Literatura

Dom Quixote, matriz de releituras

Pela ocasião dos 400 anos do falecimento de Miguel de Cervantes Saavedra, autor de “Dom Quixote”

Estudo para “Dom Quixote”, de Salvador Dalí (1956)

“O presente e o futuro podem considerar-se como rivais, e quem solicite os favores de um não há de esperar senão o desdém do outro”
Miguel de Cervantes Saavedra

Clássico – diz Ítalo Calvino – é o livro que nunca acaba o que tem para dizer. É uma definição muito boa. Sintética, concisa, simples e direta: em uma palavra, radical. Parece que Calvino coligiu todas as concepções, antigas e modernas, sobre a formação do cânone literário e, após compará-las entre si, extraiu o princípio de todas elas. Não parece caber objeção ao ensinamento do mestre italiano – autor, aliás, de um Porquê ler os clássicos -, que vale, por ser radical, para todos os livros comumente designados com o título de “clássico”. A Divina Comédia, o Fausto, Os Lusíadas – todos eles ganham novos leitores a cada geração que passa e, tanto a eles quanto aos que virão, dizem algo de importante. Nunca acabam o que têm para dizer. São, portanto, clássicos.

Essa questão é antiga. Borges foi um dos que dela se ocupou e, como sempre fez com seus temas favoritos, levou-a para dentro da ficção. Em um de seus contos mais famosos, um padre francês chamado Pierre Menard quer reescrever a história de um clássico da literatura para os leitores de hoje. Para tanto, deve operar profundas modificações no texto, a ponto de torna-lo completamente diferente do original. Como os fãs de Borges já devem ter percebido, o conto é o conhecidíssimo “Pierre Menard, autor do Quixote”, e o livro é, evidentemente, o Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Pergunta-se: como ficou a nova versão? Exatamente igual, é a desconcertante resposta. Pierre Menard reescreveu toda a obra, linha por linha, parágrafo por parágrafo, repetindo, inclusive, os pontos, as vírgulas e todos os erros narrativos, estilísticos e gramaticais da primeira edição. Não foi necessário modificar o texto original para que um outro surgisse em seu lugar. Bastou o tempo passar, e as novas idéias, modismos, estruturas sociais e econômicas formassem um novo leitor, responsável por uma nova leitura completamente diferente da anterior. E a obra, ano após ano, seria incessantemente reescrita, não por aquele que a escreveu, mas por aqueles que a lêem.

Qualquer leitor atento percebe que é impossível a tarefa de Pierre Menard. A passagem do tempo não reescreve um livro. Por mais hermético, criativo, ideológico ou religioso que possa ser um leitor, ele não tem o poder de extrair de uma obra algo que ela não possa dar. Toda leitura está adstrita a um campo limitado de possibilidades estabelecidas, inconscientemente ou não, pelo autor. Ainda que algumas delas possam ser descobertas pelas circunstâncias específicas de uma época, essas circunstâncias não poderão atuar livremente. É a obra que dá o limite; não podemos “ler” ou “ouvir” algo que o autor simplesmente não tenha dito. Borges sabia disso, e escreveu o “Pierre Menard” para satirizar certa tendência filosófica de origem francesa que até hoje domina os meios acadêmicos. A nacionalidade do padre não foi casual, e nem o foi a escolha da obra – pois que outro livro que não o Dom Quixote serviria para simbolizar o ideal de obra aberta a toda interpretação?

Nesse mesmo caminho – o da interpretação – voltaremos à questão do clássico. O livro que nunca acaba o que tem para dizer permite, por essa razão, múltiplas interpretações – algumas mais simples, outras mais refinadas e todas elas ternas respondendo aos mais universais desejos e inquietações do homem. Um clássico não termina o que tem para dizer porque nós não paramos de fazer-lhe perguntas, questionar suas afirmativas, revirá-lo do avesso em busca de algo mais, por mínimo que seja – em suma: porque nós o relemos.

