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Cinema

O futuro de 1985

Dmc11

“Para onde vamos, não precisamos de estradas”: com esta frase, dirigida ao seu companheiro Marty McFly no momento de embarcar no De Lorean, o cientista Doc Brown encerrou o primeiro filme da trilogia “De volta para o futuro”. Faz isso com um sorriso no rosto, ante a surpresa óbvia do personagem de Michael J. Fox. Seu destino era o dia 21 de outubro de 2015, às 16h29 – ou seja, agora mesmo.

O entusiasmo de Brown antevê um futuro que impressionará McFly, que já conheceu o passado em 1955 no decorrer daquele filme. E está certo: McFly está mesmo impressionado ao chegar a 2015. Uma impressão que é característica de sua época, ou melhor, de uma época que estava chegando ao fim naquele exato momento.

Em 1985, época em que “De volta para o futuro” começava a ser feito, a história avançava para um algum lugar hipotético no futuro – e um lugar melhor. De um lado, os que acreditavam num futuro socialista da humanidade, onde a pobreza seria extirpada e toda a técnica estaria a serviço do homem; de outro, um futuro de liberdade de mercado, onde todos teriam oportunidade para vencer na vida. E cada um dos lados trabalhou incansavelmente para que o futuro que sonhavam se tornasse realidade. Do lado capitalista, onde McFly e Brown se movimentam, o medo do bolchevismo e da guerra atômica que atormentou as gerações dos anos 60 e 70 já parecia haver passado – a URSS já não parecia tão aterrorizante e com Gorbachev no poder, já se podia imaginar algum espaço para diálogo. Não havia, então, ainda muito espaço para pessimismo ou desencantamento. O mundo evoluía – o futuro seria melhor do que o presente. Mais moderno, mais avançado, com menos doenças e tecnologia superior. Só estaríamos mais velhos. De resto, tudo seria melhor.

O 2015 que McFly e Brown conhecem está ainda inscrito neste mesmo esquema. Os carros voam, os skates não precisam de rodas, hologramas anunciam os lançamentos cinematográficos, as casas têm todas as comodidades possíveis e imagináveis – tudo o que há não passa de um melhoramento do que existia em 1985. A Internet, então, não era sequer cogitada – logo, não aparece no filme. Também não aparece nenhum dos problemas típicos do novo milênio. Tudo é, simplesmente, melhor – exceto, talvez, as roupas das pessoas.

Quanto mais recuamos no tempo, mais encontramos obras de arte com visões ingenuamente positivas sobre o que seria o futuro da humanidade. À medida que o século XX avançava, começam a aparecer as primeiras visões distópicas e aterrorizantes de sociedades dominadas pelo medo, pelo totalitarismo e pela opressão. É certo que a visão de “De volta para o futuro” não era, então, a dominante. Dois anos antes de “De volta para o futuro”, havia sido lançado “Blade Runner”, que mostrava um futuro com um aspecto bem distinto. É também certo que é um filme de entretenimento, leve e divertido, onde uma imagem apocalíptica não fica bem. Mas quem, hoje, faria um filme sobre as maravilhas que pretendemos encontrar em 2045?  Ou depois? Ninguém, excetuando, talvez, numa comédia de gozação explícita – o que já diz muito sobre o lugar que essa ideia ocupa na cabeça das pessoas de hoje. Não podemos imaginar um 2045 bonito, agradável e colorido. Ninguém pensa hoje em contar uma boa história passada no futuro.

Creio que parte do encanto que temos ao rever “De volta para o futuro” é o contato com essa confiança que parece perdida. Foi o último filme em que era ainda possível olhar para frente com genuíno otimismo e plena confiança – a mesma confiança do dr. Brown ao sorrir para o jovem McFly que acaba de entrar no De Lorean.

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