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Literatura

Um ano sem Eduardo Galeano

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Há exatamente um ano, no dia 13 de abril de 2015, Eduardo Galeano nos deixava.

Naquele dia, eu tinha uma tela aberta do WordPress, como tenho agora, lançando algumas ideias para um texto novo. Por volta das dez da manhã, recebi a notícia. Após alguns segundos de surpresa, seguida por um breve momento de inafastável tristeza, pedi à Yassmine que fizesse um desenho – o que está acima – para ilustrar a nota que, a partir dali, comecei a escrever. O que estava fazendo antes não era tão importante. Galeano, o nosso Galeano – nosso: dos brasileiros, dos argentinos, dos mexicanos, dos venezuelanos, dos chilenos, de todos os outros – merecia a preferência.

Um ano passou e muita coisa mudou. A América Latina, continente ao qual Galeano dedicou sua mirada particularíssima, passa por novos desafios, da Argentina ao México, do Brasil ao Chile. Muitos dizem que nós, latinoamericanos, estamos vivendo tempos turbulentos. Não concordo: uma afirmação dessas supõe que existam épocas de calmaria para contrapor às de agitação; e, como sabemos, neste lado do mundo, a turbulência é a norma, não a exceção. Mudam apenas a frequência e a intensidade dos solavancos. Galeano, que conhecia a memória de nosso continente como poucos, não se surpreenderia com a América Latina de 2016. É provável que não achasse que muita coisa mudou.

Para mim, a grande mudança reside na ausência de Galeano. 2016 foi o primeiro ano que passei sem seus artigos, sem novos livros, sem visitas ao Brasil, sem entrevistas dadas em excelente português, sem as merecidas homenagens, sem suas opiniões sobre política, cultura, a vida cotidiana, sobre tudo.

Para nós, que fomos seus leitores, resta um pequeno consolo: Galeano deixou um último manuscrito, intitulado “O caçador de histórias”, que acaba de ser publicado em castelhano e deve ser lançado em português até junho.

Deixo um dos textos que fazem parte do volume, retirado daqui. Um texto que tem muito a dizer àqueles que, como eu, abrem diariamente a tela do WordPress.

* * * *

Por que escrevo/II

Se não me engano, foi Jean-Paul Sartre quem disse:

Escrever é uma paixão inútil.

A gente escreve sem saber muito bem por que ou para que, mas supõe-se que escrever tem a ver com as coisas nas quais a gente acredita da maneira mais profunda, tem a ver com os temas que nos desvelam.

Escrevemos tendo por base algumas certezas, que tampouco são certezas full-time. Eu, por exemplo, sou otimista segundo a hora do dia.

Normalmente, até o meio-dia sou bastante otimista. Depois, do meio-dia até as quatro, minha alma despenca para o chão. Lá pelo entardecer ela se acomoda de novo no seu devido lugar, e de noite cai e se levanta, várias vezes, até a manhã seguinte, e por aí vamos…

Eu desconfio muito dos otimistas full-time. Acho que eles são um resultado dos erros dos deuses.

Segundo os deuses maias, todos nós fomos feitos de milho, e por isso temos tantas cores diferentes, tantas como tem o milho. No Brasil, talvez nem tantas, mas no resto da América, sim: milho branco, amarelo, avermelhado, marrom, e por aí vamos. Muitas cores. Mas antes houve algumas tentativas muito desleixadas, que deram bem errado. Uma delas teve como resultado o homem e a mulher feitos de madeira.

Os deuses andavam chateados e não tinham com quem conversar, porque aqueles humanos eram iguais a nós mas não tinham o que dizer nem como dizer se tivessem o que dizer, porque não respiravam. Não abriam a boca. E se não respiravam nem abriam a boca, não tinham alento. E eu sempre pensei que se não tinham alento, também não tinham desalento. Portanto, não é tão desastroso que a alma da gente despenque para o chão, porque é só uma prova a mais de que somos humanos, humaninhos e nada mais.

E como humaninho, puxado pelo alento ou pelo desalento, conforme as horas do dia, continuo escrevendo, praticando essa paixão inútil.

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😊😊 Essa aquarela foi finalizada neste final de semana, mas sempre acho interessante lembrar dos momentos em que a tinta estava secando :) #watercolor #aquarela #gaucho #arts #art 💙💙💙 #sunset #nofilter #TBT 💙 Finalizado #arts #art # #watercolor

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