Ciências Humanas, Geral

Silenciando estátuas

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Estátua de Winston Churchill alvo de manifestantes ingleses

Em seu comentário sobre as estátuas na “Estética”, Hegel aponta um elemento importante sobre essas impressionantes criações do espírito humano. Ali ele discute, sobretudo, as estátuas da Grécia antiga, onde eram representados os deuses da antiga religião helênica, seres poderosíssimos e, ao mesmo tempo, estranhamente humanos, donos de paixões e dilemas muito parecidos com os de seus adoradores. Sobre as estátuas a ele  dedicadas, Hegel afirma que são, menos do que um retrato, um reflexo da vida real e da existência finita de todos os homens. O escultor grego, ao colocar uma entidade abstrata, presente nas narrativas e na memória coletivas, dá-lhes um contorno dentro deste mundo – real e finito – que todos habitamos, a partir de uma série de circunstâncias que permitem a sua criação e a sua apreciação. Os deuses da “Teogonia”, de Hesíodo, são personagens de uma história; os deuses esculpidos por Fídias são companheiros de rua dos atenienses.

Podemos dizer algo parecido das grandes personalidades históricas convertidas em estátuas. Comumente pensamos nelas como monumentos de exaltação de um indivíduo que, por qualquer motivo, alguém acreditou que merecesse uma imortalização. Não é uma leitura errada; mas deixa de lado um aspecto importante das estátuas que o poder público de uma dada sociedade pôs na rua: o do compartilhamento.

Vejamos: ao decidirmos sobre a construção e exposição de estátuas, decidimos também que elas passarão a ocupar um lugar nas ruas, nas praças, nos parques, nos templos, nos edifícios, enfim, em todo o espaço social compartilhado pelo humano. Por elas passam homens e mulheres de todas as orientações políticas, religiosas e ideológicas, de todas as idades e de todas formações pessoais, de todas as classes, credos e raças; por elas passa o povo inteiro de uma cidade, um Estado e um país. Cada um dos passantes olhará para as estátuas sob um ângulo, um aspecto, uma particularidade; cada um delas formará um juízo sobre ela. Ingressar no espaço dos homens é ingressar, também, nas lutas e nas disputas dos homens – e, por consequência, submeter-se à leitura que os homens delas farão.

Nos últimos dias, temos acompanhado notícias sobre a destruição de estátuas de personalidades histórias em toda a Europa e nos EUA. Na Bélgica, ativistas de movimentos antirracistas derrubaram a homenagem ao rei Leopoldo, responsável pelo genocídio de africanos no Congo; nos EUA, os escolhidos têm sido políticos escravistas, homenageados em várias cidades americanas; na Inglaterra, no momento em que escrevo, há uma fortíssima disputa nas ruas sobre o destino da estátua de Winston Churchill, o ex-primeiro ministro famoso pela sua liderança contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial – mas que, nos primeiros tempos de parlamentar e ministro para as colônias do Império Britânico, fez vários comentários racistas contra povos conquistados.

As justificativas para esses atos são as que se imagina: trata-se de uma reparação histórica. Os indivíduos retratados nas estátuas são racistas e representam valores que não cabem em uma sociedade democrática moderna; os monumentos a eles dedicados são a perpetuação desses valores. Com a primeira frase, será difícil discordar; com a segunda, será difícil concordar. Supõe que valores humanos aparecem e desaparecem por atos pontuais de vontade de alguém, ou – o que é ainda mais ingênuo – por objetos criados por alguém. Os valores que criaram o racismo permanecerão quando a última estátua do último racista do mundo vier ao chão. A história não é derrubada quando homens esculpidos em bronze são derrubados. Eles apenas saem das nossas ruas. O espírito que criou as estátuas não desaparece; também não desaparecem da história as figuras que elas retratam. Desaparece apenas uma coisa: o juízo crítico dos homens de hoje sobre os homens do passado.

Toda estátua é criada em um período histórico dado e representa indivíduos oriundos de um período histórico dado. Representam figuras que marcaram, de uma forma ou de outra, uma sociedade. E nenhuma sociedade poderá modificar estruturas problemáticas se os cidadãos que delas fazem parte não puderem encarar figuras ou circunstâncias que engendraram essas estruturas. E só poderão fazê-lo com as armas do debate público e da educação, as únicas capazes de formar mentes críticas. Retirar estátuas da discussão pública, dos homens e das mulheres que diante delas passam, olham e refletem, não fará com que os valores que queremos afastados de nossas sociedades o sejam de fato.  Porque as estátuas, como Hegel disse, são apenas um reflexo da vida real. E o primeiro passo para modificar a realidade é encará-la sem véus nem acordos de silêncio.

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