Política

Lembrança de Plínio Zalewski

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por Celso Augusto Uequed Pitol

“Agora eu entendo, o que você tentou dizer para mim

E como você sofreu por sua sanidade

E como você tentou libertá-los

Eles não escutariam, não sabiam como.

Talvez eles escutem agora.”

Vincent

Don McLean

 

 

 

 

“Morte de coordenador do PMDB abala campanha eleitoral em Porto Alegre”, estampou a Zero Hora em sua edição desta terça-feira, dia 18.

Abrimos o jornal e procuramos a matéria. Ao lê-la, somos informados de todos os detalhes que cercaram o terrível acontecimento. Lá pelas tantas, no meio do texto e sem maiores explicações biográficas, aparece o nome do morto, cuja figura não parece acrescentar grande coisa à narrativa misteriosa. A maioria passará os olhos por ele e não se recordará. Outros, que lêem com mais calma, podem perguntar: quem é Plínio Zalewski, o homem que morreu neste domingo?

É um nome que, de fato, não ressoará nos ouvidos e mentes da maioria. As chamadas de capa devem, por definição, partir do conhecimento comum dos leitores – um conhecimento que, lamentavelmente, não inclui o nome do morto. Para a maioria do público, quem morreu foi o coordenador da campanha eleitoral. Por isso, aqueles que conheceram Plínio Zalewski e conhecem a sua brilhante contribuição à cidade não devem se sentir ultrajados por esta chamada. Devemos perdoar os jornais e o grande público; eles não sabem o que dizem. O que não podemos é deixar de responder à pergunta daquele leitor atento. É preciso que, também ele, saiba quem é Plínio Zalewski.

Há várias maneiras de começar a responder a esta pergunta. Podemos, por exemplo, relembrar das funções que Plínio Zalewski exerceu, como a Direção de Cidadania e Direitos Humanos do governo do Estado, ou o Observatório da Cidade de Porto Alegre. Foi, também, um dos responsáveis pela criação do Prêmio de Responsabilidade Social da Assembleia Legislativa e presidiu o Fórum Permanente de Responsabilidade Social do Rio Grande do Sul. Está longe de ser pouco: mas esta é, por assim dizer, apenas a parte mais visível de uma trajetória impulsionada por uma concepção de gestão pública que ele, junto a seu parceiro e amigo Cezar Busatto, desenvolveram a partir do conceito de Governança Solidária Local, presente no livro “Governança Solidária Local: fundamentos políticos da mudança em Porto Alegre”. Publicado em 2004, foi um dos nortes intelectuais do modelo que venceu a eleição daquele ano na Capital  e levou à criação da secretaria de Governança Local, que hoje tem similares em várias cidades do país. Em síntese, a Governança Solidária Local é um modelo de democracia participativa que articula a parceria entre o governo e a sociedade civil, aproximando os cidadãos das decisões efetivas da cidade. Trata-se, enfim, de uma radicalização e um aperfeiçoamento da experiência democrática.

Eis, aí, um resumo da longa e bem sucedida atuação pública de Plínio Zalewski. Mas falta falar de algo importante: do indivíduo, do homem Plínio Zalewski. Quero  aqui lembrar do homem que conheci. E faço-o, sobretudo, porque quero mostrar como as ideias que formulou e defendia com vigor estavam incorporadas em seu agir.


Plinio Zalewski, de costas, na ponta esquerda da mesa, em reunião realizada no  dia 02/10/2016. Na ponta da mesa, à  direita, está seu amigo e companheiro Cezar Busatto. Foto do arquivo pessoal de  Cezar Busatto.

Foi no começo de 2003. Era calouro do curso de Letras e escrevia artigos e resenhas para alguns jornais e revistas. Por ocasião da celebração dos 100 anos de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, havia escrito um artigo longo sobre a obra, que meu pai, então assessor na Assembleia Legislativa, fez a gentileza de divulgar entre os colegas de trabalho. Alguns dias depois recebi uma ligação em meu celular: era o Plinio. Apresentou-se como colega e amigo do meu pai e disse que havia lido meu artigo com muito prazer. Em seguida, solicitou meu e-mail para colocar por escrito suas impressões de leitura e pediu autorização para inclui-lo na sua newsletter. Agradeci os elogios  e informei o endereço.

