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Marcelo Grohe, um gremista

Sem Título-1

Muito se passou no Grêmio desde a foto acima. Muito mesmo. O renascimento do clube, iniciado a partir da heroica campanha na série B, renovou o orgulho gremista, orgulho este que no sombrio ano de 2004 – o qual, curiosamente, parece tão mais distante do que 2005 – havia se perdido.

Uma coisa, todavia, não mudou desde que esta foto foi clicada: Marcelo Grohe, envergando a camiseta tricolor.

Formado nas categorias de base do clube, Marcelo Grohe, naquele momento, era reserva de Galatto. A perspectiva de titularidade era escassa, para não dizer inexistente, sequer sendo especulada. Com o desenrolar dos acontecimentos, essa perspectiva se tornou ainda menor. Como é de notório conhecimento, os momentos que sucederam o clique desta foto transformaram Galatto – com justiça – em herói gremista, daqueles que serão lembrados eternamente.

Mas não é sobre Galatto este texto. É sobre Marcelo Grohe. À época, Grohe era um jovem goleiro promissor, com convocações para a seleção brasileira sub-18. A posição de goleiro, contudo, pode ser cruel com os jovens promissores. Afinal,apenas uma vaga do time titular é destinada ao goleiro, inexistindo possibilidade  de improvisos e adaptações- ao contrário do que ocorre nas demais posições.

Assim, com a chegada do ano de 2006, havia uma certeza no Grêmio: a absoluta titularidade de Galatto, o herói da Batalha dos Aflitos.

Entretanto, no futebol – como na vida – as intercorrências ferem as certezas, e muitas vezes colocam na posição de protagonistas aqueles que, em princípio, seriam apenas coadjuvantes.

Foi o que ocorreu com Marcelo Grohe, em 2006. Uma triste lesão tirou Galatto do Campeonato Gaúcho daquele ano, e Marcelo Grohe foi alçado à titularidade, justamente na decisão, contra o Internacional – cujo elenco, pela qualidade, era chamado de “Diamantes”. Evidentemente, a desconfiança acometeu a torcida gremista: poderia esse jovem goleiro substituir o herói Galatto? Marcelo Grohe mostrou que sim e, contrariando as expectativas, o Grêmio sagrou-se campeão gaúcho em 2006.

No decorrer do ano, contudo, as atuações de Marcelo – assim como as de Galatto – foram irregulares.Da base, surgia um novo goleiro promissor: Cassio. Muito se questionava, assim, quem deveria ser o titular da equipe em 2007, ano em que o Grêmio, surpreendentemente, tão pouco tempo após o calvário da série B, voltaria a disputar uma libertadores.

A resposta da direção foi: nenhum deles. Sebastian Saja, experiente goleiro argentino, foi contratado, e os três goleiros provenientes da base permaneceram na reserva.

Em 2008, Saja já não jogaria mais pelo Grêmio. Galatto, desprestigiado, saiu do clube. Especulava-se, desta forma, que Marcelo poderia ser o titular da equipe no ano que se iniciaria.

Não foi o que ocorreu. O Grêmio contratou o – até então – desconhecido goleiro Victor. Marcelo seguiu na reserva. Cássio, entretanto, optou por sair do clube, diante da ausência de perspectiva de oportunidades.

Com a afirmação de Victor, supôs-se que Marcelo, talvez, fosse preferir sair do Grêmio. Afinal, passava o tempo e não havia expectativa de sequência de jogos. Havia certa insegurança quanto suas reais qualidades, e o goleiro sofria com críticas – muitas vezes duríssimas – que pareciam obscurecer ainda mais a sua chance de, algum dia, ser o dono da camiseta 1 do Grêmio.

Victor foi titular nos anos de 2008, 2009, 2010 e 2011. Absoluto. Consagrado. E Marcelo era o reserva que ora entrava bem, ora entrava mal. Havia uma síndrome de Murilo que o rodeava (quem acompanhou o Grêmio nos anos 90 sabe do que falo). O “eterno reserva”.

Mas por que, então, Marcelo não saiu do Grêmio? Por que nunca se ouviu do goleiro sequer uma palavra amargurada, ressentida com a falta de confiança e oportunidades? Aliás, pelo contrário: nada disso parecia abater seu gremismo. Recorde-se, por exemplo, da partida comemorativa que marcou a despedida de Danrlei dos gramados, em 2009, quando afirmou que todo goleiro formado na base do Grêmio almeja “ser um Danrlei”.