De todos os integrantes dessa reunião de obras sagradas pela crítica denominada “cânone”, o Dom Quixote parece ser aquele que incorpora esse ideal em sua totalidade. Já lá se vão quatrocentos anos – comemorados neste ano com grande festa na Espanha, nas Américas e em toda a imensa Hispânia global – desde que a história do funcionário público Miguel de Cervantes Saavedra foi publicada pela primeira vez em Madrid, na casa do livreiro madrilenho Juan de la Cuesta, em 16 de janeiro de 1605. De lá para cá, a trajetória de Alonso Quijana, o fidalgo espanhol que, enlouquecido pela leitura das novelas de cavalaria, transforma-se em cavaleiro medieval e sai pelo mundo em busca de aventuras, só ganhou interesse. Aceita interpretações de todas as ideologias, filosofias ou modas que surgiram partir do século XVIII, e dá a cada uma a sua parcela de razão. Ao mesmo tempo, numa perspectiva sincrônica, agrada e toca aos leitores de qualquer idade. Crianças e jovens o lêem com prazer, já que é uma história divertida sobre alguém que pensa que é cavaleiro andante. Um leitor mais maduro percebe que as batalhas ilusórias de Dom Quixote têm muito a ver com seus próprios sonhos de juventude, e já não as achará tão divertidas assim. Por outro lado, um marxista – entre eles o próprio Karl Marx – vê nele os últimos dias da Idade Média feudal, esmagada pelas forças sócio-econômicas do então nascente mundo burguês. Existencialistas o têm como livro de cabeceira, por representar a solidão humana na luta inglória entre a fé e a razão. Numa linha parecida, alguns românticos observaram o fim da poesia, do espírito livre e da imaginação e o começo das limitações da prosa, da qual o romance é o gênero por excelência. Até freudianos, com o próprio Freud à frente, que considerava Cervantes um psicanalista exemplar, e liberais, representados pelo artigo recente de Mario Vargas Llosa, tomaram a trajetória do Cavaleiro da Triste Figura como matéria-prima para suas reflexões sobre o homem. Nos acompanha desde as primeiras letras até a velhice e, no decorrer desse caminho, revela-se de tantas maneiras quanto as experiências de vida nos permitem perceber.

“Experiência de vida” é um termo fundamental quando se trata de estudar o Quixote – sobretudo a experiência da vida de seu autor. Ainda que a crítica biográfica tenha muitos detratores e um bom número de oposições bem fundamentadas, às vezes – ou freqüentemente – ela é um importante acessório. No caso de Cervantes e do seu Quixote, a relação entre os passos da vida do criador e os da criatura se mostra muito próxima quando os analisamos lado a lado. Não que Cervantes tenha construído Dom Quixote à sua imagem e semelhança; antes é possível imaginá-los como opostos. O que nos interessa, aqui (por enquanto), é como a vida atribulada do cidadão espanhol do século XVII projetou-se na criação do maior personagem da literatura ocidental.

Ao contrário de outros de seus contemporâneos, como Shakespeare, temos um bom arquivo sobre a vida de Cervantes. Sabemos que ele nasceu em 1547, em Alcalá de Henares, de família empobrecida, e estudou em Sevilha e Madrid antes de viajar para Roma, em 1569, como camareiro. Entrou para o exército espanhol, em 1570, confessadamente por falta de dinheiro. Toma parte, no ano seguinte, da célebre batalha de Lepanto, quando forças católicas derrotaram os turcos otomanos. Lá foi seriamente ferido e levado para um hospital em Messina, onde ficou vários meses. Volta à batalha em 1575, para combater em Tunis, mas é preso e se torna escravo do rei Hassan Pacha por cinco anos. É salvo pelo monge Juan Gil, que o leva para a Espanha em 1580. Terminou aí a parte aventureira da vida de Cervantes. Logo que voltou à pátria, casou-se com Catalina de Palácios e assumiu cargos públicos na Andaluzia e nas cidades de Valladolid e Madrid, onde a segunda parte do Dom Quixote foi terminada, em 1615. Viria a morrer, sem dinheiro, em 23 de abril de 1616.

Essa vida foi, grosso modo, dividida em três décadas de agitação e outras três de acomodação inerte. Na visão de mundo de Cervantes, explicitada a partir de 1580 em suas obras literárias, há uma ressonância de seus anos como soldado e funcionário da corte italiana, quando viajou pelo Mediterrâneo – à época, espécie de suma do melhor que a humanidade produzira – e viu, de perto, a corrupção moral da aristocracia (Cervantes teria presenciado orgias com a participação do próprio papa e seus cardeais) e a gratuidade da existência humana no campo de batalha, onde um tiro de arcabuz termina, muito simplesmente, com qualquer discussão. É um mundo onde qualquer esperança merece apenas, e numa leitura unívoca, a definição que Aristóteles lhe deu na Ética a Nicômaco: “o sonho dos homens acordados”.

