Cinema, Esportes

“The English Game”: um jogo e seus vencedores

A Série “The English Game” - Coadjuvante - Medium

Um brasileiro que se depare com o título da série “The English Game”, exibida pelo Netflix desde fins de março, pode lembrar de um de nossos epítetos preferidos para designar o futebol: “o esporte bretão”. Salvo engano, a expressão apareceu pela primeira vez no hino do Corinthians, composto em 1954, – “teu passado é uma bandeira/ teu presente é uma lição/ figuras entre os primeiros / do nosso esporte bretão” – e, desde então, vem sendo fartamente utilizada na imprensa e na linguagem popular. Trata-se, é claro, de uma referência à origem do futebol, esporte britânico (ou bretão) de nascimento e mundial por vocação. Vale suspeitar, portanto, que “The English Game” trate do nosso esporte preferido. E a suspeita tem fundamento: a série de Julian Fellowes, idealizador da multipremiada “Downtown Abbey”, de fato retrata o jogo criado pelos ingleses. Mas uma coisa é um esporte, um sport; outra é um game, um jogo. Há diferentes tipos de jogos, e nem todos são esportivos. Mas deixemos, por ora, essa reflexão de lado. Vamos à série.

A narrativa de “The English Game” se passa na Inglaterra de 1879. O futebol, naquele momento, ainda é amador, e a única competição nacional existente – a F.A. Cup, também conhecida como Copa da Inglaterra – é dominada pelas equipes do sul do país, próximas a Londres, cujos jogadores são, em regra, membros da aristocracia. O football é, então, um jogo de gentlemen, que recusam vivamente qualquer recompensa financeira. Os operários, contudo, são aceitos: jogam nas equipes patrocinadas pelas fábricas do Norte da Inglaterra, onde trabalham durante o horário regulamentar e, nas folgas, treinam para os campeonatos. Têm, portanto, visível desvantagem na disputa com os riquíssimos filhos de banqueiros, latifundiários e altos funcionários da burocracia do Império, que podem treinar quando querem e como querem.

Um desses clubes de operários é o Darwen Football Club. Localizado na cidade homônima e ligado a uma fábrica local, não costuma ir longe na F.A. Cup, apesar do apaixonado apoio que recebe da população. Será essa a situação até o dia em que dois escoceses, Fergus Suter e Jimmy Love, apresentam-se à fábrica. Vindos do Partick, os dois são contratados como operários comuns, mas nunca se postam diante das máquinas. Seu verdadeiro papel é outro: jogar no Darwen e tentar ajudá-lo a chegar às finais da copa.

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Fergus Suter, o grande nome do novo time do Darwen

Com os dois craques em campo, o Darwen enfrenta os Old Etonians pelas quartas de final da F.A. Cup. O adversário é formado por ex-alunos do tradicionalíssimo Eton College, responsável pela formação escolar dos mais refinados membros da aristocracia britânica. Seu principal jogador é Arthur Kinnaird, tricampeão da F.A. Cup e considerado o primeiro grande craque do futebol. Os Etonians entram em campo com a certeza da vitória – e o transcorrer do jogo parece dar-lhes razão, pois o primeiro tempo termina em 5 x 1. No intervalo, os dois escoceses reúnem os demais jogadores e sugerem uma mudança tática baseada na experiência que trazem de seu país. Até então, o Darwen, como todos os times ingleses, faz um jogo compacto, de muita velocidade, lançamentos, espírito de luta e contato físico; na Escócia natal de Suter e Love, contudo, joga-se um futebol de passes curtos, movimentação, drible e espaçamento pelo campo. Sugestão aceita, o time volta a campo com outro ânimo – e, contrariando todas as expectativas, as suas e as do adversário, conseguem empatar a partida e levar a decisão para o segundo jogo. Tem início um novo momento para o Darwen – e para todo o futebol inglês. Pela primeira vez, um clube de operários complica a vida de um dos grandes da aristocracia.

