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Esportes, Reportagem

Reportagem: conheça o estádio Passo D’Areia, do São José de Porto Alegre

Veja também -Reportagem: Conheça o estádio da ULBRA Canoas


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– Por Celso Augusto Uequed Pitol e Fábio Uequed Pitol

1. Um clube da Zona Norte

A Zona Norte de Porto Alegre tem congêneres em todas as metrópoles do mundo. Explico: qualquer cidade grande tem um espaço, maior ou menor, onde as indústrias e os trabalhadores das indústrias alocaram-se para gerar a riqueza de que os outros usufruirão: um espaço longe do centro, das artérias comerciais, das grandes casas das áreas mais afastadas, dos novos centros tecnológicos onde a economia do futuro começa a brotar. Mesmo assim, são marca de tempo, de história e de memória.

Toda cidade tem a sua Zona Norte. A Zona Norte dos londrinos, por exemplo, é o East End, que o mundo conheceu através dos romances policiais de Conan Doyle; a dos porteños é a Boca; a dos paulistanos é a Mooca. Em todas elas, nos muitos becos que cercam as fábricas das Zonas Nortes do mundo as crianças e jovens, filhos e netos de trabalhadores, juntam-se em grupo para jogar futebol. Os muros viram goleiras; as latas de lixo, traves; o asfalto, relvado onde aspirantes a messis e neymares disparam do círculo central imaginário em direção ao gol. É natural que em locais assim surja sempre um clube de futebol que congrega suas populações e as representa para o mundo. O clube do East End é o West Ham United; o da Boca, desnecessário dizer, é o Boca Juniors; o da Mooca paulistana é o Juventus, o Moleque Travesso, talvez o maior símbolo brasileiro de resistência ao chamado “futebol moderno”.

O clube da nossa Zona Norte portoalegrense é o São José.

E o digo em mais de um sentido. É o clube onde os moradores da região fazem cursos de dança; onde jogam vôlei e basquete; onde frequentam as piscinas; é, em suma, um clube com todas as letras, que congrega e confraterniza as populações de seu entorno para atividades de lazer. Na contramão do que prega a tão falada “modernização do futebol” – que, as mais das vezes, é apenas um codinome para o afastamento progressivo do torcedor comum – o São José reforça o laço com a comunidade e com sua torcida reforçando aquilo que é próprio dos clubes, ou seja, justamente essa congregação de pessoas.

E foi este clube que visitamos na quarta-feira da semana passada para dar prosseguimento ao nosso ciclo de matérias sobre os estádios de futebol. Não por acaso, ao adentrarmos na sede social do “Zequinha”, como é carinhosamente chamado, o que vimos foi justamente a piscina do clube repleta de frequentadores. Naquela tarde quente de janeiro, a Zona Norte e o São José deixavam à mostra, diante dos nossos olhos, a sinergia inquebrantável que têm – e que expressam, também, dentro do Estádio Passo d’Areia, quando o “mais querido do RS”, como é chamado, entra em campo.

2. Percorrendo o Passo D’Areia

Em plena atividade às vésperas do início do calendário do futebol, o Estádio Passo D’Areia está preparado para a temporada. Fugindo do rótulo de “clube trampolim”, o São José é ambicioso e demonstra isso nas suas próprias estruturas.

O Passo D’Areia é o estádio particular mais antigo em uso na cidade de Porto Alegre, sendo que a história de sua construção mostra a luta e o desejo do clube por ser mais do que uma pequena agremiação. O primeiro campo do São José foi “A Montanha”, localizada onde hoje funciona o Hospital Militar de Porto Alegre nas proximidades da Avenida Cristóvão Colombo. Com o crescimento da instituição, foi adquirida uma nova sede, na rua Frederico Mentz – até então rua São José -, localizada no bairro Navegantes. A mudança não durou muito tempo: uma grande enchente em Porto Alegre destruiu a nova estrutura e forçou a volta para o estádio da “Montanha”. Os dirigentes do Zequinha não se abateram. Entre idas e vindas – o clube chegou a jogar por um período no velho Estádio da Baixada, do Grêmio – e dificuldades de localização de uma sede definitiva em função dos planos habitacionais da cidade que impediam fixação, em 1939 foi adquirido o terreno atual, no então denominado bairro Passo D’Areia – origem do nome da edificação. A inauguração do estádio se deu um ano depois, no dia 24 de maio de 1940 em amistoso com o Grêmio, em jogo que terminou em vitória gremista por 3 x 2.