Nem todo homem acordado sonha, é óbvio. Cervantes, por exemplo, não sonha. Não entrou para o exército por patriotismo, e sim porque precisava do soldo. Lutou em Lepanto por ordem do general, e não por acreditar na causa. Voltou a Tunis para tentar vender-se como mercenário, e, por um capricho do destino, acabou preso. Quando tudo dá errado, retorna à Espanha e, mansamente, assume cargos no funcionalismo público, ao que tudo indica sem qualquer brilho nem grande aspiração. Foi preso duas vezes, em 1605 e 1615, e em ambas aproveitou o tempo para escrever parte do Dom Quixote. Estóico, individualista, algo fatalista, irônico, mas também, e por isso mesmo, destemido e voluntarioso: Cervantes é um espanhol bem típico.

E tipicamente espanhola é a sua ironia. Na capa da edição de 1605 já se pode perceber o primeiro traço dela. Há ali um escudo adornado por um leão (símbolo universal da nobreza cavalheiresca), dentro do qual está escrita a frase Post tenebras spero lucem – após as trevas, espero a luz. Cervantes não cita a fonte, mas a frase é do “Livro de Jó”, aquele cuja fé Deus pôs à prova e que, no fim, foi presenteado com o dobro do que tinha perdido. Não é daqueles típicos lemas constantes em brasões reais, do tipo “e pluribus unum” (único entre muitos), que exaltavam as virtudes incomparáveis do cavaleiro; é uma mensagem otimista, esperançosa, algo ingênua, de corações fiéis como o de Jó. Mas quem é Jó, senão um dos maiores desgraçados de toda a literatura ocidental, um homem que perdeu toda a fortuna, a casa e a família na firme esperança de que Deus não o abandonaria? Esta era a luz que ele esperava para iluminar as trevas que recaíram sobre a sua vida. Eis, então, como se anuncia, na verdade, a “gloriosa” trajetória de Dom Quixote: como uma desgraça. Como sabemos, ele é louco, e a única luz que pode vir libertá-lo é a da sanidade. Definitivamente, não será Cervantes, este homem tão cético quanto aos valores humanos e tão irônico quanto ao que se costuma chamar “grandes ações”, que vai tecer loas a um homem em cima de um cavalo, de lança em punho e vocabulário estranho, que confunde moinhos de vento com monstros e prostitutas com donzelas. Não; Cervantes é um homem muito realista.

Pois o homem Cervantes, de firme senso de realidade, de intensa experiência vital, conhecedor do grande Mediterrâneo, ex-combatente na maior batalha de seu tempo, que é irônico, mordaz e cético, pode, sem nenhum prejuízo à sua biografia, dizer junto com Whitman: “Comrade! this is not a book/ Who touches this touches a man“. Esse homem não é o autor, como o vate americano queria dizer, mas sim o fidalgo Alonso Quijana, que vivia na Mancha, no centro-sul da Espanha, com a sobrinha, uma ama e um empregado. Só podemos tocar, pelo livro, a Alonso Quijana; criador e criatura, como já foi dito antes, são muito diferentes. Quijana, ao contrário de Cervantes, não tem absolutamente nada para fazer. Ocupa seu tempo livre – quase todo o dia – com um hobby, como diríamos hoje: as histórias de cavalaria. Na sua casa há uma biblioteca cheia deles, e ele leu-os todos, com fervor de devoto religioso. Apaixona-se por Lancelot, Galahad, Carlos Magno e, não contente com isso, decide se tornar um deles. Toma uma lança, veste uma armadura antiga, sela o cavalo – ao qual batizará de Rocinante – chama um camponês manchego, Sancho Pança, para ser seu escudeiro e, auto-sagrado cavaleiro sob o nome de Dom Quixote de la Mancha, resolve sair pelo mundo em busca das aventuras que sua vida tranqüila nunca lhe deu.