Victor, em 2012, era ídolo do clube. Passava a impressão de que passaria o resto de sua carreira no Grêmio. Mas havia um porém: Victor não era gremista. Assim, para espanto dos gremistas, Victor decidiu por encerrar sua trajetória no Grêmio no meio de 2012, abdicando de envergar a camisa 1 no último ano do Olímpico e na partida inaugural da Arena.

Alçado inesperadamente à titularidade diante de uma intercorrência – como ocorrera em 2006 – Marcelo não decepcionou. A campanha do time no último campeonato brasileiro disputado no Olímpico foi gloriosa, e quiseram os deuses do futebol que fosse Marcelo – um verdadeiro gremista – o goleiro que disputaria a partida de inauguração da Arena do Grêmio.

À época da saída de Victor,  declarou:

– No ano passado, eu tinha jogos contados. Agora, só depende de mim. Já passei bons e maus momentos. A nossa carreira não é só um mar de rosas. O grande homem é o que sabe passar por momentos de dificuldades. Vou trabalhar para errar menos. Mas pode acontecer, e as cobranças serão normais.

– Agora, espero construir a minha vida aqui dentro. E, ser gremista, dá um combustível a mais.

A titularidade em 2013 parecia, enfim, uma possibilidade concreta. O Grêmio, entretanto,  optou por contratar Dida. E Marcelo voltou à reserva.

Qualquer outro jogador, diante deste evidente desprestígio, teria se desestimulado e, compreensivelmente, procurado outros caminhos. Marcelo Grohe, porém, optou por permanecer no Grêmio, ignorando propostas de outros clubes. Em silêncio. Sem resmungos ou indiretas.

Com a saída de Dida ao final do ano, a direção do Grêmio decidiu que 2014 seria o momento de conferir a Marcelo Grohe, então com 27 anos, a chance de titularidade. Após 9 anos na reserva, Marcelo foi distinguido com a camisa 1 do Grêmio, a qual, desde então, a ele pertence. Com sequência de jogos, Grohe tornou-se titular inquestionável,  símbolo dentro do clube, um jogador-torcedor, tão raro no futebol moderno, ambiente no qual as palavras, por vezes, são vazias. Ao contrário do que comumente se vê, Marcelo sempre agiu em conformidade com o gremismo que até hoje afirma, e optou por perseverar dentro do clube do coração (em atitude que, inclusive, se assemelha à postura que o técnico gremista, Roger, adotou durante sua carreira como jogador).

É como se algo interior lhe fizesse crer que, algum dia, alcançaria a glória que sempre declarou almejar dentro do Grêmio. Em vez de buscar novos caminhos em outros clubes – nos quais teria, inequivocamente, que passar por um período de adaptação – preferiu permanecer em casa, focado, sempre humilde e positivo. Jamais se manifestou com amargura ou rancor, mesmo diante das mais crueis críticas (quem não se recorda da frase “o Grêmio não tem goleiro”, proferida por um dos mais influentes jornalistas do Rio Grande do Sul?). E hoje, consagrado, tampouco usa seu sucesso como argumento amargurado para relembrar daqueles que tão duramente o criticavam.

Ao final de 2015, quando renovou seu contrato até 2020, reiterou seu desejo de encerrar a carreira no Grêmio:

– É um sonho que estou realizando e sempre disse que, se um dia eu terminasse minha carreira no Grêmio, estaria realizado profissionalmente. Hoje estou mais perto de alcançar este objetivo no clube que amo.

grohe2020

Talvez este tenha sido o segredo de sua evidente evolução como goleiro: em vez de se abater com as críticas, o foco de Marcelo foi um, e apenas um, ao longo dos 9 anos de espera pela titularidade: ser um goleiro melhor para o Grêmio.

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Sobre Yassmine Uequed Pitol

Yassmine Uequed Pitol nasceu em Porto Alegre em 30 de maio de 1984. Graduada em Direito em 2011 pela Uniritter. Pós graduada em Direito do Consumidor pela Ufrgs (2014). Cursou Artes Visuais na Ufrgs.Atualmente cursa Pós Graduação em Direito Processual Civil na Uniritter e mestrado em Direito no Unilasalle. Yassmine gosta de jogar futebol e de correr. Pintora e desenhista, acompanha futebol, filmes, seriados, música e tênis. No Perspectiva Onlina, escreve sobre tudo isso e muito mais.

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