Memória urbana

Travessa dos Venezianos (Porto Alegre)

travessa

Borges dedicou um de seus mais conhecidos poemas à sua cidade natal, Buenos Aires. Intitulado “As Ruas”, fazia o elogio das calles da capital porteña, mas com um aviso:

“Não as ávidas ruas,
incômodas de gente e bulício,
mas as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de tão usuais,
enternecidas de penumbra e de ocaso”

Eram as ruas da região Sul porteña, ainda intocadas pela europeização, pelos prédios altos e pelo automóvel, onde a antiga Buenos Aires colonial, latinoamericana, mestiça e colorida, subsistia quase que em forma de resistência aos avanços da modernidade.

Ruas indolentes, de bairro, invisíveis, enternecidas de penumbra e de ocaso: como não reconhecer a Travessa dos Venezianos, em Porto Alegre, nessa descrição?

Em particular, o adjetivo “invisível”:  localizada entre as ruas Lopo Gonçalves e Joaquim Nabuco, quem passa de automóvel não a encontra facilmente. É preciso mirar atentamente para um espaço entre duas casas antigas, guarnecido por pinos de cimento a impedir a passagem de veículos, para encontrar, como um explorador, os vestígios do objeto buscado. Os paralelepípedos cobrem o chão, contrastando com o asfalto das ruas próximas; ao olhar para cima, o contraste é ainda maior: um conjunto de 17 casas antigas, construídas entre fins do século XIX e a década de 1930, que muito pouco se parece com o resto da Cidade Baixa.

Os primeiros registros sobre a região datam da metade do século XIX. Na época, os limites urbanos de Porto Alegre encerravam-se onde hoje situa-se o Hipódromo do Cristal. A região da Cidade Baixa já era medianamente urbanizada e sujeita às constantes inundações advindas do Arroio Dilúvio em dias de chuva. A atual rua Joaquim Nabuco era, então, chamada de Rua dos Venezianos. Aos poucos, a travessa que fazia a conexão entre ela e a rua Lopo Gonçalves passou a ser denominada “Travessa da Rua dos Venezianos”. Com a mudança do nome da rua original, ficou conhecida como “Travessa dos Venezianos”.

A área onde se situa a Travessa era conhecida por ser zona de refúgio de escravos fugidos, atraídos pela difícil acessibilidade do local. Na virada do século, passou a ser moradia das classes populares.Somente em 1926 a rua foi calçada e, em 1935, figurou no mapa da cidade com o nome que a população já consagrada, “Travessa dos Cataventos”. Em 1980, o conjunto do casario foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

A Travessa é palco de grande movimentação popular em festejos juninos, carnaval e festas de final de ano. O estilo despojado dos estabelecimentos atrai um público do circuito underground. Também é espaço de celebração carnavalesca – desde o século XIX, com o Bloco dos Venezianos – e de valorização de culturas periféricas, da música afro-brasileira ao rap. Tal como as ruas de Buenos Aires que Borges tanto amava, ela é símbolo de uma Porto Alegre mais antiga – mais latinoamericana, mestiça e colorida. E que, também, encarna várias formas de resistência.

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