A busca de Dom Quixote, como seria de se esperar, tem alguns percalços. Seus ídolos, Galahad e Amadis de Gaula, vagam por planícies verdejantes, atravessam florestas escuras e vales profundos da Inglaterra, norte da França e Alemanha, cheias de fadas, anões e dragões. Os inimigos são altivos e inspiram respeito, e Dom Quixote espera encontrá-los em sua caminhada. Mas, infelizmente, isso é impossível. Não há florestas nem montanhas na Mancha. É a região mais seca de toda a Europa, e a única vegetação que ali cresce são pequenos arbustos ou olivais, cujas folhas ressecam no calor inclemente do verão e com a geada no inverno. O povo era – no tempo de Cervantes – paupérrimo, composto por camponeses miseráveis, ladrões, malandros e prostitutas, cheios de orgulho, desconfiança, vivacidade e sarcasmo típicos dos espanhóis. Os poucos castelos da região estavam desabitados há mais de um século. Sobraram as vendas, onde só se pode comprar cebolas, vinho gordo e azeite de má qualidade. Por último, praticamente não há nobreza nem cavalaria na Mancha: apenas os hidalgos (fidalgos), o mais baixo título conferido a um homem livre no século XVII. O mundo em que Dom Quixote nasceu é o pior possível para um cavaleiro, ainda mais andante. E é esse mundo, a sua mesquinhez, o seu cinismo e a sua hipocrisia que constituem um desafio maior do que qualquer exército inimigo, imaginário ou não. Cervantes não colocou Dom Quixote no mundo para que ele seja louvado, mas para ser ridicularizado, agredido, preso – e tudo sem que ele perceba, nem de longe, o que realmente está acontecendo.

A maior parte dos escritores antigos não costumava opinar sobre suas próprias obras. Já o autor espanhol deixou esse breve e importante relato, encontrado entre suas cartas, segundo o qual o que ele pretendia com seu livro, antes de tudo, era “destruir a autoridade descabida que exercem no mundo e entre o povo os livros de cavalaria”. Parece claro. Há uma cena em que o cura e o barbeiro, reunidos na biblioteca de Dom Quixote, promovem uma espécie de censura moral, elaborando, enquanto percorrem as prateleiras, uma lista de obras cujo conteúdo poderia fazer mal à mente do leitor pelas más lições que continham. As novelas de cavalaria surgiram no século XII, com os romances de Thomas Mallory, Chrétien de Troyes e vários autores anônimos, inspirados em parte nos antigos épicos germânicos e em parte na biografia de grandes chefes cristãos. Atingiram seu apogeu três séculos depois, quando chegaram à Península Ibérica; na época de Cervantes, entretanto, já estavam em franca decadência, e mesmo a aristocracia, que antes se deliciava com as narrações dos bardos e menestréis, começava a esquecê-los. Só entre o povo inculto tais histórias ainda tinham alguma divulgação. Mas a revolta de Cervantes não é somente contra livros ruins que cairiam naturalmente no esquecimento mas, como a frase deixa antever, contra a época em que foram escritos: a Idade Média.

As novelas de cavalaria foram concebidas na Baixa Idade Média (séculos XI a XIV), época em que a cavalaria atingia o seu apogeu em uma Europa eufórica pelas cruzadas na Terra Santa e pelas guerras da Reconquista Ibérica e da formação dos Estados nacionais. Ordens como a dos Templários e dos Hospitalários tinham muito poder e prestígio em toda a sociedade européia, que os considerava emissários de Deus nos campos de batalha. O quadro de El Greco, A Coroação do Cavaleiro Cristão, atesta esse ponto de vista: no momento em que recebe as graças de sua Ordem, o cavaleiro é abençoado por anjos e, a partir daí, com a espada na mão, recebe a permissão para matar, quando em defesa da cristandade. Não é tudo: esse cavaleiro precisa cumprir certas virtudes, e o filósofo catalão Ramon Lull (1232-1316) coligiu-as no seu Livro da Ordem da Cavalaria, espécie de guia mestre para uma classe que frequentemente incorria num dos sete pecados capitais. Para anulá-los, são também sete as virtudes: quatro cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e três teologais (fé, esperança e caridade). Cada ato do cavaleiro devia ter uma referência trascendental e espiritual que justificasse a violência de suas armas, e as novelas de cavalaria procuravam criar seus personagens com base nesses valores. O livro de Lull – escrito Raimundo Lúlio em várias traduções portuguesas – tenta disciplinar o que nunca teve disciplina. A cavalaria sempre esteve envolta em corrupção e imoralidade, e várias ordens chegaram a ser excomungadas, como a dos Templários. Mas eram servas fiéis da Igreja nas suas inúmeras guerras santas, e a batalha de Lepanto, na Grécia, da qual Cervantes participou, foi a última delas. Em três horas de carnificina, 208 navios vindos da Espanha, Itália e Áustria, incluindo as poderosas ordens cavalheirescas de Malta e dos Hospitalários, arrasaram a marinha turca que se dirigia a Veneza, a mais importante cidade cristã do mediterrâneo. A vitória cristã esfriou os ânimos dos muçulmanos e garantiu aos europeus o livre-acesso ao Oriente Médio. Nunca mais a cristandade reuniria tanta força: dali para adiante, os exércitos seriam progressivamente secularizados, e as missões militares de inspiração religiosa chegariam ao fim. Como último suspiro, em 1578 Dom Sebastião, rei de Portugal, desaparece misteriosamente numa manhã de nevoeiro na Batalha do Alcácer-Quibir. Era o fim glorioso da cavalaria.

