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Opinião, Política

O homem que parou o tempo

O filósofo esloveno Slavoj Zizek foi convidado pela rede de televisão Russia TV para fazer um comentário sobre a trajetória de Fidel Castro no dia de sua morte, 25 de novembro de 2016.

Todos esperavam um discurso laudatório: trata-se, afinal, de Slavoj Zizek, um dos maiores nomes do pensamento de esquerda de hoje, autor de obras fundamentais como “Em defesa das causas perdidas” e “Bem vindo ao deserto do real!” e partícipe frequente do debate público progressista. Quem o convidou decerto imaginou que ele partilhasse do luto das esquerdas pela morte do grande comandante da Revolução Cubana.

Pois quem pensou assim, pensou errado. Logo que recebeu a palavra do apresentador, Zizek tratou de decepcionar a produção do programa e, principalmente, a sua audiência: “Peço desculpas aos meus amigos esquerdistas, mas creio que Fidel deva ser esquecido o mais rápido possível”.

O apresentador do programa parou por um momento. Como assim? Esquecido? E com a audácia de dirigir-se aos “amigos esquerdistas” com um pedido banal de desculpas? Seria o caso de alguém chamar-lhe a atenção.

Mas ninguém fez isso; e Zizek é do tipo que, quando não encontra oposição, prossegue sem pedir licença. Foi o que fez: “Perguntem a si mesmos: Cuba produziu algo de novo em termos de prática social, em economia, cultura e política?”. Novo silêncio. Ninguém opôs nada. Zizek, é claro, prosseguiu: “Quando visitei Cuba há uns 10 anos o .que me deprimiu não foram as violações de direitos humanos ou a economia: foi a sensação geral de estagnação. Nada mudava. Não havia criatividade, não havia atividade na economia , na cultura. Era um lugar onde as pessoas ficavam sentadas e esperando”.

A ala esquerda da Internet reagiu à fala de Zizek. Muitos o acusaram de eurocentrismo, de não compreender a experiência socialista cubana e de fechar os olhos para conquistas sociais da Revolução de 1959. Quanto a mim, creio que, de fato, Zizek não compreendeu Castro nem a Revolução Cubana. Se tivesse compreendido, não criticaria o fato de os cubanos viverem num ambiente onde nada mudava e onde o tempo havia parado. Pelo contrário: saudaria  Fidel Castro por ter cumprido seu objetivo. Porque as cinco décadas em que ele passou à frente do governo cubano foi precisamente isso: uma resistência contra o avanço do tempo.

O tempo cumpre um papel fundamental da cosmovisão capitalista. Ao contrário das sociedades do mundo antigo, marcadas por um tempo cíclico e circular, a sociedade ocidental capitalista vive no tempo evolutivo. Busca-se o avanço, o progresso, a substituição incessante do antigo pelo novo; rejeita-se a estabilidade e a estagnação. Nós, que vivemos nela, sabemos disso: andamos por aí com os olhos no relógio, conferindo o telefone a cada instante – e dizemos, para explicar o porquê de fazermos isso, que “tempo é dinheiro”. Os comunistas , que buscam a superação do capitalismo através da instalação do socialismo, entendem que esta instabilidade já foi superada– e a mudança e a novidade, que lhe são características, já não têm razão de ser.

Essa característica do mundo socialista, que Fidel quis recriar nos trópicos caribenhos, foi muito bem percebioda por Milan Kundera. Oriundo do bloco comunista – nasceu em Praga, na então Tchecoslováquia, em 1929 -, Kundera descreveu com agudeza o ambiente geral daquele universo em “A insustentável leveza do ser”, sua obra mais conhecida, presença obrigatória de toda prateleira dos bons leitores nos anos 80. A esquerda, diz ele, é aquele lado do espectro político que acredita na Grande Marcha, “aquela soberba caminhada sempre em frente, a caminhada em direção à fraternidade, à igualdade, à justiça, e ainda mais para lá, apesar de todos os obstáculos, porque para a marcha ser a Grande Marcha é preciso que haja obstáculos.” É o lado que acredita, em outras palavras, no progresso.

