Anúncios
Mundo, Política

Sarkozy: “Ser francês é um privilégio”

Nicolas Sarkozy à Saint-André-lez-Lille.

 

O ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, é um admirador confesso de Charles de Gaulle. Em seus discursos, costuma incorporar muito da antiga retórica conservadora, nacionalista e unitária do velho general – com o cuidado, é claro, de jamais resvalar para a xenofobia e o chauvinismo de uma Front Nationale.

Foi o caso de um discurso recente, dado em Paris. “A França”, disse ele, “é um país cristão na cultura”. Diante  das implicações problemáticas desta frase para os milhões de muçulmanos franceses, emendou: “É um país aberto, acolhedor, tolerante. Um país que deve respeitar aqueles que querem viver nele”. Ah, bom.

Sarkozy toma outros cuidados. Não quer definir o nacionalismo francês de forma essencialista, estanque: “A França é um corpo, um espírito, uma alma”, diz ele. Qualquer um pode incorporar este espírito francês; basta querer. Afinal, é um país “aberto, acolhedor, tolerante”. Os franceses, entende Sarkozy, são diferentes por isso, e por muito mais.

Sarkozy é cuidadoso, mas não é bobo. Defende a França acolhedora e aberta, mas exige contrapartida: exige respeito. E lamenta porque não o vê na prática: “Em uma sociedade multicultural, todos têm o direito de cultivar a sua diferença. Todos, exceto a maioria: todos salvo o povo francês”.

É uma situação complicada. Há gente por aí que abusa do acolhimento e da abertura dos franceses, enfatizando a sua diferença em relação ao todo nacional. A República francesa, que o De Gaulle, inspirador de Sarkozy, ajudou a construir, não pode tolerar quem não quer tolerar os elementos que fazem dela um “país cristão na cultura”.  Há um limite. Sarkozy sabe disso, e seus eleitores sabem disso. E, por isso, ele alerta para uma  “tirania das minorias que fazem cada dia mais recuar a República”. 

O termo “minorias” tem significado muito amplo. Pode envolver desde as minorias étnicas – são as primeiras que lembramos, ao ler seu discurso – até as tribos urbanas, as comunidades religiosas e de orientação sexual. Pouco importa: são aqueles que, de uma forma ou de outra, ameaçam a grande comunidade francesa, o povo francês, a República; são aqueles que impedem a França de continuar a ser um país “país cristão na cultura”. 

A conclusão é óbvia: ser francês não é para qualquer um. É preciso cumprir certos requisitos. Quais? Não sabemos, e Sarkozy não nos informa. Mas ele e seu público parecem saber quais são. Por isso, concluiu sua fala, sob aplausos, lembrando a todos os presentes: “Eu sou francês, vocês são franceses, nós somos franceses. Isto é um privilégio!”. E Sarkozy parece disposto a lutar para que continue a ser um privilégio. Até onde irá?

 

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Anúncios

Apoio

INSTAGRAM DA ARTISTA YASSMINE PITOL

💙 Um processo (MUITO) demorado #oilpaint #art #arts #draw Antes e depois de pintar. #watercolor #art 💙💙💙 #cats O nome é Yassmine, o sobrenome é... 😊😊

Mais recentes

Estatísticas do blog

  • 2,286,543 visitas
%d blogueiros gostam disto: