Literatura, Livros

O Homem diante da peste:  um capítulo de “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni

A Lombardia de Manzoni: região de Lecco, gravura de Francesco Gonin

“A peste, que o tribunal sanitário se empenhara em manter à distância, entrara, com as hordas imperiais, para invadir e despovoar não só o território milanês, como parte da Itália” (…) “Em fins de março, a enfermidade já assumira caráter epidêmico, em todos os bairros da cidade; generalizavam-se os males súbitos, com toda a sucessão dos sintomas nefastos, as mortes rápidas, violentas, não raro repentinas, sem qualquer indício anterior da doença”.

Com poucas alterações, os dois trechos acima bem serviriam para descrever a Itália assolada pela epidemia de coronavírus. No momento em que escrevo, o número de mortos aproxima-se de sete mil e o de infectados já ultrapassa setenta mil. As medidas de quarentena forçada não surtiram, até agora, o efeito desejado: pelas ruas vazias de Milão – e também de Bérgamo,  Cremona,  Lecco , Pavia e outras cidades lombardas – passa um cortejo de caminhões com corpos de vítimas, em busca de vagas em cemitérios já lotados. Mas os trechos não são de alguma notícia recente, e sim de um livro antigo, com quase duzentos anos, que traz uma insuspeita mensagem para hoje: trata-se de “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni.

Não é um título muito conhecido pelos brasileiros. Na Itália, contudo, “Os Noivos é um clássico de primeira ordem: publicado em 1827, está no mesmo patamar de importância das obras de gênios como Petrarca ou Tasso e apenas um degrau abaixo do incomparável Dante Alighieri e sua “Divina Comédia”. No colégio, os italianos leem Manzoni pelos mesmos motivos que nós, brasileiros, lemos Machado de Assis ou Euclides da Cunha – e, tal como nós, brasileiros, esquecem-se dele quando completam os estudos secundários. É leitura obrigatória de escola, e sofre do destino comum às reveses das leituras obrigatórias.

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Capa da primeira edição de “Os Noivos” (“I promessi sposi”)

Há noticias, contudo, de que os italianos retornaram a “Os Noivos” após a explosão da epidemia. As vendas – pela Internet, evidentemente – dispararam nos últimos dias e, pouco antes da decretação de quarentena, vários professores de literatura aproveitaram o momento para abordar a obra com seus alunos. O “Corriere dela Sera” exorta os italianos a voltarem às páginas do velho clássico: “releiamos Manzoni”, ordena um artigo recente.

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Alessandro Manzoni

Não podemos deixar de perguntar: há espaço para literatura numa hora dessas? Um amigo residente em Roma define o momento: a Itália está de joelhos. O que a literatura pode dizer aos italianos agora? Podemos conjecturar uma resposta.

A narrativa de “Os Noivos” se passa, como os trechos selecionados demonstram, num período de epidemia: a peste bubônica que atingiu a  Lombardia ao redor dos anos 1630, com foco especial em Milão, a maior cidade da região. Em uma pequena localidade do interior vive um casal, Lorenzo (apelidado “Renzo”) e Lucia. São gente simples, sem instrução e muito católica, como costumam ser os camponeses lombardos. Renzo e Lúcia estão noivos e desejam casar-se, mas esbarram na negativa do vigário local. O motivo? Um nobre da região, Dom Rodrigo, apaixonou-se por Lúcia e quer impedir o matrimônio. A partir daí, tem início uma trajetória de 38 capítulos, tentando escapar de vários obstáculos para que o sonho se concretize.

 Os capítulos que Manzoni dedica à instalação da peste em Milão são o 31 e o 32; pertencem, portanto, ao terço final da obra. Destacam-se do resto da narrativa em estilo e em temática: são quase como um “intermezzo histórico” dentro do romance. Manzoni narra todo o processo de surgimento e disseminação da peste, processo cujos episódios guardam espantosa semelhança com o momento atual. Está tudo ali: os primeiros contágios; a omissão criminosa das autoridades, que menosprezaram o perigo da doença; o descuido do povo, que não soube avaliar bem o risco que corriam; as teorias conspiratórias sobre a origem da moléstia, culpando estrangeiros, bruxos, demônios, o que fosse; e, por fim, a degradação moral, com a ascensão de bandidos, escroques e aproveitadores e a destruição dos mais elementares laços sociais. “Os marotos”, conta Manzoni, “poupados pela moléstia viam, na confusão geral, uma garantia de impunidade e dela se valiam para extorsões e rapinas. À perversidade acrescentava-se o desvario dos desgraçados milaneses, constrangidos a viver entre cenas repelentes e montes de cadáveres. O terror dissolvia os laços mais íntimos e elevava sombria desconfiança entre esposos e irmãos”. Assim como a Milão de 2020, a de 1630 está de joelhos.

