Literatura, Livros

Resumo e análise de “Mensagem”, de Fernando Pessoa

O momento

“Mensagem”, de Fernando Pessoa, foi publicado no dia 1 de dezembro de 1934. A data comemora a Restauração da Independência do trono português e o fim da União Ibérica, que colocou os reinos de Portugal e Espanha sob o mesmo monarca. A escolha de Fernando Pessoa não parece ter sido gratuita: o livro aborda justamente a restauração da grandeza perdida de Portugal em todos os níveis:  simbólico, político, cultural e espiritual.

Em 1934, Portugal é um país profundamente decadente, mas que busca a reconstrução. É a nação mais pobre da Europa Ocidental e profundamente dependente dos ingleses, com quem têm um tratado desde o século XIV. Em 1933, o ditador Antonio Salazar assume o poder com a promessa de, entre outras coisas, retomar a grandeza perdida do país.

O poeta

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Aos cinco anos, perde o pai e é levado pelo padrasto e pela mãe para Durban, na África do Sul, onde faz o curso primário e secundário. Retorna a Lisboa em 1905, matriculando-se no curso de Letras da Universidade de Coimbra. Sustenta-se como correspondente comercial em línguas estrangeiras. Envolvido pela poesia, passa a participar de revistas como a “Orpheu”, publicação fundamental das letras portuguesas daquela época. Em 1934, publica “Mensagem” e inscreve o livro em um concurso nacional de poesia, obtendo o segundo lugar.

No ano seguinte, é acometido de uma cirrose hepática e morre. Seu único livro publicado em vida é “Mensagem”.

3. A poética de “Mensagem”: estrutura do poema, recursos poéticos, temática

“Mensagem” é o único trabalho de pessoa elaborado de modo estruturado. O resto de suas publicações em vida foram poemas esparsos, livretos ou ensaios, impressos em jornais ou revistas literárias.

A matéria de Pessoa em “Mensagem” é a História de Portugal – suas origens simbólicas, suas aventuras marítimas e sua mitologia nacional da redenção e do retorno à glória. A glorificação da história nacional aproxima “Mensagem” de “Os Lusíadas”, de Camões. Quem lê “Os Lusíadas” acaba por conhecer boa parte da história portuguesa, narrada de forma mítica, mas, ainda assim, narrada, com personagens, acontecimentos e desenrolares. Não é o caso de “Mensagem”: aqui, os eventos da história portuguesa são, mais do que contados, interpretados.

O livro apresenta uma estrutura tripartite, isto é, dividida em três partes: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”. As partes são equivalentes, grosso modo, à ascensão, ao apogeu e ao declínio de Portugal.

3.1 – “Brasão”

Os poemas reunidos nesta parte do livro abordam a formação de Portugal, a expansão do território e os descobrimentos. A divisão desta parte do livro é baseada no brasão nacional de Portugal, que tem dois campos divididos: um tem sete castelos, o outro, cinco quinas. Na parte de cima do brasão está a coroa e o timbre. Os poemas abordam as principais figuras da história portuguesa, como o infante Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Afonso de Albuquerque e diversos mitos relacionados a Portugal.

Trecho:

SEGUNDO / VIRIATO

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é ja o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.

 

 

3.2 – Mar Português

Nesta parte, os poemas enfocam as viagens marítimas e as conquistas de Portugal. Enfoca os principais caminhos percorridos pelos portugueses ao longo de sua longa trajetória histórica, os inimigos enfrentados e as missões desempenhadas.

Trecho:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

3.3 – O Encoberto

Enfoca a visão de D. Sebastião e do Quinto Império, mito capaz de reverter a decadência portuguesa. Dom Sebastião foi um rei de Portugal desaparecido em 1578, após um ataque aos mouros no Norte da África. Após o seu desaparecimento, diversas lendas e profecias são associadas ao seu nome, todas elas prevendo o seu retorno triunfal – ao conjunto destas lendas e profecias dá-se o nome de sebastianismo.

A volta do rei Dom Sebastião está em diversas profecias presentes na cultura portuguesa – como a do Padre Antônio Vieira – e sua missão será formar o Quinto Império, onde Portugal voltará a ganhar a proeminência do passado.

Trecho:

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

 

 

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