A construção do estádio tinha originalmente apenas uma arquibancada, localizada no local em que hoje está o setor social do torcedor no estádio. Hoje, o estádio do São José comporta 10 mil pessoas no ampliado e bonito Passo D’Areia, fruto da parceria feita na última década com Francisco Noveletto – hoje presidente da Federação Gaúcha de Futebol – e o Grupo Multisom. Além do pavilhão social, o estádio recebeu outro lance de arquibancadas do outro lado do campo e um “tobogã” atrás do gol que fica de costas para a sede social do clube. Mais: todos os setores destinados ao torcedor no estádio são cobertos. A ampliação do Passo D’Areia catapultou o São José a outro patamar no cenário porto-alegrense. Hoje, o estádio é candidato a sediar shows de grande porte, com capacidade de público para mais de 25 mil pessoas e já foi palco de apresentações históricas: R.E.M., Elton John, Pearl Jam fizeram shows ali, e a tradicional banda nacional Só Pra Contrariar gravou seu DVD ao vivo no campo do Zequinha.

A iluminação do estádio permite a realização de jogos à noite sem nenhum prejuízo técnico ou visual. O alto custo da iluminação, no entanto, é um problema.

A entrada social do estádio Passo D’Areia oferece ao frequentador mais do que uma experiência de futebol. Encravado em meio ao cenário urbano, todo complexo do São José mostra a típica figura do “club del barrio” tradicional: há, além do velho e histórico estádio da Zona Norte porto-alegrense, toda a área social do clube, com piscinas, academias, ginásios esportivos, salões de festas e áreas de convivência. O São José é um clube de bairro e tem orgulho de suas raízes, algo surpreendente em um mundo de futebol nos dias de hoje onde a figura do clube, na acepção original da palavra, quase que desaparece: Brasil afora, sedes sociais das grandes associações esportivas do futebol brasileiro são reduzidas ou até mesmo extintas. O São José conserva a sua. Da entrada da sede social, na Avenida Assis Brasil nº 1200, o São José guarda um dos últimos resquícios da alma do clube local na metrópole do século XXI.

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A fachada da sede social do São José de Porto Alegre

A figura de clube prevalece dentro da sede. Mais do que uma instituição ligada apenas ao futebol, o São José exibe cartazes de seus eventos sociais e de outros esportes ligados à agremiação em suas paredes e murais. A sede administrativa do clube fica exatamente ao lado da entrada da sede social, e lá se localiza o gabinete da presidência e toda a administração do São  José.

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A entrada da sede administrativa e o muro com referência ao título de voleibol feminino em 2015: o São José é mais do que apenas futebol

Dentro da sede administrativa, o São José guarda algumas de suas referências históricas e momentos marcantes do clube. Na sala da presidência um antigo cofre azul, de 1943, sem uso, fica ao lado da mesa do presidente. Quadros, pôsteres, flâmulas e bandeiras do São José são expostas nos corredores e salas adjacentes. Em uma das paredes, o lema “O mais simpático do RGS” é escrito logo acima do emblema do clube.

 

Um dos principais orgulhos do São José é exposto também nas paredes da sede administrativa. O certificado de clube formador de atletas,  emitido pela Confederação Brasileira de Futebol.

Dentre os principais jogadores revelados pelo São José nos últimos anos destaca-se o centroavante Walter, hoje atleta do Atlético Paranaense. A formação de atletas gera recursos importantes para o clube. A cada transação de um jogador formado na base do clube, recursos financeiros entram nos cofres do São José pelo mecanismo financeiro de solidariedade instituído pela FIFA para os clubes formadores de jogadores.

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O certificado de clube formador

A entrada da área social guarda um cenário bucólico e bonito. Escapando da por muitas vezes inóspita avenida Assis Brasil, o usuário da sede social do São José entra em um ambiente florido, arborizado, silencioso e de pacífico convívio com a natureza – em uma das vegetações, observamos um casal de pássaros tranquilamente próximo às pessoas, sem demonstrar o receio habitual que as aves tem da aproximação humana. O ambiente é aconchegante e acolhedor.

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Entrada da área social

Nas dependências da área social fica também o Galpão Crioulo do São José. O espaço, decorado com as tradições regionalistas do Rio Grande do Sul, é frequentemente utilizado pelos sócios em confraternizações e eventos específicos durante o ano. O Galpão tem churrasqueira, bares, boa capacidade de público e ambiente esportivo de lazer com esportes de mesa.

O ginásio de esportes do São José também é acessível aos sócios e é palco de diversos torneios no decorrer do ano. Tem capacidade para abrigar cerca de 300 pessoas e recebe disputas de futebol de salão, vôlei e basquete.

Uma das áreas mais valorizadas do clube na área é a das piscinas. Em um ambiente bonito e bem cuidado, é um dos grandes atrativos para associação ao São José. Logo ao lado, fica a academia de musculação, bem equipada e com acompanhamento. A academia fica abaixo das arquibancadas do “tobogã” do estádio Passo D’Areia.

Também abaixo das arquibancadas do estádio fica a quadra de bocha.

3. O gramado

Fizemos o acesso ao gramado do estádio pelo setor diretamente ligado à área social, atrás do gol à direita das cabines de transmissão do estádio. Ao pisar no gramado do estádio na tarde de sol sentimos imediatamente o inconfundível cheiro de borracha quente: o estádio Passo D’Areia exibe, desde 2011, um campo de gramado sintético que substituiu a tradicional grama natural que crescia no campo do Zequinha. “Fizemos a escolha pelo campo de grama sintética em 2011. Francisco Noveletto trouxe a experiência do novo estádio do Chivas, o Omnilife Stadium, aonde o Internacional enfrentou os mexicanos na final da Libertadores de 2010 e o campo era com essa tecnologia de gramado artificial”, disse o presidente Milton Vaz. “Essas polêmicas a respeito da nossa grama são infundadas. Com relação ao suposto desequilíbrio técnico, quando nos vencem aqui, silenciam; se perdem, colocam a culpa no gramado. O índice de lesões ocorrida nesse tipo de grama não é diferente de outros gramados. Usam muito o exemplo do Sorondo (que se machucou jogando contra o São José pelo Internacional), mas o Sorondo se machucava o tempo todo. Em relação à temperatura da grama, esse horário que aqui estamos (eram 15h30) nem sequer teria jogo. Parece tão quente assim?”, nos perguntou o presidente. O campo realmente parecia estar mais quente do que um gramado natural.

No setor ao sul do estádio fica o “tobogã”, arquibancada atrás do gol construída recentemente pelo São José. Ali, costumam ficar os torcedores do São José mais fanáticos – o clube tem duas “barras”, os grupos que fazem mais barulho no estádio, os “Guaipeca” e os Farrapos – em um setor com capacidade para mais de 2 mil pessoas. A proximidade ao gramado impressiona: do primeiro degrau ao campo, a distância é inferior a 4 metros. Após a inauguração do setor ainda foi instalada uma cobertura, que impede o contato com chuva e confere proteção nos horários mais fortes do sol. O clube ainda discute a possibilidade de colocar cadeiras ali. A arquibancada do tobogã é simples e simpática, e dá ao torcedor a legítima sensação de assistir ao jogo em um estádio acanhado e de muita pressão.

A visão atrás do gol
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A proximidade da arquibancada com o campo

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No lado leste do estádio, junto à avenida Rio São Gonçalo, fica a arquibancada central. Construída em frente ao pavilhão social e com visão do centro do campo, é um dos locais de melhor visibilidade do estádio. Também coberta, fica em frente às cabines de transmissão da televisão e tem capacidade para cerca de 3 mil pessoas.

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Rua São Gonçalo, atrás da arquibancada central no lado leste do estádio

A visão para a arquibancada central do Passo D’Areia
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A visão da arquibancada central para o campo

 

No setor ao norte do estádio fica a parte incompleta das arquibancadas. Lá, o São José construiu um ginásio de esportes de campo sintético – diferente da grama aprovada pela FIFA do Passo D’Areia – aonde lucra com o aluguel de campo a particulares. O campo sintético ao fundo do estádio tem visão direta para o campo.

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O ginásio esportivo atrás do gol no setor norte do Passo D’Areia

O coração do estádio pulsa no setor do pavilhão social, no lado oeste do Passo D’Areia. Lá, foi erguida a primeira arquibancada da história do estádio. Ali também é o local aonde ficam os vestiários de jogadores, casamatas, acessos das delegações ao campo, cabines de televisão e rádio, camarotes e a sala de direção de futebol do São José. É o único setor do estádio em que as arquibancadas são tomadas pelas cadeiras – por sinal, muito confortáveis e com grande espaçamento entre elas.

 

As confortáveis cadeiras e a privilegiada visão do setor do pavilhão social do estádio
A casamata e a visão do campo

As cabines de transmissão no estádio são bem localizadas. Ficam no mesmo setor dos camarotes do estádio e são acessadas por meio das arquibancadas do pavilhão social.

A sala do diretor de futebol fica no mesmo nível do campo e tem visão direta do gramado, protegida por uma película de vidro que impede que os jogadores vejam a sala. O objetivo é não intimidar jogadores em testes e manter a privacidade do local.

Atrás do pavilhão social, ficam os acessos para os alojamentos de jogadores. Profissionais e atletas da base são atendidos nas dependências do clube em quartos com ar-condicionado, mesas, banheiros, TVs com videogames, filmes e jogos de mesa.

O acesso das delegações se dá em local sem circulação de público, com entrada por baixo da arquibancada do pavilhão social e junto ao estacionamento de dirigentes e autoridades que comparecerem ao Passo D’Areia. A entrada é pela Rua São Nicolau, interditada pela segurança pública em dias de grandes eventos.

 

 

Especificações:

– Nome oficial do estádio: Estádio Passo D’Areia
– Capacidade atual: 10.000 pessoas
– Inauguração: 24 de maio 1940
Primeiro jogo: São José 2 x 3 Grêmio
– Quando começaram as obras: 1939
– Dimensões do gramado: 105m x 74m

Veja mais fotos abaixo:

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Discussão

5 comentários sobre “Reportagem: conheça o estádio Passo D’Areia, do São José de Porto Alegre

  1. Amigos, apenas uma correção importante. No tobogã atrás do gol é onde fica a nossa torcida, do São José. A torcida adversária fica na arquibancada oposta ao pavilhão. É a nossa torcida atrás do gol que garante a pressão para as vitórias do Zecão!

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    Publicado por Eduardo Torres | 3 de fevereiro de 2016, 10:47
  2. Oi Boa tarde adoro o clube São José .meu filho weslen Barreto e um dos atleta categoria 2000.professor.Maurício.WESLEN e meia.gostamos muito do Zequinha .meu filho joga muito bem .tenho serteza que ele vai sair daí um grande proficional .obrigada

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    Publicado por Isabel flores | 6 de fevereiro de 2016, 11:40

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  2. Pingback: Reportagem: conheça o estádio Couto Pereira, do Coritiba | PERSPECTIVA ONLINE - 23 de fevereiro de 2016

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