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Um aviso: o papa não é de esquerda

E quem o disse foi o próprio durante visita aos EUA, na semana passada.

“Algumas pessoas podem dizer que algumas coisas que falo soam um pouco mais esquerdistas, mas isso seria um erro de interpretação”, disse ele. E completou: “A minha visão  em relação a tudo isso, ao Laudato Si [encíclica onde o papa critica o consumismo], ao imperialismo econômico, é a da doutrina social da Igreja. Tenho certeza de que não disse nada que não esteja ali”.

O recado do papa tem dois destinatários: aqueles que deploram a sua “virada à esquerda” e o seu suposto progressismo e aqueles que o admiram por esses dois motivos. Tanto o escândalo quanto a surpresa pelas declarações do papa em matéria econômica decorrem da má aplicação do vocabulário da política e do desconhecimento da Doutrina Social da Igreja e do discurso crítico dos católicos sobre o capitalismo, tão antigo quanto o próprio capitalismo e presente em todos os papas desde sempre.

Basta termos em mente o que disse Bento XVI, com quem Francisco é frequentemente contraposto pela mídia como seu antecessor “conservador” (outra expressão da política muitíssimo mal empregue aqui), em sua homilia de ano novo em 2009:

“Queridos amigos, este é o caminho evangélico para a paz, o caminho que também o Bispo de Roma é chamado a repropor com constância todas as vezes que lança mão à anual Mensagem para o Dia Mundial da Paz. Percorrendo este caminho é preciso por vezes voltar sobre aspectos e problemáticas já enfrentadas, mas tão importantes que exigem sempre uma nova atenção. É o caso do tema que escolhi para a Mensagem deste ano: “Combater a pobreza, construir a paz”. Um tema que se presta para uma dúplice ordem de considerações, que agora posso mencionar só brevemente. Por um lado a pobreza escolhida e proposta por Jesus, por outro, a pobreza a ser combatida para tornar o mundo mais justo e solidário”.

E, antes dele, João Paulo II, outro (mal) colocado no lado dos “conservadores”, em sua encíclica “Sollicitudo rei socialis”, de 1987, que ganha muita eloquência quando lembramos que foi escrita na época da Guerra Fria:

“De fato, como é sabido, a tensão entre o Oriente e o Ocidente não provêm, de per si, de uma oposição entre dois graus diversos de desenvolvimento; mas sobretudo entre duas concepções do próprio desenvolvimento dos homens e dos povos, ambas elas imperfeitas e a exigirem uma correção radical. Esta oposição é transferida para o interior desses países, contribuindo assim para alargar o fosso que já existe, no plano económico, entre Norte e Sul, o qual é uma consequência da distância entre os dois mundos: o dos mais desenvolvidos e o dos menos desenvolvidos. Está nisto uma das razões por que a doutrina social da Igreja adota uma atitude crítica, quer em relação ao capitalismo liberalista, quer em relação ao coletivismo marxista.”

Se recuamos um pouco no tempo, veremos opiniões semelhantes em encíclicas e declarações de quase todos os pontífices – algumas delas particularmente ferozes, como a de Pio XI, que ninguém pensaria em qualificar como progressista:

“As últimas consequências deste espírito individualista no campo económico são essas que vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, vedes e lamentais : a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio económico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz. Acrescem os danos gravíssimos originados da malfadada confusão dos empregos e atribuições da pública autoridade e da economia, quais são : primeiro e um dos mais funestos, o aviltamento da majestade do Estado, a qual do trono onde livre de partidarismos e atenta só ao bem comum e à justiça, se sentava como rainha e árbitra suprema dos negócios públicos, se vê feita escrava, entregue e acorrentada ao capricho de paixões desenfreadas; depois, no campo das relações internacionais, dois rios brotados da mesma fonte : de um lado o Nacionalismo ou Imperialismo económico, do outro o Internacionalismo ou Imperialismo internacional bancário, não menos funesto e execrável, cuja pátria é o interesse.”

Em outras palavras, temos a seguinte situação: se Francisco é um homem de esquerda, então Bento XVI e João Paulo II (e todos os demais papas) também são.

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