Para Cervantes, foi apenas o fim de um mito. Que ele continuasse a ser representado na ficção era nada mais do que um anacronismo responsável por má literatura e, mais do que isso, pelo entorpecimento de leitores como Alonso Quijana. Era preciso destrui-la para pôr algo novo no lugar. Talvez Cervantes não soubesse, mas esse algo novo, surgido de uma sátira, era nada menos do que a mais característica das manifestações literárias da era moderna: o romance.

Esse pioneirismo do Quixote é quase unanimidade. Uns poucos teóricos anglófonos preferem transferi-la a Defoe, Fielding ou Sterne, esquecendo-se de que os três foram leitores do Quixote, traduzido para o inglês em 1612, e claramente influenciados por ele. O resto da humanidade parece concordar que as principais características do romance como hoje o conhecemos já estão delineadas na obra de Cervantes. Sim, pois a expressão “romance de cavalaria” também existe, e designa aqueles mesmos livros que o romance Dom Quixotedestruiu. Na Idade Média, “romance” era a modalidade do latim vulgar falado pela população, utilizado apenas em histórias de cunho sentimental ou aventureiro, como as de cavalaria. Quando as línguas nacionais adquiriram status intelectual, por volta do século XIV, “romance” passou a designar esse tipo de produção literária, em prosa ou verso, dedicado sobretudo à diversão das cortes. Eram ressaltados os valores da cavalaria, a nobreza dos sentimentos, o amor, a fé e a bravura, expressos na conduta dos personagens e no desenrolar de enredos que davam a certeza da vitória do bem contra o mal. Eram, também, líderes dos seus respectivos povos, exemplos de reto agir para o leitor.

Mas não é certo dizer que o Quixote não tem antecedentes. Eles existem, e estão – onde mais? – na Espanha. Em 1554 surge, de autor anônimo, o manuscrito Lazarilho de Tormes. Dito isso, o texto não parece merecer muita atenção. Para provar o contrário, basta dizer que a Igreja Católica colocou-o, já no ano seguinte, no Index Librorum Proibitorum, e não poderíamos esperar menos. O texto conta a história de Lazarilho, um jovem sem perspectivas como tantos havia na Ibéria daqueles tempos. Filho bastardo de miseráveis, para tentar sobreviver serve a vários amos exploradores – um padre, um oficial de justiça, um cego e outros -, mente e comete pequenos furtos em caso de necessidade e aprende, por contato direto, todas as asperezas e os enganos da vida. Aprender, aqui, é desconfiar de tudo e saber de antemão que a humanidade não presta. Tudo vale para salvar a própria pele já que, se Deus existe, não olha para os homens. As virtudes de Lull poderiam muito bem ajudar o rei Artur nas novelas de Mallory ou Troyes; na Espanha do século XVI, nem para pedir esmola serviam. A esse homem jogado à própria sorte o espanhol daquela época chamava de pícaro, e à sua trajetória, novela ou romance picaresco. É o precursor de Cervantes; logo, o precursor do romance moderno.

