Ciências Humanas

Com as armas de Jorge*

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*Texto publicado no perfil da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 

“Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge
Para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem,
Tendo mãos não me peguem,
Tendo olhos não me vejam,
E nem em pensamentos eles possam me fazer mal…”

Esse texto é o início da famosa oração de São Jorge, Jorge da Capadócia ou Jorge de Lida. A tradição no-lo apresenta como um soldado romano que, após lutar contra os cristãos, resolveu abandonar o exército e defender aqueles a quem outrora perseguia.

O texto-em fragmentos-mais antigo que o apresenta data do séc. V e narra que Jorge, pertencendo ao exército romano havia sido torturado e morto por ter-se recusado a oferecer sacrifícios a ídolos pagãos.

O concílio de Nicéia, em 325, considera apócrifos todos os textos relativos a ele.

Em 916, uma outra versão da vida de São Jorge apresenta-o como um tribuno nascido na Capadócia, Turquia, que, da mesma forma se negava a render homenagens aos deuses cultuados pelos romanos. Era um homem rico e resolve dispor de seus bens, rendendo-se à prisão e à tortura sob as ordens do imperador Diocleciano. Supera todo o martírio ainda operando milagres. O imperador manda, então, decapitá-lo.

O texto Legenda aurea, coletânea de Jacopo de Varazze , do séc.XIII consolida a imagem do guerreiro de armadura, espada e capa vermelha, que, montado em seu cavalo branco, domina o abominável monstro. Nesse texto, aquele arcebispo de Gênova conta que havia um dragão que aterrorizava a cidade de Lida, em Israel. Para aplacar sua ira eram-lhe oferecidos animais em sacrifício. Esgotados os rebanhos, eram os habitantes da cidade imolados até que chegou a vez da princesa. São Jorge consegue dominar a fera e, levando-a até a cidade, junto com a donzela salva, promete aos cidadãos matá-lo uma vez que todos aceitassem o Evangelho. Nessa lenda observa-se clara semelhança com o resgate de Andrômeda por Perseu, filho de Zeus, vencendo a Medusa.

A imagem do jovem em armadura, com capa vermelha, intrépido, empunhando uma espada, montado em um cavalo branco e ágil, derrotando um monstro poderoso é carregada de simbolismo e representada de muitas formas em muitos lugares.

Inglaterra, Portugal, Etiópia, Malta, Eslovênia, Lituânia, Grécia, Geórgia, Sérvia, Palestina. Moscou, Beirute são alguns locais que o tem como protetor. Escoteiros, soldados, ciganos e torcedores do clube de futebol Corinthians, de São Paulo, também o elegeram para padroeiro.

Na Inglaterra, a figura de Jorge é conhecida desde o século VIII. Em 1098, passa a ser cultuado por ter sido importante na batalha da Antioquia, mas só ganha a condição de padroeiro no reinado de Eduardo III(1327-1377). Ainda existe a Real Sociedade de São Jorge, fundada em 1894, hoje sob o patronato da rainha Elizabeth II.

Em Portugal, passa a padroeiro pelas mãos de D.João I em virtude de ter possibilitado a vitória sobre Castela na batalha de Aljubarrota em 1385. O rei dá ao seu castelo o nome do santo intercessor, local que é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade de Lisboa. A imagem do santo era tradicionalmente levada em cortejo até o castelo, mas a partir do século XX esse ritual perde sua força.

Com a postura do defensor e protetor incansável é também adotado por várias outras potências no medievo e daí avançando pelo tempo e por vários lugares e entidades.

Por sua origem lendária e fantasiosa, em 1960 o papa Paulo VI resolve que a devoção ao santo não seria mais obrigatória para os seguidores da fé católica. Mas a força da crença constituída foi mais forte.

No Rio de Janeiro, a reverência a São Jorge chega através dos cultos africanos em que é conhecido o fato de serem as imagens de santos usadas em nome da possibilidade de realizá-los. Ogum, orixá da guerra, do fogo e da tecnologia tem na imagem de São Jorge representação perfeita, embora as religiões tenham definições e mitos geradores distintos para as duas entidades.

O dia 23 de abril, consagrado como sendo o dia de sua morte é feriado estadual no Rio de Janeiro, comemorado desde as 5 horas da manhã com uma alvorada de fogos. Na cidade do Rio de Janeiro há duas igrejas consagradas ao santo guerreiro: uma no centro da cidade e outra no bairro de Quintino. Ambas permanecem lotadas de devotos por todo o dia com a realização de missas e bençãos. Tradicionalmente o prato característico dos festejos é a feijoada.

Nos terreiros de Umbanda e Candomblé também há cerimônias no dia 23 de abril em homenagem ao orixá Oxóssi, na Bahia, e Ogum, no Rio.

Segundo a professora Georgina Silva dos Santos, do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, autora da obra Ofício e sangue. A Irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa moderna, publicada em 2005 pela Colibri de Lisboa, o culto a São Jorge no Rio tem tido um considerável aumento a partir da década de 1990 em função da crescente violência na cidade. À São Jorge a cidade implora por força e proteção.

Enfim, São Jorge une, lembrado e festejado com muita fé sem distinção de classes sociais ou quaisquer outras. Está presente na moda, na arte, nas novelas, escolas de samba, músicas, decoração e…nas religiões! Encarnando evidente imagem de força e proteção materializa, através da santidade, o anseio na busca de auxílio na criação de uma rede que as devoções e cultos acabam por construir.

Além da imagem em foco, a BN possui em seu acervo a figura do santo no belíssimo livro de Horas cujo link segue abaixo:

http://objdigital.bn.br/…/div_ma…/mss1212389/mss1212389.html

E ainda, no acervo do setor de Iconografia, na forma em que podia ser encontrado emoldurado na parede de muitas casas do Rio, constando do [Catálogo de imagens de santos]. São Paulo, SP: Weiszflog Irmãos [1919?]. Em:

http://objdigital.bn.br/…/div_i…/icon1475921/icon1475921.htm

A imagem em destaque é uma gravura do século XVI, de autoria de Lucas Cranach (1472-1553): [São Jorge a cavalo vencendo o dragão]

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