Literatura, Livros

7 anos sem Seamus Heaney

Seamus Heaney: an Irish legend growing in reputation | Times2 | The Times

No dia 30 de agosto de 2013 – há sete anos, portanto – perdíamos Seamus Heaney.

Heaney nasceu em 1939, na Irlanda do Norte. Conhecer a Irlanda do Norte é essencial para quem quer conhecer a obra de Heaney, profundamente assentada naquele país dividido. Fruto do colonialismo inglês, a divisão política entre o sul majoritariamente católico e o norte majoritariamente protestante encobre a divisão cultural que existe neste último: de um lado, os descendentes de colonizadores ingleses e escoceses das Lowlands, protestantes e fiéis à Coroa; de outros, descendentes dos celtas originais do país, católicos e defensores da união com a República da Irlanda. A religião é apenas uma das barreiras a separar as duas comunidades, que também se separam pela língua, pela história e pelo destino. E Seamus Heaney era da comunidade católica, isto é, da comunidade oprimida, minoritária, sujeita a leis discriminatórias e à constante opressão policial.

Tudo isso aparece na poesia de Heaney. Aparece, sim, na forma de poesia política, como nos seus livros dos anos 1960. Recusou fazer parte de uma coletânea de poetas britânicos e admitiu, em um poema seu, nunca ter levantado um copo para saudar a rainha. Mas a sua poesia inclui também uma relação viva e receptiva com a terra do Norte da Irlanda, os bogsides, as colunas celtas, o verde por todo o lado. Ao mesmo tempo, foi autor da tradução premiadíssima do épico anglo-saxão Beowulf, poeta arquigermânico e arqui-anglo-saxão – portanto, arqui-inglês – que o arquicelta Heaney traduziu, segundo ele mesmo, dando um colorido e uma vocalidade irlandesas às duras sílabas do velho idioma germânico incompreensível para os ingleses de hoje.

Nunca deixou de entender o que era o conflito. E nunca deixou de entender o que era a reconciliação. Antes de ser poeta da guerra, Heaney foi o poeta da reconciliação.

Deixamos aqui um de seus poemas, traduzido para o português por José Antônio Arantes:

Os escribas

Nunca me empolguei com eles. Se eram excelentes, eram rabugentos e espins como o azevim que liquesciam para a tinta. E se jamais me liguei a eles eles jamais me recusaram meu lugar.

Na quietude do scriptorium uma pérola negra crescia neles como a velha crosta seca nas penas. Na margem de textos de encômio garatujavam e agadanhavam. Resmungavam se o dia estava escuro ou muito giz tornara o velino brando ou muito pouco o deixara oleoso.

Sob as garupas dos caracteres reuniram tropas de cóleras míopes. O ressentimento semeou nos fetos desencaracolados das versais.

De quando em quando eu me punha longe dali e em minha ausência via a inclinada cursiva de um dorso, e os sentia aperfeiçoarem-se contra mim página por página.

Que se lembrem desta não desprezível contribuição a sua arte invejosa.

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