As idéias da Renascença também tiveram um papel fundamental nesta complicada construção. O personagem apresenta-se, tal qual o homem renascentista, como o centro das atenções do romance. Os valentes e confiantes guerreiros das narrativas épicas e cavaleirescas dão lugar a homens problemáticos, cheios de questões psicológicas mal-resolvidas e dramas existenciais típicos de quem já não se guia por certezas. Em vez do herói de raça, representante máximo das virtudes do espírito nacional, dá-se o início do desajustado, aquele que, em vez de representar a coletividade, volta-se contra ela, e, nesse voltar-se, aponta-lhe as mazelas. Que exemplo maior desse homem podemos encontrar senão na alma fraturada de Dom Quixote, que só a insanidade, a insanidade de ainda acreditar nos ideais de cavalaria, mantém completa? Sim, pois quem, vivendo no cínico mundo do Lazarilho de Tormes – que, ao contrário do Quixote, não se ilude nunca -, ainda acredita que a fé e a caridade podem salvar a humanidade, só merece mesmo a definição que Cervantes lhe conferiu: “se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio“.

O riso de Cervantes foi, a um tempo, o principal responsável pela decaída das novelas de cavalaria, o primeiro de todos os romances e, como se não bastasse, a principal fonte de influências para o gênero que criou. Fielding e Defoe estiveram, já no século XVIII, entre os primeiros cervantinos confessos. O romance russo absorveu a idéia de luta entre o sonho e a realidade, sobretudo no Dostoievski de O Idiota e Os Demônios, retomada por Thomas Mann em Tonio Kroger eMorte em Veneza. No século XX, a pós-modernidade sentiu profunda identificação com o percurso solitário do Cavaleiro da Mancha, muito mais do que com o escritor Cervantes. Pois é preciso distinguir claramente o cervantismo e o quixotismo: o primeiro vem de uma perspectiva moderna, antes de tudo racional, ordenada e irônica; o segundo é fragmentário, cético quanto à lógica, instintivo, passional: é, pelo caminho barroco, pós-moderno. Assim, Joyce, Proust e Kafka são também filhos diletos de Quixote. É de Kafka, aliás, uma interpretação interessantíssima sobre o livro, denominada “A Verdade sobre Sancho Pança”, segundo a qual o cavaleiro não passa de um fantasma a atormentar o seu fiel escudeiro. Na literatura de língua espanhola, são tantos que não é possível citar todos. Mesmo os que não admiraram o estilo de Cervantes, como Borges, foram obrigados a se render diante da sua poderosa imaginação e da humanidade do personagem, além, é claro, do senso de humor. Dentro da Espanha, a chamada Geração de 1898 tomou o Quixote como reflexão sobre os destinos da nação que acabara de perder o Império Colonial e não conseguia se encaixar no novo panorama tecnológico europeu. Dessa geração fizeram parte alguns dos melhores nomes da intelectualidade européia do século passado: Pio Baroja, Menendez Pelayo, Miguel de Unamuno, Garcia Lorca, Galdós, Azorín, Ramiro de Maeztu e Antonio Machado, todos enxergaram na patética trajetória do Quixote o símbolo máximo da terra e do homem da Espanha. No Brasil, ecos de Cervantes podem ser ouvidos na obra de Guimarães Rosa e, sobretudo, na de Ariano Suassuna, inspirada na Ibéria profunda para compor um Nordeste profundo. E há mais, muito mais. Ocupou espaço, como fonte de inspiração, em outros terrenos artísticos. Quadros de Picasso e Dali, gravuras de Gustave Doré – que são, aliás, até hoje as melhores ilustrações para livros já feitas -, a ópera de Hallfter, dezenas de peças, a versão de Arthur Hiller para o cinema, com Peter O’Toole no papel principal, a de Will Eisner para os quadrinhos, a de Monteiro Lobato para as crianças e outras, incontáveis.

E o primeiro e maior dos romances, que hoje nos traz dificuldades na gramática e no vocabulário, fez das novelas de cavalaria um artigo para crianças. Já não temos grande interesse na perfeição dos guerreiros a lutar por uma cristandade que hoje nem formalmente existe mais. A Antiguidade Clássica e seus valores também sofreram, em menor grau, um sério abalo. Ao atingir a novela de cavalaria, Cervantes também atinge a epopéia, a forma ficcional em prosa que os gregos concebiam: depois de Os Lusíadas, publicado em 1572, a Europa nunca mais viu um só épico nacional. Daí a afirmação de Lukacs, para quem o romance é a epopéia de um mundo abandonado por Deus. Este é o mundo dessacralizado que Cervantes nos legou.

