Esportes, Histórias do esporte

Escócia x Inglaterra: o clássico de seleções mais antigo do mundo

SCOTLAND 2-0 ENGLAND / Archive 1974 // Official Scotland - YouTube

Escócia x Inglaterra no começo dos anos 1970: o escocês Jimmy Johnstone (em azul) tenta o drible diante do inglês Norman Hunter.

Uma das cenas mais famosas do filme “Trainspotting” é aquela em que Mark Renton, interpretado por Ewan McGregor, dirige-se a seu amigo Tommy enquanto os dois contemplam uma montanha das Highlands escocesas. Suas palavras são as seguintes:

“É uma merda ser escocês! Nós somos o que há de mais baixo, a escumalha da porcaria do planeta inteiro! O lixo mais desgraçado, miserável, servil, patético que já se viu na civilização. Alguns odeiam os ingleses. Eu não. Eles são só uns idiotas. Nós, por outro lado, somos colonizados por idiotas. Não conseguimos sequer achar uma cultura decente para nos colonizar. Nós somos governados por imbecis decadentes!”

O ex-abrupto de Mark Renton é divertido, mas impreciso: a Escócia nunca foi exatamente uma colônia inglesa, e os escoceses provaram, em vários momentos, que não são nenhum lixo servil. De todo modo, esse trecho do filme reflete algo do sentimento dos escoceses quando  Inglaterra e Escócia entram em confronto, seja na política, na economia ou no futebol. Sentimento que, certamente, estará presente no jogo do dia 18 de junho, quando as duas seleções perfilarem no estádio de Wembley para a disputa da segunda partida da fase de grupos da Eurocopa 2020.

De onde vem esse sentimento? Alguns fatos o explicam. Em primeiro lugar,  a União entre Inglaterra e Escócia, consolidada a partir do Ato de União de 1707, nunca foi um acordo entre iguais. Por mais que os escoceses tenham participado do Império Britânico em todos os níveis e setores, a condução de toda a empresa colonial e de todos os afazeres internos de governo foi, em última análise, dos ingleses, a parte mais populosa e poderosa do Reino Unido. E é assim até hoje: no recente referendo do Brexit, que sacramentou a saída dos britânicos da União Europeia, a Inglaterra votou maciçamente a favor da proposta – mas a Escócia votou contra. Só que os ingleses são 55 milhões, e os escoceses, pouco mais do que cinco milhões. O combustível para o movimento nacionalista escocês, que busca separar o país do Reino Unido, são situações de desigualdade como essa. A União não é tão “unida” assim.

Tudo isso entra em campo. Mas o campo é, sobretudo, o espaço do futebol, e a rivalidade entre ingleses e escoceses nessa área se dá, first and foremost, por motivos desportivos. Tudo começou no dia 30 de novembro de 1872 – dia de Santo André, padroeiro da Escócia – quando os selecionados de cada país se enfrentaram pela primeira vez. O jogo teve lugar no campo de críquete Hamilton Crescent, em Glasgow , na Escócia, sede do West of Scotland Cricket Ground. Quatro mil pessoas pagaram um shilling para assistir à partida, que terminou em 0 a 0.

International Football Match Scotland vs England 1872 large steel sign 400mm x 300mm ogu

A essa partida sucederam-se várias outras nos anos subsequentes, até o momento em que ingleses e escoceses decidiram fazer uma partida anual entre as duas seleções. Aos poucos, as federações dos outros constituintes do Reino Unido – País de Gales e Irlanda do Norte – também passaram a organizar jogos. Foi criado, assim, o Home Championship, torneio envolvendo os quatro países realizado anualmente até 1984.

Até hoje, o clássico conta 113 partidas, com 48 vitórias inglesas, 41 vitórias escocesas e 24 empates. A diferença de população entre os dois países sugeriria uma discrepância maior em favor dos ingleses. Seria o caminho natural não fosse a absoluta supremacia escocesa nas primeiras décadas da disputa, favorecida pelo desenvolvimento tático da Escócia em relação à Inglaterra: enquanto os ingleses disputavam um estilo de jogo semelhante ao do rugby, com muitos lançamentos e correria, os escoceses foram os primeiros a desenvolver um sistema com passes curtos, movimentação, dribles e organização por setores. Pode parecer estranho visto de hoje, mas a Escócia tinha, até pelo menos os anos 1980, a fama de celeiro de jogadores habilidosos, porém pouco disciplinados, semelhante à da antiga Iugoslávia. Bill Shankly, ex-treinador do Liverpool (e que era escocês) dizia que um time deveria ter até três escoceses para vencer um torneio; a partir do quarto, começavam os problemas.

Isso, repito, até os anos 1980. Hoje em dia, Inglaterra e Escócia pertencem a mundo separados no futebol mundial. Os ingleses são presença garantida em todas as grandes competições, enquanto a Escócia participa da Eurocopa após mais de duas décadas sem classificar-se para nenhum torneio importante. Os escoceses celebraram muito; mas a celebração durou pouco: logo na estreia, nesta segunda, perderam por 2 x 0 para os tchecos. Quanto aos ingleses, venceram os croatas por 1 x 0 com autoridade e firmeza. O enfrentamento do dia 18 trará esses dois velhos adversários para o mesmo campo, e os ingleses têm nítida vantagem. Mas irão enfrentar um adversário que, além de precisar vencer, entrará em campo decidido a provar que Mark Renton – e aqueles que concordam com ele – estão totalmente errados.

 

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