Esportes, Reportagem

Reportagem: conheça o estádio Couto Pereira, do Coritiba

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  • Por Celso Augusto Uequed Pitol e Fábio Uequed Pitol

Os viajantes estrangeiros que conheceram Curitiba no passado, em particular os da primeira metade do século XX, destacaram vários pontos: a beleza da vista da cidade, o clima agradável no verão, o caráter empreendedor do seu povo e, por tudo isso, o futuro grandioso que os curitibanos teriam.

Hoje, passados quase cem anos, podemos confirmar tudo o que foi dito naquele momento: Curitiba, neste 2016, apresenta todos estes pontos plenamente desenvolvidos. E apresenta mais um, que em geral não foi captado pelo olhar dos viajantes naquele momento: o futebol.

Talvez nem fosse possível. Naquela altura, os clubes que hoje mobilizam milhões de paranaenses encontravam-se em estágio embrionário. E um destes clubes era o Coritiba Football Club, fundado em 1909 pela reunião de alguns membros da comunidade alemã da cidade. Situado hoje no bairro Alto da Glória, o “Coxa Branca”, como é carinhosamente conhecido pelos seus torcedores, está desde 1932 instalado à rua R. Ubaldino do Amaral, 37 – Alto da Glória, Curitiba – PR, 80060-195, no estádio Major Antônio Couto Pereira, cujo nome homenageia o presidente idealizador da histórica casa paranaense. E neste endereço, no sábado, fomos muito bem recebidos pelo staff do clube para visitar o casarão coxa-branca, com a cortesia de Diego Marinelli e Alan Roger Galvão da Silva.

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Reportagem: Conheça o estádio da ULBRA Canoas

Falar do bairro Alto da Glória é falar do Coritiba e do velho Couto Pereira. A região, eminentemente residencial, é um reduto alviverde na capital do Paraná – a maior parte dos moradores do bairro é torcedora do Coritiba. “O crescimento do Bairro acompanhou o crescimento do Couto Pereira.”, diz Alan Galvão.

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Nosso guia no estádio foi Alan, funcionário responsável pelo memorial do Coritiba. Alan é historiador do futebol paranaense e membro do Grupo Helênicos, formado em 2004 por pesquisadores e torcedores do Coritiba com o objetivo de resgatar a história do clube. O nome do grupo faz homenagem ao jornalista pioneiro da literatura esportiva paranaense, Francisco Genaro Cardoso, que assinava suas colunas sob o pseudônimo “Helênico”. O grupo elaborou um belíssimo livro que conta a história do Coritiba e de jogadores marcantes de sua história: lançado em 2012, “Helênicos” tem quase 500 páginas e é brilhantemente produzido com material qualificadíssimo de pesquisa.

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O livro “Helênicos”, que conta um pouco da história do Coritiba

O Couto Pereira não foi o primeiro estádio do Coritiba. O clube jogou por anos em um campo no Parque da Graciosa, cedido por Arthur Iwersen, torcedor do clube. O estádio, no entanto, logo se tornou pequeno. O presidente do clube à época, Antônio Couto Pereira, decidiu que era o momento da instituição crescer e ter sua própria casa, maior e mais qualificada: nascia ali o Estádio Belfort Duarte, que mais tarde receberia o nome de seu idealizador.

Começamos nossa visita no Estádio Couto Pereira pelo coração da torcida: a arquibancada. Situada atrás do gol à esquerda das cabines de televisão, a arquibancada do clube recebe as torcidas organizadas do Coritiba e os torcedores que desejam pagar valores menores pelo ingresso. A arquibancada do estádio Couto Pereira reflete a alma e a tradição da velha casa coxa-branca. Corredores rústicos e anéis de arquibancadas cor de cimento chamam atenção na curva “olímpica” que se forma em frente ao setor. “É o setor em que o torcedor mais comparece”, afirma Alan Galvão da Silva. O clima clássico continua nos portões de acesso dos torcedores. No lugar das novas esplanadas dos estádios brasileiros pós-2014, o velho portão de ferro conduz o torcedor diretamente ao campo de jogo.  Nas antigas arquibancadas alviverdes é que se criou famoso “Green Hell” (em um divertido possível trocadilho com a clássica fase Green Hill Zone, de Sonic the Hedgehog), o oceano luminoso de verde e branco que a torcida fazia com sinalizadores.

