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A coerência de Maurício Macri

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Quando Mauricio Macri, presidente recém-eleito da Argentina, disse que seria mais fácil Dilma trabalhar com ele do que com Cristina Kirchner muitos brasileiros ficaram surpresos. Afinal, como se sabe, Dilma e Cristina eram amigas, parceiras e compañeras do Mercosul, da “Pátria Grande” e de todos os demais projetos em comum entre Brasil e Argentina. Já Macri, eleito com a promessa de ser a antítese do kirchnerismo em todos os aspectos, seria a antítese também neste. Mais: diante da promessa de aplicar a cláusula democrática do Mercosul à Venezuela, contrariando a posição brasileira sobre o tema, houve quem pensasse que estaríamos diante de alguém disposto a ressuscitar a quase defunta rivalidade Brasil e Argentina dos anos 70. Difícil imaginar que alguém com este perfil poderia ser considerado “melhor” para trabalhar.

A narrativa foi aceita tanto pela direita brasileira quanto pela esquerda. A direita aceitou-a por motivos óbvios; a esquerda, para apoiar aos seus amigos kirchneristas. Exemplo da atitude deste último grupo foi o artigo recente de Emir Sader, publicado em jornais argentinos, sobre um suposto “resfriamento” das relações entre os países. “Estávamos acostumados aos largos abraços”, diz ele. Lembrou de sorrisos, de discursos afetuosos, de troca de camisetas do Racing e do Corinthians entre Lula e Néstor Kirchner. Sader lembrou de muita coisa. Mas esqueceu de outras.

Esqueceu, por exemplo,  que a equipe técnica do governo Dilma já não aguentava mais as diatribes de Cristina, suas medidas protecionistas, suas quebras de contrato, a corrupção beirando o inacreditável (até mesmo para os padrões brasileiros) e a sensação geral de insegurança jurídica nas relações comerciais. Esqueceu também que, em meio a tantas trocas de camisetas, de afagos e de beijos entre os presidentes dos dois países, a realidade é que, para a Argentina, o Brasil não foi o parceiro número um. Este lugar pertencia à Venezuela de Chávez e Maduro, que comprou títulos da dívida platina quando ninguém mais tinha coragem de fazê-lo e vendeu-lhe petróleo a bons preços nos piores momentos de crise. Além disso, o discurso de peronistas e bolivarianos era muito mais próximo. O Brasil de Lula – o Brasil do BNDES, da indústria nacional, da FIESP, das reuniões em Davos, da presença nos grandes círculos internacionais, da Copa e das Olimpíadas – era demasiado capitalista para eles.

E Macri, o empresário, foi para a reunião com Dilma, na sexta-feira passada, em busca deste Brasil. Atrás do que restou dele, talvez. Durante todos os anos de kirchnerismo a oposição argentina, representada por ele, Macri, acostumou-se a nos ver como um modelo a seguir, que conjugava ascensão social e incentivo ao empresário e ao investidor num ambiente político sadio e unificado em seus objetivos básicos. Lula, odiado pela direita brasileira, era adorado pelos seus congêneres argentinos: Macri deu-lhe a chave da cidade de Buenos Aires quando foi prefeito, fazendo um discurso que nem o mais simpático lulista faria. Além disso, tornou-se amigo de Fernando Haddad e seu partido, o PRO, elaborou um protocolo de cooperação com o PSD de Gilberto Kassab, Ministro das Cidades do governo Dilma. Os jornais anti-kirchneristas derramaram mil elogios a Lula, o operário social-democrata amigo dos empresários de seu país, produto da decantada burguesia nacional brasileira, que a Argentina sempre quis ter e nunca teve; o “La Nación” passava comparando os acertos do PT com os erros dos peronistas, os acertos do Brasil com os erros da Argentina, apostando nos resquemores da velha rivalidade cuja existência só os néscios, os pusilânimes e os mal intencionados negam; o “Clarín”, a mesma coisa: chegou a criar uma edição em português para aproveitar-se da onda pró-brasileira.

Os kirchneristas, supostos aliados, seguravam-se para não babar de raiva diante disso. Por trás do sorriso simpático de Lula enxergaram, em não poucas vezes, a face do Brasil imperialista do século XIX, que invadiu sua capital duas vezes, depôs um presidente hostil, o mítico Rosas, e colocou um liberal simpático ao país no poder. Cada abraço em Nestor, cada discurso vazio de integração e cada piada futebolística trazia consigo um grupo de empresas que, pouco a pouco, compraram setores inteiros da economia argentina.   Mas não podiam fazer muita coisa: só o Brasil investia na desacreditada Argentina, só o Brasil lhe emprestava dinheiro sem condicionantes, só o Brasil lhes dava algum apoio nas instâncias internacionais, só o Brasil tinha a tão comentada “paciência estratégica” com seus desmandos, com suas infantilidades, com seus mil erros indesculpáveis, como um irmão maior que perdoa os comportamentos impensados do irmão menor. Além disso, Lula dizia-se amigo dos Kirchner. Isso tudo bastava. Afinal de contas, o grande parceiro deles era mesmo Chávez.

Macri foi para  Brasília com um ar sorridente, simpático, gentil. Antes de embarcar, aos repórteres brasileiros mandou um “oi, bom dia, tudo bem, tudo legal?”, em portunhol legítimo, dizendo que estava praticando para falar com “la presidenta” Dilma Roussef (enfatizando o “la presidenta”, como Cristina gostava de ser chamada e ele, Macri, nunca usou, preferindo o tradicional “presidente”); à rede de TV do Palácio do Planalto disse que o Brasil é sua segunda seleção, depois da Argentina; a Dilma, dedicou alguns minutos de uma conversa que parece não ter sido desagradável. Saiu dela achando a presidente do Brasil “muito tranquila, firme, combativa e com forte caráter” – palavras suas. E a Venezuela? E a reunião do Mercosul? E os atritos que todos esperávamos? Silêncio. Macri tomou um avião para São Paulo, onde foi recebido pelos industriais da FIESP. Prometeu acabar com as barreiras comerciais levantadas pelos Kirchner aos produtos brasileiros e garantir um mínimo de estabilidade institucional, que foi o principal entrave para os investimentos brasileiros na Argentina nos últimos anos. E Venezuela? E os atritos? Sem respostas.

A resposta veio apenas dois dias depois, após as eleições venezuelanas, que resultaram numa derrota dos chavistas conhecida até pelos túmulos da Recoleta. Ali, quase em silêncio, sua chanceler afirmou que, diante da estrondosa vitória reconhecida por Maduro, não via necessidade alguma de acionar a cláusula porque, afinal de contas, a Venezuela se havia mostrado um país democrático. Ponto. Fim de conversa. Vamos para outra pauta. Em menos de quarenta e oito horas, Macri havia passado de guerrilheiro em favor das liberdades venezuelanas a tranquilo espectador do novo processo político daquele país. Maduro continuava no poder, os “presos políticos” continuavam no poder, tudo continuava igual, exceto a constituição do Parlamento que todos esperavam que iria mudar. O que havia, de fato, mudado? Macri não era mais o sujeito combativo dos momentos pós-eleição. Parecia mais tranquilo, mais dócil, mais amigável. É o espírito de um homem que quer olhar para a frente, arregaçar as mangas e pôr mãos e braços para trabalhar.

E não é pouco, o trabalho que terá pela frente. A Argentina que Macri receberá é um país quebrado economicamente, em grave crise social, com problemas institucionais gigantescos e zero de credibilidade internacional. Um país assim exige planos de grande porte, e Macri os tem; o que não falta em seu programa são planos de nome altissonante. Um deles chama a atenção de qualquer brasileiro: trata-se do Programa Económico Social Cuadrienal, um vaso plano de recuperação da sucateadíssima infra-estrutura argentina. O programa atende pelo nome de PEC. Impossível não lembrar do seu quase homônimo, o PAC, e não será sem razão: Macri e sua equipe já disseram que o plano é explicitamente baseado na experiência do governo do PT no Brasil. Mas o PAC brasileiro foi implantado num país onde o dinheiro sobrava. De onde sairá o dinheiro para o PEC argentino?

A resposta nos leva a outro ponto que chamará a atenção de qualquer brasileiro, e revelará muito, ou quase tudo, do que se desenhará nos próximos anos. Em entrevista recente para a TV argentina, Macri revelou o que foi abordado na conversa com Dilma: “A presidente Dilma me disse: temos um montante de créditos aprovados no BNDES, que é um banco enorme de fomento e desenvolvimento de Brasil, para investir na ferrovia Sarmiento e em linhas de energia”.

Uma grande notícia, sem dúvida. Ainda mais para um país como a Argentina. Grandes notícias, nesse tipo de situação, provocam naturalmente aquela sensação de alívio e satisfação, o famoso “sangue doce” da fala popular. Estará aí explicada a tranquilidade, a docilidade, o “tudo joia”, “tudo legal” do outrora confrontativo Macri? Possivelmente. Alguns de seus apoiadores argentinos estão acusando-o de mudar o discurso, capitular, deixar suas ideias de lado; nem todos gostaram dos elogios a Dilma: acusam-no de incoerente. Não creio que tenham razão. Macri está sendo plenamente fiel ao que, há muitos anos, defende como político de oposição. Afinal, ele mesmo não disse aos brasileiros que seria mais fácil trabalhar com ele?

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