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Creedence Clearwater Revival e a Guerra no Vietnã: uma interpretação de “Who’ll stop the rain?”

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Creedence Clearwater Revival

O rico e poderoso cenário musical nas décadas de 50, 60 e 70 influenciou gerações de jovens mundo afora em âmbito político e cultural. Foi uma época de questionamentos e de movimentos estudantis fortes com manifestações anti-governistas e anti-guerra, que se viram representados nos acordes das harmonias musicais criadas por conjuntos como Creedence Clearwater Revival – em especial, no que dizia respeito ao grito de basta pelo conflito armado no Vietnã. A guerra no sudeste asiático, que começou em 1955 e se estendeu até 1975, foi mais um exemplo dos horrores que ocorreram em um mundo dividido politicamente entre dois grandes centros políticos: os Estados Unidos e a União Soviética. Ao sul, a República do Vietnã, com ajuda econômica e militar dos americanos; ao norte, a República Democrática do Vietnã, amparada por China e União Soviética.

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O confronto no sudeste da Ásia foi marcado por fatos horrorosos contra a humanidade. Aviões norte-americanos despejaram nos céus vietnamistas milhares de bombas e armas químicas como Napalm e o aterrorizante “Agente Laranja”. Os efeitos biológicos das armas foram incomensuráveis. O Napalm gruda na pele causando queimaduras devastadoras ao corpo humano – a agonia dos vietnamistas atingidos pelo líquido inflamável foi captado pelas lentes do fotógrafo Nick Ut, que venceu o prêmio Pulitzer de 1973 pela imagem icônica do horror da guerra no Vietnã. O “Agente Laranja” é ainda pior. O exército americano, desesperado pelas estratégias de guerrilha dos vietcongues, pulverizou os céus do Vietnã do Norte com mais de 80 milhões de litros do herbicida desfolhante, que buscava destruir as produções de alimentos inimigas e as vegetações em que se escondiam. Os resultados foram assustadores: a substância causou mutações genéticas, cânceres em larga escala, destruição de habitats naturais e distúrbios congênitos vistos até hoje, 40 anos depois do final do conflito. As chuvas explosivas e químicas assolaram vietnamistas, os próprios soldados americanos e não pouparam nem mesmo o solo do país.

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A icônica foto de Nick Ut, que venceu o Pulitzer em 1973 registrando o horror do Napalm no Vietnã

As chuvas de Agente Laranja desolaram o ecossistema do Vietnã. O desfolhante destrói as vegetações, enegrece as árvores um dia verdes, penetra no solo apodrecendo raízes e atinge os lençóis freáticos. Décadas depois, imensas áreas de agricultura do país ainda apresentam níveis de dioxina – substância presente na composição – centenas de vezes acima do tolerável pelo corpo humano.

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Helicóptero americano pulverizando o Vietnã com “Agente Laranja”: efeitos devastadores são sentidos até hoje

Quase três milhões de americanos foram enviados ao Vietnã nos longos anos em que o conflitou durou. 58 mil deles morreram, juntamente de mais de 2 milhões de vietnamitas – grande parte deles simples camponeses. Os horrores da Guerra do Vietnã foram responsáveis por uma onda chamada de “contra-cultura” na sociedade ocidental, responsável, dentre outros, por um aumento da politização em músicas populares americanas – em especial, o folk e o country. A vertente mais conhecida foi o movimento Hippie.  O movimento, majoritariamente liderado por jovens, teve uma das suas maiores expressões expostas no Festival de Woodstock, de 1969. Centenas de milhares de pessoas reuniram-se por três dias de sol e chuva regados a música, sexo e rock n’roll, o mantra do movimento em afronta ao chamado “establishment” – as organizações e instituições oficiais. Woodstock foi o ápice da contra-cultura. A música foi o pano de fundo de uma manifestação visual e ruidosa que ganhou o mundo. A contra-cultura criou movimentos sociais de contestação.

Do palco de Woodstock veio a inspiração para uma das mais belas canções produzidas pelo conjunto musical do sul da Califórnia conhecido como Creedence Clearwater Revival, cujo ritmo de folk/country conquistou o país nas décadas de 60 e 70. A banda se tornou uma espécie de símbolo contrário à guerra no Vietnã nos Estados Unidos do período. Em uma de suas produções mais conhecidas e abertamente crítica ao conflito, John Fogerty, vocalista e líder da banda, juntamente de seus companheiros, criticaram o alistamento militar obrigatório nos Estados Unidos e seus critérios na inesquecível “Fortunate Son” (Filho afortunado). Durante a apresentação da banda no Festival, uma chuva torrencial caía nos campos em que o público assistia as apresentações. John Foggerty, líder e cantor da banda, afirmou:  “Olhei o público do festival dançando na chuva, na lama, despidos, no frio e amontoados, e a chuva não parava de cair. Quando voltei para casa, sentei e escrevi “Who’ll Stop The Rain?”. O Creedence Clearwater Revival foi a primeira grande banda a garantir presença em Woodstock.

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Woodstock foi um dos maiores símbolos da contra-cultura

De fato, a chuva foi um elemento presente e marcante em Woodstock. O simbolismo da intempérie fez Foggerty criar uma belíssima música crítica à guerra e à política: “Who’ll Stop The Rain”, uma das mais belas baladas produzidas pela banda, traz mensagens de protesto e críticas.

Who’ll Stop The Rain?    (Quem vai parar a chuva?)

Long as I remember    (Desde que me lembro)

The rain been comin’ down    (A chuva vem caindo)

Clouds of myst’ry pourin’     (Nuvens de mistério vertendo)

Confusion on the ground     (Confusão sobre a terra)

A Guerra no Vietnã arrastava-se por longos anos e trazia consigo milhões de mortes entre civis e militares no sudeste da Ásia. Fogerty, que abertamente inspirou-se nas cenas que via durante o Festival de Woodstock, conseguiu transmitir ao mesmo tempo o que seus olhos captavam e o simbolismo do que representavam aquelas cenas: a chuva que caía no céu americano nos dias de festivais era para ele um símbolo do que acontecia no Vietnã. As bombas que eram jogadas dos aviões diariamente há anos causavam destruição e horror com chuvas de líquidos inflamáveis e produtos químicos destruindo as terras da região.

Good men through the ages    (Bons homens através dos tempos)

Tryin’ to find the sun    (Tentando encontrar o sol)

And I wonder    (E eu me pergunto)

Still I wonder    (Ainda me pergunto)

“Who’ll stop the rain?”    (“Quem vai parar a chuva? “)

O significado metafórico de “encontrar o sol” sugere a busca pela paz e resolução de conflitos – o sol é usualmente utilizado como sinônimo de esperança e bons momentos. Fogerty no trecho demonstra que, apesar dos aparentes esforços de pessoas com também aparentes boas intenções, não houve “quem parasse a chuva”, que pode ser entendida como a própria guerra ou os bombardeios de Napalm e Agente Laranja. A chuva e as nuvens, do primeiro trecho, seja no sentido literal ou metafórico, eram obstáculos aos esforços dos “bons homens” que “tentavam encontrar o sol”. A chuva ainda pode ser compreendida de outra forma: como as mentiras inventadas e propaladas ao público. Quem irá parar a guerra? Quem irá parar o bombardeio de Napalm e Agente Laranja?

I went down Virginia    (Eu fui para a Virgínia)

Seekin’ shelter from the storm    (Procurando abrigo da tempestade)

Caught up in the fable    (Envolvido na fábula)

I watched the tower grow    (Eu observava a torre crescer)

Sabe-se que John Fogerty serviu ao exército americano na base militar de Fort Lee, no Estado da Virginia, de onde viu milhares de compatriotas serem enviados à guerra. John ficou entre os reservistas. Envolvido ao meio militar, enxergou de perto a crescente tensão do conflito e às complicações da guerra para os Estados Unidos, o Vietnã e toda a humanidade. Milhares de veteranos de guerra retornaram ao país com disfunções psíquicas jamais resolvidas.

Five year plans and new deals    (Planos de cinco anos e novos acordos)

Wrapped in golden chains    (Envoltos em correntes douradas)

And I wonder    (E eu me pergunto)

Still I wonder    (Ainda me pergunto)

Who’ll stop the rain    (“Quem vai parar a chuva?)

Aqui a referência política e crítica é bastante evidente. De um lado, os “planos de 5 anos”, quinquenais, característicos da União Soviética na planificação da economia promovida pelo governo local; de outro, o “Novo Plano/Acordo”, o famoso New Deal promovido pelos Estados Unidos para recuperar a economia do país após a tenebrosa Crise de 29. A próxima frase é ainda mais impactante. Ao dizer “Envoltos em correntes de ouro/douradas”, John lembra que os Governos se locupletam das amarras do maquinário em que mantém seus cidadãos. Com o uso de dois dos termos simbólicos de cada um dos projetos de país, Fogerty critica as promessas vazias políticas que visam beneficiar não a sociedade, mas sim o poder político. Em meio a tudo isso, segue se perguntando: “Quem irá parar a chuva?”, com o mesmo significado das estrofes iniciais.

Heard the singers playin’    (Ouvimos os cantores tocando)

How we cheered for more    (Como pedimos por mais!)

The crowd had rushed together    (A multidão tinha se reunido)

Tryin’ to keep warm    (Tentando manter-se aquecida)

Still the rain kept pourin’    (Ainda assim a chuva continuava caindo)

Fallin’ on my ears    (Caindo nos meus ouvidos)

And I wonder    (E eu me pergunto)

Still I wonder    (Ainda me pergunto)

“Who’ll stop the rain?”    (“Quem vai parar a chuva? “)

A estrofe final da música dá o tom da narrativa da canção inspirada em meio ao famoso festival de Woodstock. Fogerty, assim como os outros presentes no evento, cantou e ouviu as vozes que clamavam pelo fim dos conflitos no Vietnã. Em meio à chuva torrencial que caía, a multidão se mantinha próxima para manter-se aquecida. É ao mesmo tempo um relato do que acontecia e um desabafo: apesar de todos os esforços dos presentes, dos “bons homens através dos tempos” e das promessas políticas, a chuva continuava a cair. “Caindo em meus ouvidos”, diz Fogerty: o relato dos veteranos de guerra abalados pelas experiências vividas em combate registra que os sons das explosões e horrores vividos persistem, ainda que não estejam mais nos campos de batalha.

Como se percebe, todo o teor da música é de desalento. John Fogerty narra sua tristeza com o conflito, as mortes e a política em geral por toda a canção. Em 1975 a guerra no Vietnã acabou. Mais de 40 anos depois, seus efeitos deletérios ainda são vistos no país e em todos os envolvidos no conflito. “A chuva”, de certa forma, jamais parou de cair no país assolado pelo Napalm e pelos efeitos do Agente Laranja.

“Who’ll stop the rain” é uma canção atemporal e brilhante composta por uma das mais respeitadas bandas country/folk de todos os tempos. Como não lembrar da música ao pensar nas outras guerras pós-Vietnã ou em obscuros acordos políticos arquitetados por governos? 46 anos depois de criá-la, John Fogerty segue cantando sua música com a mesma força e significado de sempre. Para quem presenciou os horrores gerados pelo conflito no Vietnã, a chuva nunca deixará de cair.

Deixamos aqui duas sugestões de “Who’ll Stop The Rain”: a original, do Creedence Clearwater Revival, e outra lançada recentemente com John Fogerty cantando junto de Bob Seger.

Creedence Clearwater Revival e a Guerra no Vietnã: uma interpretação de “Who’ll stop the rain?”
Creedence Clearwater Revival e a Guerra no Vietnã: uma análise de “Who’ll stop the rain?”
Creedence Clearwater Revival e a Guerra no Vietnã: um significado de “Who’ll stop the rain?”
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