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Literatura

A Jornada dos Magos

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália

T.S. Eliot escreveu “A Jornada dos Magos” em 1927, para uma série de cartões ilustrados da editora Faber and Gwyer (atual Faber and Faber) intitulada “Poemas de Ariel”. Escreveu-o pouco depois de ter se convertido ao cristianismo, a portas fechadas e sem alarde, para, dizem, não ferir as suscetibilidades do meio literário. A conversão acabou com seu casamento e trouxe-lhe a pecha de poeta cristão, altamente negativa em certos círculos: deixou-nos, no entanto, esta página e muitas outras: escrito sob o ponto de vista de um dos três Reis Magos a testemunhar o nascimento de Jesus, “A Jornada dos Magos” é, até certo ponto, testemunha do momento vivido pelo próprio Eliot – momento que, creio, é o mesmo para todos os convertidos.

Aqui está uma leitura do poema feita por Eliot, precedida de uma breve explicação.

A tradução é de Ivan Junqueira.

*                  *                    *                        *                    *                    *                      *                   *

“Foi um frio que nos colheu

Na pior quadra do ano

Para uma viagem, e longa era a viagem:

Os caminhos enlameados e o tempo adverso

Em pleno coração de inverno.”

E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,

Jaziam em meio à neve derretida.

Foram momentos em que recordamos

Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,

As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.

E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam

E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.

E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,

As cidades hostis, as vilas inóspitas,

As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.

Foi uma rude quadra para nós.

Ao fim preferimos viajar à noite

Dormindo entre uma e outra vigília,

Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo

Que aquilo tudo era uma loucura.

E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,

Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,

Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,

E três árvores recortadas contra o céu baixo,

E um velho cavalo branco a galope pelo prado.

E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;

Seis mãos se viam pela porta entreaberta

A disputar peças de prata com seus dados,

E pés que golpeavam os odres já vazios

Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos

Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,

E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.

Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,

E outra vez o farei, mas considerai

Isto considerai

Isto: percorremos toda aquela estrada

Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,

Tinhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,

Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,

Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.

Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,

Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,

Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.

Uma outra morte me será bem vinda.

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😊😊 Essa aquarela foi finalizada neste final de semana, mas sempre acho interessante lembrar dos momentos em que a tinta estava secando :) #watercolor #aquarela #gaucho #arts #art 💙💙💙 #sunset #nofilter #TBT 💙 Finalizado #arts #art # #watercolor

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