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Kinnaird, dos Etonians, avança em direção ao gol do Darwen

Suter e Love são os responsáveis por esse momento. Mas não gozam de grande simpatia do resto do elenco: para os operários da fábrica de Darwen, é uma vergonha que se pague a alguém para jogar futebol – ao jogador, dizem, basta a honra de vestir a camiseta da equipe. A mesma reação têm os seus adversários do Old Etonians, que vêem o profissionalismo como uma burla às regras do jogo, atitude indigna de cavalheiros. Separados por um oceano em todos os aspectos, aristocratas e homens do povo concordam com esses valores fundamentais. Quem não concorda são os donos das fábricas do Norte industrial: após o sucesso da contratação de Suter e Love, começam o acosso a jogadores de outras equipes. Com a sabedoria simples e prática típica de sua classe, sabem de que o futuro é o profissionalismo.

O diretor e roteirista da série, Julian Fellowes, é um aficcionado pela aristocracia inglesa. Além de “Downton Abbey”, vários trabalhos seus retratam esse universo, como o elogiado filme “Young Victória”, sobre a Rainha Vitória. Universo que ele integra desde 2011, ano que recebeu o título de Barão e uma cadeira na Câmara dos Lordes. Ao que tudo indica, Fellowes não vê seu título apenas como um adorno: acredita que os nobres ingleses têm uma missão a cumprir. Em entrevista dada em 2014, lamentou que os poderosos do supercapitalismo do século XXI não possuem a mesma consciência social que os antigos aristocratas mantinham. Segundo ele, os lordes, barões e duques donos de terras no Reino Unido têm uma ligação essencial com o país onde vivem e uma consciência de suas responsabilidades, algo inexistente nos homens que, em suas palavras,  buscam apenas wealth and power. Falta a esses homens a ligação com o passado inglês, e por isso são tão impiedosos e tão egoístas. Já o povo e os aristocratas, com todas as diferenças que têm, estão unidos pelo pertencimento a um passado comum e pela convivência em um presente onde, apesar de tudo, ainda podem se comunicar. E não é gratuito que, em “The English Game”, um dos mais belos atos de generosidade venha do aristocrata Arthur Kinnaird, que testemunha, de maneira voluntária, em favor de um operário injustamente acusado da invasão da casa de um empresário. O gentleman é o aristocrata; o empresário, o explorador que só busca wealth and power.

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Suter e James Walsh  dono da fábrica que o contratou como jogador

Não que Fellowes seja um saudosista ingênuo: grande diretor e roteirista que é, não aprecia as visões chapadas da realidade. Em “The English Game”, não deixa de apontar o dedo para a hipocrisia dos aristocratas, os tais gentlemen cheios de princípios morais inarredáveis que, contudo, não disfarçam a irritação esnobe quando um dos seus, Arthur Kinnaird, decide aproximar-se dos operários e compreender um pouco de seu modo de vida. Tampouco lhe escapam as injustiças das marcadíssimas diferenças de classe do capitalismo inglês do século XIX – tema, aliás, também já explorado em “Downtown Abbey”.  Mas ele é muito mais duro com os capitães de indústria que compram e vendem jogadores como quem compra e vende os produtos de suas fábricas. Não simpatiza nada com esses homens movidos pela cotação do algodão na bolsa, de humor grosseiro, moral discutível e modos rudes  – esses homens que, contudo, perfazem a burguesia mais poderosa do mundo.  Serão eles os reis e senhores do novo tempo, os campeões do jogo do wealth and power – o muito inglês jogo do capitalismo, que reduz todas as relações humanas à quantificação monetária e molda o mundo sob as suas regras não-escritas. E esse jogo moldará também o futebol – o esporte dos gentlemen que, anos depois de Kinneard, Suter e Love pendurarem as chuteiras, ganhará os corações dos operários de todo o mundo. 

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