Geral, Mundo, Política

A união das duas Irlandas

No último dia 22, a televisão irlandesa organizou um debate com os mais importantes líderes políticos do país. O tema: a unificação da Irlanda.

A questão é antiga. A ilha da Irlanda, como se sabe, é dividida em dois países: um deles, a República da Irlanda, compreende a maior parte do território e é uma nação independente; a outra, a Irlanda do Norte, faz parte do Reino Unido e está ligada a Londres. A partição do país ocorreu após a Guerra de Independência, em 1921, quando as tropas britânicas abandonaram a parte sul de sua ex-colônia e mantiveram o controle sobre o Norte. Desde então, a independente República da Irlanda busca retomar o território que, por direito natural, sempre considerou como seu.

As duas “Irlandas” possuem algumas diferenças. A República é majoritariamente católica e sua população é, em grande medida, descendentes de celtas; o Norte, por sua vez, é majoritariamente protestante, e a maioria de sua população descende de colonos ingleses e escoceses levados para lá a partir do século XVII. Há, ali, uma minoria não-protestante, católica, descendente dos irlandeses “nativos” – e esta minoria é tradicionalmente discriminada pelos protestantes, que têm acesso às melhores terras e melhores empregos. O histórico de humilhações fomentou a criação de grupos paramilitares, dentre os quais se destaca o famoso IRA (Irish Republican Army, ou Exército Republicano Irlandês), cujo objetivo era, e é, a retirada definitiva das tropas britânicas do país.

Unir dois países com tantas diferenças, fruto de séculos de divisões fomentadas pelo colonialismo, é uma tarefa duríssima. A Irlanda do Norte é uma sociedade profundamente segregada: a capital, Belfast, é dividida por um gigantesco muro, que separa os bairros católicos dos protestantes. O muro, guarnecido por soldados britânicos e pela polícia local, fecha-se às 21 horas e reabre às 7 horas do dia seguinte. Nem todos os habitantes da República da Irlanda estão cientes disso. Quererão eles a tão sonhada união com um país tão dividido e marcado por décadas de conflito?

No decorrer do debate, a deputada da Irlanda do Norte, Naomi Long, declarou: “como podemos falar sobre união se, aqui na Irlanda do Norte, nós ainda somos uma sociedade profundamente dividida e segregada? Quando nós não podemos nos mover de um lugar para o outro livremente? Quando temos barreiras entre pessoas vivendo em ruas vizinhas?”.

São dúvidas pertinentes. Uma nova Irlanda, para surgir, deverá ter, em primeiro lugar, honestidade – para encarar o presente, para avaliar o passado e para poder, por fim, construir o futuro.

 

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Estatísticas do blog

  • 4.803.221 visitas
%d blogueiros gostam disto: