Literatura, Livros

A Fonte do Livro Aberto, na distante Budapeste

A distância entre Brasília e Budapeste, capital da Hungria, é de aproximadamente dez mil quilômetros. Para termos noção dela, basta dizer que é mais do que o dobro do caminho a percorrer entre o Oiapoque e o Chuí, nossos pontos extremos. Ir e vir do Brasil para a Hungria é, portanto, tarefa árdua – que, no entanto, foi desempenhada por muitos milhares de imigrantes húngaros durante as guerras na Europa, nos duros tempos das viagens de navio através do Atlântico. Alguns deles assumiram posição de destaque na cultura brasileira, como Paulo Rónai, um dos maiores filólogos, tradutores e críticos que já tivemos. Autor de dicionários, coletâneas e inúmeras traduções pioneiras, Rónai dedicou sua vida à promoção do melhor do humanismo europeu em nossas terras. Em carta destinada a seu amigo Ribeiro Couto, manifestou agradecimento ao país que o acolheu e externou um singelo desejo: “que meus livros possam servir ao Brasil”.

Os livros, para os húngaros, são parte essencial da vida. Eles lêem em toda parte: no metrô, nos pontos de ônibus, nos cafés, nas incontáveis bibliotecas espalhadas pela cidade. Estão entre os europeus que mais dedicam tempo do dia à leitura, atrás apenas dos finlandeses. Infelizmente, nem sempre o húngaro encontra as obras que quer em seu idioma, o magiar. Trata-se de língua particularíssima, sem parentesco algum com os demais idiomas indo-europeus, falado apenas por eles e pelos seus compatriotas emigrados por todo o mundo. Por isso, os húngaros aprendem, desde cedo, os idiomas ocidentais: alemão, francês, inglês. Lêem, também, nesses idiomas, que têm seções especiais a eles dedicadas em qualquer boa livraria de Budapeste. Assim como Rónai, o húngaro transita bem entre livros.

Por isso, a municipalidade de Budapeste ergueu, em 2012, ergueu em 2012 um monumento a este objeto tão querido pelos seus habitantes. Trata-se da Fonte do Livro Aberto.

 

A escultura, feita em mármore, representa um livro aberto em uma mesa. No que seria a dobra interna do livro, foi instalado um pequeno chafariz móvel, que recria o movimento de virada de página. Situada na praça Já é um dos principais pontos turísticos da belíssima cidade apelidada, com muita justiça, de “Rainha do Danúbio”.

Encantamo-nos, a dez mil quilômetros de distância, com essa celebração. Mas o Brasil, que recebeu Paulo Rónai e outros milhares de filhos de Budapeste, não celebra o livro. Conforme disse recentemente um ministro do atual governo, a leitura não é tema de interesse dos mais pobres – “é coisa da elite”, segundo ele. Por essa razão, considera razoável retirar as isenções fiscais para a edição e circulação de obras no Brasil, um dos raríssimos instrumentos de promoção da leitura em nosso país. Mesmo com essas isenções, o Brasil ocupa os lugares mais baixos nos rankings internacionais de leitura – onde os húngaros, que ergueram a maravilhosa Fonte do Livro Aberto, fazem boa figura. Sem elas, o consequente aumento do preço do livro restringirá ainda mais o acesso ao saber. O governo não se preocupa: o livro, afinal de contas, é apenas para a elite.

Os dez mil quilômetros que nos separam de Budapeste e de sua lindíssima fonte são, como dissemos, difíceis de percorrer. Paulo Rónai os percorreu, e presenteou-nos com o que tinha de melhor – seus livros. O Brasil, que o acolheu tão bem, parece não ter sido capaz de acolher os valores que o formaram. Apesar de já não viajarmos em navios, a distância entre o mundo de Rónai e o mundo que nós, brasileiros, hoje habitamos parece intransponível. Resta-nos admirar, de longe, a Fonte do Livro Aberto – e tentar recuperar, entre nós, tudo aquilo que ela representa.

 

 

PUBLICIDADE

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Estatísticas do blog

  • 4.733.027 visitas
%d blogueiros gostam disto: