Ciências Humanas, Literatura

Tolstoi e Proudhon

Pierre-Joseph Proudhon – Wikipédia, a enciclopédia livre

A Rue du Conseil situa-se na zona sul de Bruxelas, capital da Bélgica. No começo do século XIX, a região foi um reduto de artistas, intelectuais e exilados políticos. Um deles foi o filósofo anarquista Pierre Joseph Proudhon. Perseguido em sua França natal, ocupou o número 8 da rua entre 1858 e 1864. Naquele número, Proudhon lia, escrevia e recebia visitantes.

Em março de 1861, recebeu um jovem russo de trinta e três anos. Proudhon nunca havia visitado a Rússia, mas estava familiarizado com os russos: recebia muitas cartas de admiradores daquele país, onde suas opiniões sobre a liberdade, a autogestão, a educação e o papel da mulher agitavam debates entre intelectuais progressistas. O jovem que lhe batia à porta era um desses muitos admiradores. Seu nome era León Nikolaiévich Tolstoi.

Tolstoi Facts | O Escriba

Os dois se entenderam muito bem, embora pertencessem a mundos muito diferentes. Proudhon era um pensador progressista de origem operária, enquanto Tolstoi era filho da aristocracia russa, um mundo estagnado e preso ao passado. Mas o russo pensava no futuro: tinha ideias revolucionárias sobre educação, inspiradas em Proudhon, e estava ali para compartilhá-las com ele. Esboçava o projeto de uma escola libertária, onde os jovens seriam livres para aprender o que quisessem. O objetivo, mais do que instruir, seria criar cidadãos livres e conscientes.

Proudhon ouviu-o atentamente. Abriu a gaveta e mostrou um manuscrito ao visitante. O material, então inédito, defendia a guerra como princípio fundamental da vida humana, criador das leis, das instituições sociais e da própria cultura. O título desse manuscrito era “La Guerre et la Paix” (“A Guerra e a Paz”). Tolstoi se interessou e revelou que também escrevia um livro sobre a guerra. Pediu-lhe, então, autorização para tomar o título emprestado. Proudhon, que não se importava com direitos autorais, autorizou o uso. “O livro era, é claro, o monumental “Guerra e paz”.

Proudhon não viria a conhecer a obra-prima de seu interlocutor: morreu em 1865, quatro antes da primeira edição de “Guerra e paz”. Já Tolstoi, que visitara o número 8 da Rue du Conseil na condição de jovem admirador, sairia dali com suas convicções reforçadas e enriquecidas – e com um título que entraria para a história da literatura.

Texto originalmente publicado no livro “Tolstói e Dostoievksi’, da Companhia Zaffari

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