É natural que uma ruptura tão grande dê margem para várias interpretações e até mal-entendidos. Segundo o filólogo espanhol Astrana Marin, o Dom Quixote foi no século XVII saudado com uma gargalhada, no XVIII com um sorriso e no XIX com uma lágrima. É provável que Cervantes tivesse mesmo escolhido a primeira, apesar do texto em si comportar indicativos de qualquer uma delas. Abordagens filosóficas só começaram dois séculos depois de sua publicação, com o alemão Friedrich Schelling (1775-1854). Foi ele o primeiro a enxergar, no confronto de Dom Quixote com a realidade, a luta entre o ideal e o real, espírito e matéria, alma e corpo, e seu compatriota Friedrich Schlegel (1772-1829), concentrando-se na estética, viu nos diálogos entre o cavaleiro e o pragmático escudeiro Sancho Pança a encarnação da dualidade entre poesia e prosa, com a vitória inexorável da prosa. Foi, entretanto, o pensador basco Miguel de Unamuno (1864-1936) quem elevou o Dom Quixote não só à categoria de filosofia, mas como tema central de toda uma poderosa obra ficcional: trata-se do primeiro e talvez único escritor quixotesco (e não cervantino) do mundo. Para Unamuno, o Quixote é o símbolo da luta irreconciliável entre a vida humana e a razão, com a vitória assegurada da razão. Mesmo assim, o homem luta desesperadamente, refugia-se, busca na fé um caminho para viver – e Dom Quixote é, para Unamuno, antes de tudo um fiel. Em seu livroVida de Don Quiote y Sancho, ele narra, em paralelo, a história do cavaleiro e a de outro insigne espanhol, Santo Ignácio de Loyola, um soldado que, recebendo uma mensagem de Cristo, despe-se imediatamente, toma um saco de batatas como vestuário e percorre toda a Espanha a pregar o Evangelho. Fundaria, alguns anos depois, a Companhia de Jesus, braço intelectual da Igreja Católica. O prólogo deste livro, intitulado “O sepulcro de Dom Quixote”, é uma carta de Unamuno, dirigida ao leitor que deseja buscar o túmulo esquecido do cavaleiro, profanado pelos curas, barbeiros e todos os homens de razão. Numa certa altura, ele diz: “Ponete en marcha, solo. Todos los demás solitarios irán a tu lado, aunque no los veas. Cada cual creerá ir solo, pero formaréis batallón sagrado, el batallón de la santa e inacabable cruzada. Tú no sabes bien, mi buen amigo, cómo los solitarios todos, sin conocerse, sin mirarse a las caras, sin saber los unos los nombres de los otros, caminan juntos y prestándose mutua ayuda. Los otros hablan unos de otros, se dan las manos, se felicitan mutuamente, se bombean y denigran, murmuran entre sí y va cada cual por su lado. Y huyen del sepulcro“.

Esta é a leitura acompanhada de uma lágrima. As mais recentes, a partir de 1950, têm procurado resgatar o caráter cômico que, ao que tudo indica, Cervantes quis impor. O responsável pela publicação da edição dos 400 anos, o filólogo Francisco Rico, adverte contra certos excessos e vôos interpretativos que acompanharam os quatrocentos anos do livro. Isso, segundo ele, afasta os leitores da história original e cria fantasmas e falsas leituras sem qualquer base no próprio texto. Em princípio, essa opinião, sustentada pelo tom cômico da maior parte da obra, parece correta. O que não podemos, em oposição à multiplicidade exagerada de leituras, é eleger apenas uma delas, sobretudo quando esta for a mais palpável de todas, como é o caso da humorística. Em todo caso – e nisso Rico está inteiramente correto – devemos lê-lo nós mesmos. Cervantes certamente não quis fazer do seu personagem uma espécie de arquétipo para eruditos, útil para nomear complexos, doenças e avaliações. Tantas interpretações e tantas filosofias só foram possíveis porque ele criou um Dom Quixote profundamente humano, que nos marca, emociona e até inspira. E essa humanidade – a dos fiéis, dos sonhadores, dos poetas e de todos os que crêem que a luz virá depois das trevas – é a principal, senão única, garantia de sua permanência.

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