No mesmo dia, recebi seu e-mail. Plínio elogiava meu artigo – com alguma generosidade, devo dizer – e fazia algumas observações sobre a sua leitura d’Os Sertões. Respondi, agradecendo a leitura e os apontamentos. Em seguida, recebi o primeiro texto da sua newsletter. Ao longo do tempo viriam muitos outros, sempre versando sobre os mais variados temas políticos, sociais, econômicos e culturais. A lista incluía acadêmicos, políticos renomados e jornalistas, oriundos das mais variadas tendências políticas e muito dispostos a contribuir e debater. Logo percebi o que era aquilo: um verdadeiro espaço de participação. Como a Governança Local Solidária. Como tantos que Plínio ajudou a criar. Para ele, termos como participação e pluralismo não eram meros termos retóricos, e sim uma prática viva, cotidiana e incorporada em todas as suas ações.

Plínio era um tipo de ator político muito peculiar e cada vez mais raro: o do intelectual que atua no interior do partido, formulando teses e promovendo debates com vista a aprimorar políticas públicas. Nem sempre são figuras bem entendidas. Em geral, sua rotina não segue o padrão do horário de trabalho dos empregados normais, com hora de entrada e de saída do serviço. Por outro lado, enquanto o bancário, o escriturário e o professor estão em casa, descansando, ou planejando as férias com a família, homens como Plínio estão em plena produção: escrevendo, discutindo, elaborando teses e projetos. Frequentemente passam a madrugada dedicados ao estudo e ao trabalho. Durante o dia, ocupam-se de reuniões, palestras, discussões – isto durante a semana e também nos fins de semana.  Ao fim e ao cabo, estão entre os homens que mais trabalham numa cidade.

Outra característica a se destacar neles é a pouca divulgação de seus nomes. Figuras deste tipo não se tornam conhecidas do grande público – que é, justamente o maior beneficiário dos resultados das ideias que fomentam. São grandes, imensos, admiradíssimos entre seus pares; fora deles, são pouco mais do que anônimos, desconhecidos do homem da rua. Seu destino é permanecer célebre para estes poucos; e, quando tentam escapar dele, candidatando-se a algum cargo, costumam fracassar.

Plínio Zalewski era exatamente assim. Trabalhava à noite, aos fins de semana, quando fosse necessário, sem que seu nome se tornasse conhecido do grande público. A cidade de Porto Alegre, que tanto se beneficiou das políticas por ele pensadas, pouco soube sua existência. Na única vez em que foi candidato a vereador – em 2012, pelo PMDB – fez pouco mais do que 500 votos. Talvez a Câmara não fosse o seu lugar.

O papel desempenhado por Plínio Zalewski teve, pelo menos, um ilustre antecessor, que, a meu juízo,  se parecia com ele em muitos pontos. E, ao citá-lo aqui, decerto despertarei a memória afetiva dos que foram seus companheiros e contemporâneos. Falo de André Forster.

Aqui dou a palavra àqueles que o conheceram: eles falam de um homem alto, longilíneo, magro, cortês e gentil como poucos, um intelectual de alto nível atuando em meio aos jovens entusiasmados do Setor Jovem do MDB. Em tempos de ditadura, o entusiasmo pode ser uma arma poderosa – ou, dependendo, um problema grave. Há duas saídas: tolher o entusiasmo ou refiná-lo. Forster escolheu o segundo caminho: promoveu a criação do Instituto de Estudos Políticos e Sociais, o IEPES, onde seriam ministrados cursos de formação política, econômica e social com o fim de dar subsídios intelectuais à juventude que combatia a ditadura. A tarefa era complicada por dois motivos: primeiro, porque se tratava de uma ditadura, o que por si só já limita qualquer debate; segundo, porque a heterogeneidade ideológica dos membros do Setor Jovem, que ia de marxistas ortodoxos a libertários tipicamente setentistas, passando por liberais, trabalhistas e malucos de todo gênero, era um desafio à formação de um discurso comum. André Forster superou todos estes obstáculos e conseguiu, com rara habilidade, reunir todos estes grupos em um animado espaço de confronto de ideias. E, no fim, todos eles saíram um pouco mudados. Os marxistas saíram dali um pouco menos ortodoxos; os libertários, um pouco menos libertários; os trabalhistas aprenderam as virtudes do liberalismo; os liberais, as virtudes do trabalhismo. E os malucos, bem, saíram dali como malucos um pouco mais ilustrados. Todos saíram ganhando. Foi o resultado do diálogo, da participação, da discussão, da convivência e da tolerância.

