Literatura, Livros

Fintan O’Toole sobre orgulho nacional e vergonha nacional

25 years of Irish life through the columns of Fintan O'Toole

 

O jornalista, ensaísta e dramaturgo irlandês Fintan O’Toole é uma das figuras mais influentes do debate público em seu país. Ex-diretor do “Irish Times”, escreve com frequência na imprensa irlandesa, em vários jornais ingleses e no “New York Review of Books”. Em seu país, seus detratores frequentemente o acusam de ser um um west brit (“britânico ocidental”), gíria irlandesa usada para designar um patrício excessivamente simpático aos ingleses, velhos inimigos da Ilha Verde. É bem verdade que O’Toole não partilha da anglofobia de muitos irlandeses – como todo dramaturgo deste mundo, ama o teatro inglês – mas  tampouco vê os vizinhos com olhares acríticos: um dos temas mais frequentes de seus últimos ensaios é o crescimento do nacionalismo xenófobo na Grã-Bretanha, proximamente ligado ao Brexit e à eleição de Boris Johnson – de quem O’Toole se declara adversário direto.

Fintan O’Toole tem, portanto, muito a dizer sobre o nacionalismo. Por isso, vale a pena ler um trecho de sua entrevista recente para o El País sobre orgulho nacional, vergonha nacional e as consequências associadas a esses dois sentimentos:

Vergonha é um conceito muito perigoso quando tratamos de política. Sabemos que historicamente a direita e a extrema direita recorreram ao conceito de vergonha nacional como parte de seu arsenal retórico. “Nosso grande povo, nosso grande país, foi submetido à vergonha de ser humilhado, e temos que nos erguer.” Isto justifica a violência; identificam-se os vetores dessa vergonha na sociedade, apontamos para os judeus ou quem quer que tenhamos à mão. Este discurso de humilhação nacional me preocupa. Já o encontramos durante as negociações do Brexit, quando Theresa May era a primeira-ministra. A imprensa britânica o usava todo momento. Theresa May se reunia em Bruxelas e lá não lhe davam tudo o que pedia, e as manchetes falavam em humilhação. Esta é uma forma de pensar na vergonha política sobre a qual devemos estar conscientes justamente para evitá-la. Entretanto, acredito que os progressistas têm que pensar nisto: você só pode usar a ideia de vergonha de uma forma positiva se ainda acredita no orgulho nacional, se é capaz de apresentar uma ideia progressista de orgulho por seu país. Acredito que isto seja o difícil para a esquerda: como articulamos a noção de orgulho nacional? William B. Yeats, o poeta irlandês, diz que há uma diferença entre o orgulho nacional e a vaidade nacional. A vaidade tem um componente de pele muito fina, em que preciso apresentar uma versão de mim mesmo que é falsa, livre de complicações, livre de pecado. Sabemos que é algo inventado, uma atuação. Já o orgulho nacional é algo relaxado, as coisas estão bem, estou à vontade sendo espanhol ou irlandês. Acredito que resta muito trabalho por fazer no que se refere a construir um discurso que contraste com o da extrema direita, essa extrema direita que já não é mais, porque se colocaram todos no centro! Temos que ser capazes de desmontar a ideia de vergonha e articular aquilo do que devemos estar orgulhosos. Que coisas devem nutrir nosso senso de pertencimento na hora de sermos norte-americanos, ou britânicos, ou irlandeses, ou espanhóis. A esquerda tende a evitar estas coisas porque sabemos que podem ser mal usadas e virarem algo tóxico. Quanto ao que diz Campbell… Parece que os britânicos se surpreendem com Boris Johnson. Todos nós sabíamos o que ele era. Aconteceu com Trump. Todos sabiam quem ele era. As pessoas não perceberam que um personagem como Johnson seria incompetente, e não quiseram ver que Trump seria autoritário e incompetente, um desastre. São personagens que não teriam que estar metidos em política. 

 

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