Está desenhado o cenário de horror. Mas é um cenário que Renzo precisa encarar: recebe a informação de que Lúcia está em Milão. No capítulo 34,  Manzoni toma-nos pela mão e convida-nos a acompanhar o jovem camponês pelas ruas da cidade sitiada. Eis o que encontra:

“Já então, privada de dois terços dos seus habitantes – mortos, doentes ou emigrados -, a cidade perdera a animação habitual. Poucos transeuntes nas ruas, em trajes sumários, sem capa nem capote, para oferecer o mínimo de facilidades aos ‘untadores’. Desleixados no aspecto, os cabelos e a barra hirsutos, iam em geral armados de bordões, não raro de pistolas, e providos de pastilhas perfumadas, de esponjas embebidas em vinagre aromático, ou de pequenos recipientes com azougue. Os fidalgos não só saíam sem o séquito usual, mas apareciam de cabaz ao braço, comprando comestíveis e artigos necessários. Os amigos cumprimentavam-se de longe. Cada qual procurava desviar-se dos estorvos repulsivos e mortíferos que se lhes deparavam no caminho, bem como andar constantemente no meio da rua, para evitar as imundícies ou outros fardos macabros arremessados pelas janelas.”

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Renzo caminha por de vielas contaminadas, atravessa praças apinhadas de cadáveres e se esgueira pelos cantos dos edifícios lacrados por contaminação. Quando sai de alguma situação difícil, ouve um grito estrepitoso, um choro, um pedido de algum desesperado. Na famosa Praça de São Marcos, um patíbulo e uma forca aguardam quem desobedecer às ordens de quarentena. E assim segue, rua a rua, como num labirinto infernal, encontrando agressividade, inimizade, prantos e terror.

Nas proximidades do canal Naviglio, Renzo encontra um cidadão. Dirige-se a ele com o chapéu na mão, respeitosamente, como decerto lhe ensinaram seus pais. Espera, naturalmente, uma resposta parecida. Mas recebe o contrário: o estranho lança-lhe olhares de suspeita, recua e ameaça-o com uma bengala de ferro, ordenando, aos gritos, para que se afaste. Na Milão sitiada e de joelhos, já não valem os códigos morais que os homens conhecem. Grande parte é tentada a atirá-los fora, como literatura ultrapassada, e aceitar o jogo da barbárie. Dignidade e decência nesta hora? Manzoni reconhece que é assim, mas o quadro escuro que pinta traz alguns pontos de luz.

 

Renzo ouve, de longe, uma mulher presa à sacada de um prédio fechado pelo comissário por suspeita de contaminação. A mulher tem fome. Renzo não tem dúvidas: apanha os pedaços de pão que traz no bolso e oferece à faminta. A seguir, passa por uma viela encontra um padre, de pé, junto a uma porta entreaberta, com o ouvido colado a uma fresta. Trata-se de uma casa condenada pelo governo de Milão, cheia de infectados pela peste esperando apenas pelo fim. O padre escuta as confissões de todos e ministra, ali mesmo, a extrema-unção. A degradação, afinal, não atingiu a todos. Os códigos não estão mortos; e, para alguns, podem servir como uma espécie de amuleto contra a desumanização.

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“A mãe de Cecília”, quadro

É o que Renzo assiste quando encontra uma mãe que carrega uma criança nos braços. A criança tem nove anos e está morta. Chama-se Cecília. Passam diante dela os “monatti”, grupo de criminosos pagos pelo governo milanês para recolher os cadáveres dos vitimados pela peste. Vêem o corpo da menina e tentam, com a brutalidade costumeira, arrancá-la dos braços da mãe para deitá-la por cima dos cadáveres que carregam, como um objeto estragado recolhido na rua. Mas a mãe resiste: afasta-se e mergulha a mão no bolso em busca das últimas moedas – provavelmente as últimas que verá em vida -, entrega-as aos “monatti” e faz duas exigências: a de que ela mesma acomodará a filha no comboio e que eles não encostarão um dedo nela. Trato feito, a mãe beija a testa da criança, ajeita-a como se a deitasse na cama, cobre-a com um lençol e sussurra:

– Adeus, querida Cecília. Descansa em paz. Logo à noite, estaremos contigo.

Esse é um dos episódios mais lembrados pelos leitores de “Os Noivos” – e é, para muitos estudiosos, a culminação poética do livro. O fato de Manzoni ter reservado as suas melhores tintas para uma completa despossuída, que resiste com tudo o que pode em perder o último pedaço de dignidade, demonstra a importância que dava a esse momento para entender o sentido geral da obra. Talvez seja por isso que, nesta hora difícil, os italianos retornem às páginas de “Os Noivos”: para lembrar que, se a Itália está de joelhos, só enfrenta a peste aqueles que permanecem em pé.

 

 

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