Literatura, Livros

Resumo e análise de “Poemas escolhidos”, de Florbela Espanca

Ilustração de Yassmine Uequed Pitol

1 – O momento

Na virada do século XIX para o XX, Portugal é um país em busca de reconstrução. O país passara os últimos oitenta anos tentando refazer-se da perda territorial do Brasil, fonte inesgotável de recursos para a Coroa, para inserir-se no capitalismo europeu moderno, cuja evolução não acompanhara. Para piorar as coisas, em 1890 os portugueses recebem o chamado “Ultimatum” dos britânicos, que põem o país contra a parede e exigem a cedência de amplas áreas do seu (já decadente) Império colonial. A contragosto, os portugueses obedecem.

Uma crise social e econômica põe o país em profunda depressão: a população emigra em massa (em geral, para o Brasil), a miséria grassa em quase todo o país e a monarquia, fiel da balança da política local, começa a balançar pela primeira vez em sete séculos de existência. O estado de ânimo da nação portuguesa está desenhado nas palavras de um grande poeta daquele momento, António Nobre: “Meus amigos, que desgraça é nascer em Portugal”.

2- A poetisa

Foi neste Portugal derrotado e em busca de novos caminhos que Florbela Espanca nasceu. A menina veio ao mundo no dia 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, pequena localidade do Alentejo, no sul do país. Filha de um antiquário e de uma camponesa, tinha apenas um irmão, Apeles, e seu nome de batismo – Flor Bela Lobo – foi trocado na adolescência, quando, ainda como estudante do afamado Liceu Nacional de Évora, passou a assinar seus primeiros versos.

Em vida, Florbela Espanca publicou apenas duas obras: o “Livro de Mágoas”, de 1919, e o “Livro de ‘Sóror Saudade'”, em 1923 – os dois às próprias custas. Nenhum dos dois obteve maior notoriedade em vida; o primeiro, contudo, esgotou a edição. As menções a Florbela na imprensa portuguesa da época são raras: o jornal “Correio da Manhã”, por exemplo, incluiu-a no grupo de jovens senhoras que demonstram “saber versejar”, sendo capaz, portanto, de distrair os homens nos salões de Évora com suas composições. Ficam claros os preconceitos da época sobre o lugar destinado às mulheres. Florbela suicidou-se em 1930 sem ter tido qualquer fama.

Foi, contudo, conhecida por vários poetas seus contemporâneos; dentre eles, ninguém menos do que Fernando Pessoa – outro que morreu sem ter notoriedade -, para quem Florbela era “Alma sonhadora, irmã gêmea da minha”.

3 – A poética de Florbela: estilo, temas, abordagens

A obra de Florbela Espanca inclui diários, contos, artigos, ensaios e epístolas. Mas é, sem dúvida, como poetisa que nós a conhecemos melhor, e é na poesia que está o seu melhor.

Florbela, como vimos, publicou apenas dois livros em vida. A quase totalidade de seu trabalho é de publicação e reconhecimento póstumos.

De acordo com o estudioso Rolando Galvão, em Florbela temos uma repetição incessante de certos termos como “alma”, “saudade”, “beijos”, “amor”, “poeta” e outros ligados às sensações individuais. Enfatize-se aqui “individuais”: a poetisa pouco ou nada se importa com temas sociais ou coletivos, como o destino de certos grupos. Interessa-lhe o “eu” fraturado, fruto das oposições, das frustrações e da incompreensão.

É o que vemos em “Fanatismo”, por exemplo:

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida …
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

Nas duas estrofes anteriores, temos a exposição do desejo incontrolável , fruto de uma paixão obsessiva. O eu lírico da poetisa não procura controlar essa paixão e o desejo, pelo contrário: descreve-o plenamente, sem receios. O mundo que a cerca pouco importa: suas oposições, suas lutas, as grandes transformações históricas e sociais, nada disso tem valor diante daquilo para o qual a poetisa destina seu olhar. A estrofe a seguir o confirma:

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..

A fragilidade e a transitoriedade do mundo não importam, nem mesmo Deus importa: só o objeto amado.

O tom é semelhante em outro poema, “Horas rubras”, onde o passar do tempo durante a noite é associado

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras !

Em toda a poesia de Florbela , como dissemos, sobrepõe-se o Eu ante tudo – o Eu que ama, o Eu que adora, o Eu que se rende às paixões e aos encantos. Um poema com o título “Eu” não pode ser diferente:

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

A voz que enuncia é a que se sente como “Crucificada e dolorida”. Não apenas um Eu que ama, é um Eu que está fraturado, disperso, dividido, lesado de muitas formas. No segundo quarteto, aparecem expressões como “sombra”, “luto”, “névoa”, que evocam a escuridão e o desespero.

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Novamente o Eu que se enuncia ante tudo e todos aparece no poema “Vaidade”:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Os dois primeiros quartetos são os de uma poetisa em busca da perfeição de expressão, da pura habilidade artística e do sucesso estético. Seu sonho é o do fazer artístico pleno. Mas os dois tercetos finais mostram outra realidade:

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

No primeiro terceto, vê-se um objetivo distinto: a poetisa quer ser mais do que uma grande artista – quer ser alguém diante do qual a Terra anda curvada. Mas é tudo sonho – do qual ela acorda, e descobre que não é nada. Esses extremos entre a auto-percepção e a realidade são um elemento frequente da poesia de Florbela Espanca, expressos de diversas formas.

No poema “Lágrimas ocultas” vemos essa distinção entre a realidade e auto-percepção e a falta de alguém para confessar as frustrações:

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

O eu lírico presente em Florbela está sempre em estado de tristeza e perda – sempre em desesperança. A alegria, se existiu, ficou no passado, e dele não sairá. A boca, que antes tinha o sorri das Primaveras, agora apenas tem a tristeza e a desesperança.

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Lágrimas que a poetista chora em solidão, mesmo que cercada pelos outros. Elas brotam dentro da alma e ninguém as vê cair – porque não caem ao longo do rosto, mas dentro da alma. A tristeza de Florbela é sempre solitária e invisível.

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