era admirador havia muito tempo. O Caio, na minha época de faculdade, era um quase clássico, e muita gente tinha interesse nele. “Morangos Mofados” foi um verdadeiro hit, um livro que circulou muito, e o mesmo se pode dizer do “Sargento Garcia”. Então, vontade de fazer um filme baseado em obra dele eu tinha havia muito. Ele é muito cinematográfico, muito bom em descrever situações. Tinha e tenho verdadeiro fascínio pela obra dele. Ele tem dois romances, “Onde andará Dulce Veiga?”, que virou filme através do Guilherme de Almeida Prado, e o “Limite branco”. Deste último eu tenho os direitos para fazer o longa. É outro projeto meu. Durante um certo tempo eu tinha aquela coisa de pensar: “Bah, vou filmar Caio de novo”. E eu pensei bem e agora digo, “e daí?”. Vou sim! Não tem alguns diretores com fetiches por atores e atrizes? Eu tenho por esse autor que me inspira.

Conta como foi o processo de preparação do “Sargento Garcia”.

Inscrevi um roteiro no IECINE. Entre 58 roteiros o meu foi um dos cinco escolhidos. Era o roteiro do “Sargento Garcia”. Com o dinheiro do prêmio e mais o patrocínio da CEEE eu consegui realizar o filme. Em 2000, ele foi selecionado como o melhor filme gaúcho e fez um circuito de 28 festivais. Foi o melhor filme latino-americano no Festival de Viña del Mar e o único brasileiro a participar. O filme teve uma excelente repercussão.

Foi um impulso para seguires no caminho do cinema?

Foi, sem dúvida. Tanto que logo em 2003 fui assistente de direção do “Concerto Campestre”, outra adaptação, desta vez do Luiz Antônio de Assis Brasil. E logo em seguida surgiram vários projetos. Os primeiros anos da década de 2000 foram um período muito fecundo: pude viajar muito, fazer muitos contatos, conhecer muitos cineastas, muitos produtores de cinema e nunca me desliguei das minhas raízes. Foi nessa época que surgiu a ideia para fazer outro projeto, o “Estação Suspiro”.

Fala um pouco dele.

O “Estação Suspiro” é um filme que a gente roda por trechos da malha ferroviária de 12 Estados brasileiros. Ele saiu de uma reportagem da Zero Hora sobre um município do Rio Grande do Sul chamado “Suspiro”, um distrito de São Gabriel. Como eu me criei ouvindo histórias de ferroviários, de viagens que as famílias faziam, achei que seria importante resgatar, é algo que desapareceu totalmente do Brasil. E as ferrovias seriam maravilhosas aqui. Lembro que quando estudava, algumas amigas minhas tinham amigos alemães que vinham e ficavam impressionados com o fato de que não era possível ir para Rio e São Paulo de trem. Mas, como eu dizia, Suspiro era um importante entroncamento da ferrovia Bagé-Rio Grande, e quando a estação foi fechada, as pessoas foram saindo de lá. Só sobraram na região um casal, a sra. Maria da Glória e o sr. Nicolau. Ele faleceu. Agora a gente está retomando essa pesquisa com o neto dele.

É uma grande viagem, em todos os sentidos.

Exatamente (risos). Então, o documentário é uma decorrência de tudo o que eu ouvi sobre trens na minha vida. Eu, pessoalmente, nunca viajei de trem. Meu irmão e minha irmã sim, mas eu nunca. Meu conhecimento sobre trens vem através do meu pai, que era topógrafo da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A., estatal de ferrovias fechada nos anos 90). Quando a gente viajava pelo Estado de carro ele apontava um trecho de uma ferrovia e dizia “estão vendo? Fui eu quem fez essas avaliações”. Todo mundo que viveu a época das ferrovias é apaixonado por elas. São os “órfãos das ferrovias”. E o “Estação Suspiro” fala disso, fala das pessoas que sentem essa saudade e continuam vivendo ali perto.

Eu pretendo retomar esse documentário. Projetos adormecidos precisam acordar em algum momento. Eles são como crianças adormecidas que nós precisamos pôr para acordar.

E qual foi o teu último projeto ligado a cinema?

Foi o documentário “Mulheres em construção”, para a Secretaria de Política das Mulheres da Presidência da República.