Na parte central do campo, junto às cabines de transmissão, fica o principal pavilhão do estádio. Erguido no mesmo local onde as primeiras arquibancadas de madeira do velho Belfort Duarte foram construídas na década de 30, o velho pavilhão social do Coritiba é coberto e completamente preenchido com confortáveis cadeiras. As próprias cadeiras dão tom ainda mais clássico ao setor: em design distinto ao padrão comum visto nas novas Arenas do país, foram instaladas na década de 70 e persistem até hoje na casa coxa-branca. O “pavilhão da social” tem dois anéis e capacidade para 6.092 torcedores. As áreas de circulação do setor são antigas e charmosas. Decorações com imagens da história do estádio Couto Pereira embelezam as paredes do local, que recebeu na sobre-loja do primeiro anel um pequeno memorial do Coritiba – o memorial do clube está sendo realocado em decorrência das obras no setor Pro Tork.

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Cabine de rádio, localizada no setor do pavilhão das sociais

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Major Antônio Couto Pereira, em pé junto aos tijolos da arquibancada, vestindo trajes pretos, durante a construção do estádio, na década de 30

O pequeno memorial conta com a exposição de taças e momentos marcantes da história do Coritiba. É dividido em quatro vitrais, que se dividem entre feitos internacionais, municipais, estaduais e nacionais. Em um painel luminoso, acima deles, o primeiro time da história do Coritiba é mostrado. Uma das taças expostas no memorial conta um pedaço importante da história do futebol paranaense: a “Taça Calçado Fox”, torneio de caráter amistoso promovido pelo patrocinador com objetivo de arrecadar fundos para instituições de caridade, colocou Coritiba e Atlético Paranaense frente-a-frente na década de 20. À época, os clubes não cultivavam a forte rivalidade dos dias de hoje. O confronto terminou empatado e com pancadaria generalizada: ninguém levou o simbólico título para casa. Na segunda partida, mais confusão e outro empate. No terceiro jogo, o Coritiba venceu e garantiu o troféu para si – e ganhou um rival para o resto de sua história.

O setor de circulação interna do estádio do Coritiba recebeu o nome de “Belfort Duarte”, em homenagem ao antigo nome do estádio Couto Pereira. Aliás, a mudança do nome tem uma explicação histórica. “Quando o estádio foi inaugurado, na década de 30, não havia um grande expoente da história do Coritiba que houvesse morrido que pudesse ser homenageado com algo tão importante quanto o nome do estádio do clube. Assim, o clube optou por homenagear Belfort Duarte, que havia sido jogador do América e nome reconhecido e respeitado. O presidente do Coritiba à época era Antônio Couto Pereira, que lutou muito pela construção da casa do clube. Na década de 70, na reforma de ampliação do estádio, foi alterado o nome da edificação, fazendo justiça aos serviços prestados por nosso antigo presidente. A homenagem ao Belfort se mantém viva na nossa zona de circulação social”, nos explica Alan Galvão.

O mural de imagens do Couto Pereira faz um resgate histórico da casa alviverde e simboliza a verdadeira alma da edificação: é um estádio em constante evolução. Inaugurado na década de 30, foi, nos anos 40, o primeiro estádio do Paraná a contar com iluminação noturna; na década de 50, expandiu primeiro anel; nos anos 60, as obras do segundo anel do estádio têm começo; na metade dos anos 70, a conclusão do primeiro anel; nos anos 80, o Couto Pereira visto até os anos 2000, onde duas grandes obras são feitas, em especial no novo setor Pro Tork, inaugurado em 2012.

A conclusão do 1º anel do estádio conta um pouco da relação do clube com o Couto Pereira.  O Coritiba se orgulha de sua ligação próxima com o estádio e de tê-lo erguido, reformado e ampliado com recursos próprios. O clube terminou a ligação completa do primeiro anel do estádio usando os recursos da venda de Dirceuzinho, um dos melhores jogadores brasileiros nos anos 70, para o Botafogo carioca.

No segundo anel do pavilhão social, um mar de cadeiras verde-brancas inundam o setor formando as letras “CFC”, iniciais do clube. Acima, as cabines de rádio, televisão e camarotes têm uma das mais valorizadas visões do estádio. A gigantesca cobertura sem alicerces chama a atenção. “Desconfio que seja a maior estrutura de cobertura sem pilares em extensão”, diz Allan Galvão.

Nos setores das sociais o Coritiba instalou camarotes, comercializados para torcedores e patrocinadores. São locais fechados, climatizados e com boa visão do campo.

No primeiro anel das sociais, o clube destinou grande espaço junto às muretas para circulação de torcedores. A capacidade de público do setor foi reduzida, mas a mobilidade foi melhorada. Os primeiros lances de arquibancada são de livre circulação. A proximidade com o gramado chama a atenção também. Enquanto atrás dos gols a distância do campo até a torcida é razoável, nas laterais o Couto Pereira é tão próximo – ou até mais – que a média das Arenas brasileiras.

Atrás do gol à direita das cabines televisivas fica o setor destinado à torcida adversária. Um espaço amplo, com três anéis de livre circulação entre si e capacidade para receber até 4 mil pessoas: o Couto Pereira é um dos estádios brasileiros que mais recebem aficionados adversários em suas dependências, muito por conta de sua localização geográfica estratégica, próximo dos clubes de Sul e Sudeste. O setor tem uma história interessante. Durante décadas, foi o “lar” das torcidas organizadas e populares do Coritiba, até que nos anos 2000, com as reformas feitas no estádio, migraram para o outro lado. O motivo é simples: o setor onde hoje se concentram os visitantes recebe muito mais iluminação solar. Com a aquisição por parte do clube do terreno junto à rua Floriano Essenfelder, se tornou mais seguro e eficiente a separação e escoamento de torcedores adversários do estádio.

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Acesso separado da torcida adversária

Na chamada “Curva da Mauá”, no lado nordeste do estádio, fica uma espécie de setor intermediário para a torcida do Coritiba. Nem as escadarias de pedra seca, e nem o conforto das cadeiras: pequenos bancos acomodam os torcedores em um setor arquitetonicamente muito parecido com o das arquibancadas do estádio.

Chegando à famosa “Reta da Mauá” surge o mais badalado e moderno setor do estádio. Atendendo a uma demanda de décadas da torcida, o Coritiba concluiu as obras junto à Rua Mauá e deu ao torcedor um setor com padrão similar ao dos melhores estádios brasileiros. Reformado em parceria com a Pro Tork, o setor, que leva o nome da empresa, é completamente loteado com cadeiras rebatíveis e atende a todos padrões de acessibilidade exigidos. O pavilhão é coberto e conta com quase 30 camarotes de alto padrão.

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Abaixo das arquibancadas do setor Pro Tork, ficam os alojamentos dos jovens jogadores do clube. As instalações impressionam pelo senso estético e pela ligação com o clube em todos os detalhes. O setor “Dirceu Krüger”, em homenagem a um dos maiores ídolos da história do clube, é decorado com imagens relevantes da história do Coritiba e com fotos, nas portas dos quartos das jovens promessas, de grandes jogadores já revelados pelo Coritiba. Os alojamentos têm computadores, televisões, espaço gourmet, e jogos de mesa para momentos de lazer dos meninos ali instalados.

A sala de imprensa fica no térreo do novo pavilhão do Couto Pereira. Acessada por uma estratégica porta ao lado do saguão de entrada dos torcedores, é espaçosa e confortável.

Os corredores de circulação do no setor do estádio reservam uma bela paisagem para a tradicional rua Mauá. Envidraçado, o pavilhão que fica de costas para a rua oferece ampla visão de Curitiba e do movimento na região.

Na saída de nossa visita presenciamos um momento especial para o clube e o Couto Pereira. Sentado nas antigas arquibancadas e assistindo solitariamente ao treino do grupo atual que trabalhava dentro de campo estava Dirceu Krüger – o homenageado nos alojamentos do estádio. Dirceu foi nada menos do que hexacampeão paranaense consecutivo pelo Coritiba e é o segundo em número de jogos como treinador pelo clube. “A história do Dirceu com o Coritiba é incrível. Estreou contra o Grêmio e já fez um gol – feito que se repetiria nas sete primeiras partidas dele pelo clube. No auge de sua carreira, sofre uma lesão tenebrosa quando um  jogador adversário lhe desfere uma voadora criminosa na altura de seu estômago. Saiu do campo direto para o hospital. Com lesões horríveis internas e externas, recebe por duas vezes a extrema unção no leito hospitalar. Consegue a recuperação e, além de voltar a jogar futebol, é campeão paranaense. Como treinador, foi o segundo em número de jogos no comando do Coritiba. É até hoje funcionário do clube”, nos conta, orgulhosamente, Alan Galvão.

Dirceu Krüger receberá na quarta-feira, 2 de março de 2016, uma estátua no pátio do Couto Pereira paga integralmente pelos torcedores do Coritiba. “Fizemos uma ‘vaquinha’ com o objetivo de arrecadar 140 mil reais. O torcedor abraçou a idéia e conseguimos mais do que esperávamos: 160 mil reais entraram para a conclusão do projeto”, diz Alan Galvão.

De uma das partes mais elevadas do bairro Alto da Glória nos despedimos do velho Couto Pereira, um estádio em constante modificação. Das velhas arquibancadas à modernidade do setor novo erguido junto à rua Mauá, o tradicional palco paranaense conserva sua história e um pouco da alma dos antigos estádios brasileiros. Muito se discutiu sobre a possibilidade da construção de um novo campo para o clube no formato “arena” recentemente. Alan Galvão rejeita a idéia: “A torcida do Coritiba não deseja isso. O Couto Pereira é a casa do torcedor alviverde”. Em uma época de novas Arenas e modelos padronizados de alguns estádios, o Couto Pereira é um alento para os apaixonados por futebol. A clássica casa curitibana se mantém firme e forte na capital paranaense.

Dados do Estádio Major Antônio Couto Pereira

Fundação: 20/11/1932

Primeiro jogo: Coritiba 4 x 2 América, dia 20/11/1932

Maior Público: 80.000 pessoas – Visita do Papa João Paulo II, dia 5 de agosto de 1980

Maior público em dia de futebol: Atlético Paranaense 2 x 0 Flamengo, com público de 67.391 pessoas em 05/08/1980

Capacidade:
Arquibancadas Coritiba (A+B+C+D+E): 17.473
Arquibancadas Visitantes (J): 4.007
Cadeiras Pro Tork (F+G): 4.443
Camarotes Pro Tork Ampliação (F+G): 288
Camarotes Pro Tork (F+G): 168
Cadeiras Mauá (H+I): 6.770
Cadeiras Sociais Inferiores (K+L+M): 2.019
Cadeiras Sociais Superiores (K+L+M): 4.673
Cadeiras Tribunas de Honra (L): 202
Camarotes Inferior/Superior (K+L+M): 377
Cabines de Imprensa (K+L+M): 82
Total Geral de Lugares: 40.502

Banheiros: 35 sanitários, sendo 16 femininos e 19 masculinos

Lanchonetes: 17

Câmeras de vigilância: 32 – preparando-se para receber 124 câmeras

Vestiários: 02

Estacionamento (número de vagas): 400

Medida do Campo: 109,00m x 72,00m

Tipo de grama: Bermuda 419

Fonte de dados: Alan Roger Galvão da Silva e site oficial do Coritiba

Veja mais fotos abaixo:

Para quem deseja visitar o Estádio Couto Pereira, é oferecido um tour pelo clube.

ESTÁDIO TOUR

HORÁRIOS

Terça à Sábado e feriados: 9h30, 10h30, 11h30, 13h30, 14h30, 15h30, 16h30.

Domingos: 10h30, 11h30 e 12h30.

O Estádio Tour leva cerca de 50 minutos.

VALORES

Ingresso: R$ 15,00
Meio ingresso* e sócios: R$ 7,50
Grupos (+10 pessoas e Escolas): sob consulta

TOUR EXPRESSO (Galeria de troféus e Setor Social)

HORÁRIOS

Terça à Sábado e feriados : Das 9h00 às 17h00
Domingo: Das 10h00 às 13h00

VALORES

Ingresso: R$ 10,00
Meio ingresso*: R$ 5,00
Sócios: Free

Grupos (+10 pessoas e Escolas): sob consulta

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Os ingressos estão disponíveis no Portão 6, na Recepção do Setor Pro Tork do Estádio Couto Pereira. Pagamento somente em DINHEIRO.

*Meio ingresso conforme legislação vigente e mediante comprovação.
Sócios precisam apresentar seu SmartCard e RG.
Grupos devem realizar agendamento com antecedência.

As visitas estão sujeitas a disponibilidade, cancelamento e alterações sem aviso prévio.

Mais informações: (41) 3218-1993

Discussão

2 comentários sobre “Reportagem: conheça o estádio Couto Pereira, do Coritiba

  1. Sou fã de estádios que preservam sua história mesmo se modernizando, infelizmente as novas arenas não tem isso, por esse motivo, considero o Couto Pereira o estádio mais bonito do Brasil.
    Parabéns pela matéria!!

    Curtir

    Publicado por Kleber Fujimory | 23 de fevereiro de 2016, 23:02

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  1. Pingback: Série: estádios de futebol | PERSPECTIVA ONLINE - 23 de fevereiro de 2016

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