Convivência, participação, discussão, diálogo e tolerância: palavras que definem a ação de André Forster e de Plínio Zalewski. Convivência, participação, discussão e diálogo: palavras-chave para quem quer construir a democracia, como era o caso de Forster; ou para quem quer aprimorá-la, caso de Plínio Zalewski.

Os jovens do MDB dos anos 70 jamais se esqueceram de André Forster. Muitos deles brilhariam na política gaúcha nos anos posteriores, ingressando nas novas legendas da redemocratização. Mas o povo do Rio Grande, que viria a consagrá-los tantas vezes, não deu ao homem que os formou a mesma resposta: André Forster não conseguiu eleger-se deputado na única vez em que tentou, em 1986.  Da mesma forma, os gaúchos e portoalegrenses que falam e ouvem falar em governança local, não elegeram Plínio Zalewski. O destino é mesmo inescapável.

Voltemos à pergunta sobre quem foi Plínio Zalewski. Chegou a hora de deixa-lo falar um pouco. Creio que nada substituirá a sua voz se quisermos realmente entender quem ele era. E, para isso, recorro a um dos seus muitos artigos que descansam na minha caixa de e-mails, onde ele traz uma definição da atividade que exercia diariamente: a política. Uma definição que deixa à mostra que ideias o animavam:

“Política é a aparição consciente num espaço público, no qual, pensando com minha própria cabeça, andando com minhas próprias pernas e sentindo com meu coração, expresso o que penso e o que sinto sobre os assuntos da comunidade onde vivo e, sobretudo, coopero para que, neste espaço, nasçam promessas mútuas e pactos traduzidos em ações colaborativas de interesse coletivo”

Plínio Zalewski dedicou a vida a criar canais para as pessoas participarem destes espaços, fossem eles fóruns, seminários ou newsletters. Eis aí o resumo de sua brilhante trajetória. Diante disso, pouco importam as capas de jornal;  elas valem, no máximo, para o momento. Homens como ele semeiam para o futuro.

Crédito da foto: Claúdio Fachel-JC

Discussão

4 comentários sobre “Lembrança de Plínio Zalewski

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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    Publicado por anisioluiz2008 | 21 de outubro de 2016, 16:20
  2. Brilhante, lúcida é verdadeira retrospectiva em forma de homenagem a este querido amigo Plinio Zakewski que nos deixou tragicamente. Sou testemunho vivo desta história de inteligente e genética contribuição do Plinio a prática de uma nova política e uma nova democracia colaborativa, fraterna e solidária, em que é o cidadão comum e sua vida e não a disputa pelo poder que estão no centro da práxis.

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    Publicado por Cezar Busatto | 21 de outubro de 2016, 17:08
    • Cezar Busatto, não o conheço pessoalmente, somente vi você no velório, mais sei do respeito e carinho que o Plínio tinha por você. Então espero que você não aceite essa versão que estão dando para a morte dele. Durante esses meus 27 anos de amizade e convívio com ele, eu sei que a situação não é essa. Vamos fazer justiça!?

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      Publicado por Roselaine Amaro | 22 de outubro de 2016, 22:05
  3. Minha amizade e convívio com o Plínio tem 27 anos. Trabalhamos juntos em diversos momentos, bebemos, festejamos, choramos, celebramos, compartilhamos muitas coisas nesses anos. Estive com ele na sexta e tinha um compromisso na terça feira com ele. Nada e ninguém vai me convencer do que estão dizendo. Plínio é e sempre será VIDA!

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    Publicado por Roselaine Amaro | 22 de outubro de 2016, 20:42

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