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As fiações aéreas e seus problemas no cenário metropolitano

É inevitável observar nas paisagens urbanas brasileiras a figura de um elemento comum a quase todas elas: as fiações aéreas. Na maior parte dos cenários das cidades do país os fios elétricos, telefônicos e demais cabos transmissores de algum tipo de energia se fazem presentes em meio ao espaço visual, ligados a postes espalhados pelas ruas. Uma boa parte destes cabeamentos é organizada de maneira em que se torna quase impossível identificar com agilidade o fio interligado a outro poste nos casos de necessidade de manutenção, ampliando a demora no restabelecimento do sinal transmitido por eles aos cidadãos. A presença dessas aberrações visuais já se faz tão comum no cotidiano que, por muitas vezes, nem são mais percebidas pelos olhos da sociedade: as pessoas já estão habituadas a enxergar os labirintos dos filamentos aéreos. Por diversas oportunidades, uma paisagem urbana parece poluída e agressiva aos olhos, sem que se consiga decifrar o motivo pelo qual essa sensação é transmitida. Ao observar com atenção, porém, é impossível ignorar: detrás de um cenário muitas vezes belo arquitetonicamente e florido, as fiações aéreas exibem uma das faces mais disformes das ruas e cidades brasileiras.

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Poste na região dos Jardins, área nobre de São Paulo-SP

A discussão envolvendo a fiação aérea e subterrânea envolve mais do que uma vontade discricionária de embelezar a cidade e torná-la mais amistosa aos seus cidadãos. O grande entrave para a realização das fiações subterrâneas esbarra no seu custo de instalação. Segundo os estudos realizados pelas concessionárias de energia, a instalação da tecnologia por baixo da terra pode custar até dez vezes mais do que a aérea. O viés econômico não pára por aí. Os postes de energia instalados pelas cidades são de responsabilidade das companhias de energia elétrica, que alugam os pontos de fiações para empresas de telecomunicações, transmissões de dados, televisão e demais sinais de energia. É um negócio lucrativo: cada um dos pontos alugados em cada poste pode custar até dez reais o aluguel. Multiplique esse valor pelo número de fios emaranhados em um poste e depois pelo número total instalado em uma região e chegaremos a um valor estratosférico, em que os custos de cada uma das empresas são repassadas ao consumidor.

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Beleza arquitetônica em Milão, na Itália, valorizada pela ausência de poluição visual. Fonte da imagem: Google Street View

É um fato notório que a manutenção dos pontos subterrâneos ocorre em proporção mínima em relação aos atendimentos realizados nos espaços aéreos – isso se dá pelo fato de que o cabeamento realizado por baixo da terra não está sujeito a intempéries meteorológicas ou físicas como os fios pendurados acimas das ruas. A queda de uma árvore em um temporal, por exemplo, não afeta a ligação subterrânea. Se é verdade que a instalação dos filamentos aéreos tem custo menor, é também inegável que a manutenções corretivas destes ocorre em números muito maiores do que nas regiões atendidas por fiação abaixo do solo. As zonas atendidas por tecnologia subterrânea são menos afetadas do que as demais nas situações de emergência em atendimentos.

Observar a discussão entre os benefícios da troca da fiação aérea pela subterrânea apenas pelo contexto da questão econômica de sua instalação por parte das concessionárias é um equívoco feito pelos dos gestores públicos. Qual o valor para uma cidade de um dia sem abastecimento de energia em seu território? Como recuperar os custos perdidos pela sociedade nos períodos em que, por conta das falhas usuais da fiação aérea, ficam desabastecidas em seus comércios, indústrias e residências? Nos períodos sem atendimento, perdem todos: a concessionária, que precisa reparar e deixa de vender a energia; o cidadão, que não pode usufruir para produzir, consumir e desfrutar do serviço; o poder público, que por conta dos demais problemas, é impedido de arrecadar. Os danos econômicos acarretados pela ausência dos serviços são quase impossíveis de serem mensurados.

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A bela paisagem da Rua dos Andradas, em Porto Alegre: ausência de fiações aéreas valoriza a cidade. Fonte: Google Street View

Não pára por aí o malefício de uma fiação aérea pouco confiável. O viés econômico não é o único que deve ser analisado: qual o prejuízo para uma sociedade em ter seu serviço médico e hospitalar interrompido por conta do desabastecimento de energia elétrica? Ou de uma população inteira desabastecida de água em suas casas e trabalhos por conta da inexistência de energia elétrica nas estações de bombeamento? Quantos pontos de arborização seriam ganhos pela população sem o ridículo impedimento de plantio por passagens de fio por cima das calçadas? A retirada de postes melhoraria também a acessibilidade de calçadas, que seriam desobstruídas em grande número.

Nova York nos anos 20 implementou política pública para a troca das fiações aéreas pelas subterrâneas motivadas pelo viés estético. Hoje, colhe os benefícios pela medida tomada na questão turística e na segurança de seus serviços. A cosmopolita Londres tem quase 100% de seus fios instalados por baixo da terra. Os exemplos não precisam ser de fora: Gramado, uma das maiores atrações turísticas do Rio Grande do Sul e do Brasil, tem boa parte de suas ruas comerciais mais importantes com filamentos em galerias abaixo do solo. Os resultados turísticos e comerciais são evidentes: as imagens da cidade são algumas das mais bonitas registradas por conta da ausência da poluição visual. São Paulo implementou recentemente plano para o aterramento dos horrorosos fios que cortam a cidade – a cidade mais rica do Brasil tem apenas 7% de suas fiações instaladas por baixo da terra.

À esquerda, a Rua Padre Chagas, em Porto Alegre, e seus fios aéreos; à direita, Avenida Borges de Medeiros, em Gramado, revitalizada com fiação subterrânea. Créditos: Google Street View e Thread do site Skyscrapercity

É preciso partir dos órgãos governamentais a diretriz para a troca da matriz aérea pela subterrânea nas fiações urbanas. Seja com incentivo público para que os custos não sejam exorbitantes para concessionárias e cidadãos, ou até mesmo com medidas de exigência de contra-partida para investimentos, os ganhos seriam imensos para a sociedade. Valorizar o espaço urbano é investir em qualidade de vida, e revitalizar as cidades traz resultados positivos em todas as áreas, desde a política econômica até o bem-estar social. Redescobrir espaços urbanos belos, mas arranhados por fiações aéreas, é fundamental para transformação das grandes e pequenas cidades.

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Eu e a minha amiga querida @bgraziuso , felizes hoje, logo após participarmos de mesa redonda junto à turma da graduação em Direito da Unisinos, em uma manhã muito enriquecedora e divertida! Obrigada ao prof. @mcatalan1973 pela imensa oportunidade! (Obs. Faltou a Carla Froener, que também participou do evento - e falou muito bem - na foto!) #cansada #runners 🏃 Fê, hoje é o teu dia (eu sei que tu adora comemorar o teu aniversário!). Sigo a nossa tradição, que se mantém desde o início dessa amizade tão valiosa, te desejando, do fundo do meu coração, toda a felicidade do mundo! Sou muito feliz por ser amiga de alguém tão inspiradora, sensível e especial! Feliz aniversário, com muito amor ❤❤❤ (corações vermelhos em respeito ao teu dia!) Obs. Olha as fotos que eu achei hahaha ❤❤ @fernandatrama_ ⭕⚪⚫👍#arts #gremio Quase #arts #gremio

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