Mas esta Marcha não seguirá indefinidamente: terá um fim quando for estabelecida uma sociedade onde os ideias de igualdade, fraternidade e justiça sejam acessíveis a todos. Esta sociedade, Kundera diz, é aquela que os entusiasmados militantes socialistas edificaram para criar um paraíso – um paraíso na terra. Nesta sociedade não haverá mais marcha alguma: a História e o tempo humano terão chegado ao seu fim.

Fidel e seus companheiros – com seu irmão, Raul, e Che Guevara à frente de todos – trabalharam sem cessar para que o tempo dos cubanos parasse em janeiro de 1959, quando a Revolução triunfou. A face mais visível deste esforço é percebida por todo turista que visita Havana e caminha pelo centro da cidade, em tudo idêntico ao dos anos 30 ou 40, e contempla os automóveis antigos, de variável estado de conservação. A face menos visível está – para ficarmos em um só exemplo – nas escolas cubanas. Ali persistem modelos educativos com ênfase na disciplina e na memorização, que passaram incólumes a todas as novidades da pedagogia. Enquanto os jovens do mundo todo passaram vão à escola usando todo tipo de roupa, calçado e corte de cabelo, os alunos cubanos seguem, em 2016, indo às aulas de camisa, calça e sapatos – exatamente como seus congêneres do mundo todo faziam em 1959.

Já nos EUA, ao lado de Cuba e de Fidel, o tempo continuou a passar – e velozmente. Nos EUA, os relógios seguiam e seguem correndo, e os homens, a reboque dos relógios, seguem em busca do que há de maior, melhor, mais forte, mais poderoso, mais qualificado: é preciso criar novas roupas, novos transportes, novas maneiras de estudar e ensinar, novas formas de governar a sociedade, novas maneiras de organizar o mundo. As sociedades submetidas ao tempo não aceitam aquelas que se consideram fora do tempo: tentam punir tal audácia. E os EUA tentaram, e tentam, punir Cuba de todas as formas, arrancando-a de sua beatífica estagnação para jogá-la na mesma estrada livre e desimpedido que percorrem em alta velocidade.

Mas Fidel resistiu a todas as investidas do tempo. Enfrentou-o como um capitão de navio, que encara os golpes das ondas numa tempestade em alto-mar. Enfrentou e saiu vencedor: Cuba segue sem participar da corrida. Talvez por isso Zizek tenha achado estranho que os cubanos vivam como pessoas que ficam sentadas à espera de algo. Para nós, que, como Zizek, vivemos sob o domínio do tempo, é mesmo difícil de entender. O que fazem ali? Que esperam? Minha suspeita é: esperam que nos juntemos a eles.

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Discussão

4 comentários sobre “O homem que parou o tempo

  1. “esperam que nos juntemos a eles.” ha ha ha! E não vais atender à esperança deles e ir juntar-se a eles lá (LÁ!), no caminho inverso dos que se lançam ao mar para fugir de tudo aquilo que parece tão romântico visto de fora? Eu daria duas outras hipóteses interpretativas à fala de Zizek… mas, vou guardá-las para meu próximo romance.

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    Publicado por Nelsi | 28 de dezembro de 2016, 16:21
    • Faça isso. Lerei com atenção e respeito, sem agredir sua interpretação, sem apelar para chavões desgastados,mesmo que eventualmente discorde dela. Quanto a mim,continuo acreditando que todo aquele que não se rende aos ditames da sociedade de consumo será alvo da execração dos que, achando-se livres, são dominados por ela.

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      Publicado por Linda Lúcia | 28 de dezembro de 2016, 16:38

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  1. Pingback: Karl Marx chega às telas | PERSPECTIVA ONLINE - 27 de dezembro de 2016

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