Eu gostaria de falar um pouco da tua atividade de roteirista. Quando ouço falar em adaptação, sempre lembro de uma resposta do Hitchcock a uma pergunta feita pelo Truffaut naquela famosa entrevista, que inclusive virou livro. Lá pelas tantas o Truffaut pergunta ao Hitchcock porque ele nunca adaptou o “Crime e Castigo”, do Dostoievski – o que parecia quase um escândalo, já que se havia alguém no mundo capaz de fazer uma adaptação competente do livro, esse alguém era o Hitchcock. A resposta do Hitchcock foi mais ou menos a seguinte: “não, nunca pensei, porque não há como adaptar obras literárias. Elas são produzidas com palavras e cada uma dessas palavras têm uma função no todo da obra”. O que, na tua opinião, há de verdadeiro nesse ponto de vista do Hitchcock?

Converter cada palavra em imagem é praticamente impossível, porque são tempos diferentes. Mesmo que tu adaptes para uma série, uma novela, eu acho que será necessário reduzir as coisas, de certa forma. Eu faria o contrário da pergunta que foi feita, invertendo os papéis, como se tu fosses o Truffaut e eu fosse o Hitchcock: “tu, que fizeste adaptação de livros, nunca pensaste em fazer um roteiro autoral”?. Minha resposta é: tenho medo. Parece que me falta o chão, simplesmente não sai. Conheço muitos roteiristas que têm uma facilidade imensa em criar um roteiro novo, uma história. Já eu, me sinto mais à vontade adaptando. Não tenho medo da crítica que costuma dizer que tal e tal filme é inferior ao livro, o que é uma tônica dominante nas adaptações.

Acha que hoje é mais fácil fazer cinema do que quando começaste? Afinal, os equipamentos tiveram uma evolução notável….

De fato. Mas, mesmo assim, se tu remunerares as pessoas e fizeres um filme enquadrado numa produção , o cinema não é barato. O suporte mudou, mas tu aindas tens os custos de produção, mão de obra……agora, claro que quando tu trabalhas com o 35 ainda era muito mais caro, a montagem, a finalização que tinha de ser feita em São Paulo ou no Rio….é algo que, a partir de 2008, começou a mudar. Nessa época as coisas começaram a ficar mais fáceis. As pessoas acham que o suporte baixou e a captação barateou, mas, em compensação, ainda tem que pagar elenco, produção, etc. A não ser que tu faças um cinema totalmente independente, e digo totalmente no sentido pleno da palavra, porque muitos filmes independentes ainda pagam as pessoas envolvidas. Ainda tem que ter orçamento. E tem o outro custo que é a distribuição do filme, que as pessoas nem imaginam que exista.

Mas, no que respeita ao equipamento, é claro que está mais barato. Na época em que eu comecei, havia as moviolas, e aqui na região só havia duas: uma na TVE, outra no Instituto Estadual de Cinema. Era difícil conseguir montar. Nesse sentido, o cinema digital facilitou a vida do cineasta independente.

Qual é o teu objetivo a partir de agora, Tutti?

Meu objetivo agora é terminar o “Estação Suspiro”. E quero terminar o Limite Branco, baseado no primeiro romance que o Caio fez, cujo direito de publicação é meu.

O que dirias para quem quer entrar no mundo do cinema hoje?

Diria que ele tem muito mais chances do que nós tínhamos. A maneira de se fazer cinema é dar um salto no escuro. Foi assim que eu fiz. E sobretudo, assista muitos filmes e tente entender porque as pessoas fizeram cinema e porque elas decidiram contar aquelas histórias.

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Um comentário sobre “Entrevista: Tutti Gregianin, cineasta

  1. Legal a entrevista do Tutti, o Zé como também o chamo. Fui vizinho dele na minha infância, desde aquela época, lá pelos anos de 74/75 (mais ou menos) ele já tinha esse dom, de direção e produção artística. Me lembro bem quando ele e mais amigos fizeram em alguma data comemorativa (que não me recordo qual),um teatro no pátio da casa onde eu morava. Improvisaram figurino e tudo mais. Era tipo um festival e no final o vencedor ganhou um troféu que até há pouco tempo atrás ainda estava na casa da minha mãe como “vaso de flores”. às vezes vejo ele e sempre me cumprimenta e fala comigo sem nenhum desdém, é uma pessoa muito simples e merece o reconhecimento de seu trabalho. Eu sabia que ele estava trabalhando nessa área, mas confesso que não conhecia seus trabalhos, infelizmente pelo pouco valor dado a esses trabalhos e à difícil tarefa de conseguir terminá-los a gente não conhece suas obras. Parabéns Zé.

    Carlos Hernandes

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    Publicado por Carlos HenriqueHernandes | 25 de junho de 2016, 17:07

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