Literatura, Livros

Patrícia Melo e a literatura

Patricia Melo fala de seu novo livro no Viamundo desta quarta. | Viamundo

 

O porquê da literatura

Há várias razões pelas quais devemos nos dedicar à literatura. Primeiro, porque ela é sempre uma hipótese. Hipótese de uma vida. É uma maneira de você vivenciar uma vida diferente da sua. De ter uma experiência diferente e aprender. A maneira mais fácil de ver a importância da literatura na vida de um ser humano é pensar nos livros que mudaram sua vida. Há livros que mudam nossa vida. Mudam nossa cabeça de tal forma que a gente passa a ter uma conduta diferente. Passa a ter uma perspectiva diferente. A literatura não é só sonho, entretenimento, embora também possa ser, mas é também autoconhecimento. Ela é a vivência de uma experiência possível. Ou de uma experiência impossível. É um mergulho na linguagem. Uma possibilidade de aprender, de maneira muito agradável, a estrutura da sua língua. De aprender novos vocábulos. De melhorar sua maneira de falar. As vantagens de ser um leitor são tantas. É até difícil elencar. A vida, sem literatura, é como a vida sem o sonho. É pobre. Uma vida reduzida. Sempre brinco: a gente deveria ter duas vidas, uma para viver e outra só para ler. Por mais que me dedique à literatura, estou sempre correndo atrás. Sempre achando que minha formação está cheia de buracos. Que há livros e mais livros que quero ler. Para mim, não há prazer maior do que sentar em uma poltrona, pegar um livro e mergulhar na história.

Os livros que mudaram minha vida

Daria para fazer uma entrevista inteira só sobre os livros que mudaram minha vida. Um deles foi O estrangeiro, do Camus. Esse absurdo da vivência, esse vazio sobre o qual Camus sempre fala na literatura dele, ecoou de uma forma tão profunda em mim… Acho que já o li umas dez vezes. Outro que teve um impacto profundo foi Crime e castigo, do Dostoiévski. Quando falo em transformação do leitor, não é só na sua maneira de pensar. Ela também tem a ver com uma questão estética. Alguns livros me marcam profundamente pelo estilo. Pela maneira como aquela história é contada. Outros livros me marcam pela densidade dos personagens, são personagens que você passa a carregar a vida toda. Quem leu Lolita, do Nabokov, por exemplo? Lolita é uma personagem que tem carne. Você sabe perfeitamente quem ela é. Ela é tão presente na vida do leitor quanto um familiar, um parente. Às vezes até é muito mais próxima de você como figura humana do que um primo, um tio. O que a literatura nos dá é uma gama de possibilidades — estética, experimental, no sentido de vivência. Há livros que marcam especificamente porque há algo neles que ecoa em nós de maneira direta. Mas, no fundo, o que vai transformar o leitor é essa constelação de leituras. Em um livro há o apelo estético, no outro há um personagem no qual o leitor se reconhece, e às vezes até de maneira negativa, como um espelho assustador, no outro é um espelho inspirador. É nessa dinâmica, na leitura de vários autores, que você tem a perspectiva de se enriquecer como pensador. Como ser humano. Como pessoa.

Escrita e plano

 Nunca consegui fazer um plano literário. Sempre faço um mergulho no livro que me proponho a escrever, sem pensar muito no que vai ser na sequência. Sem tentar responder às expectativas que são criadas em cima da minha própria literatura. Tem sido isto: a cada livro, um novo desafio. Sempre encaro assim o início de um novo projeto. Um desafio que nem sei se vai dar certo. De repente, não dá certo. Um desafio em termos de estilo, narrativa, temática. Sempre é um tiro no escuro. Procuro escrever sem planejar muito, sem ter muita expectativa, para também não me frustrar demais. 

O escritor e a liberdade

 O que acho interessante, na vida do escritor, é justamente a liberdade. Por exemplo, senti uma certa pressão quando escrevi O matador. Foi um grande sucesso — não só no Brasil, mas fora dele. Havia uma expectativa dos meus editores. Como se meu próximo livro tivesse que ter a força d’O matador. Acho que é muito frustrante pro escritor repetir uma experiência que ele acabou de realizar no livro anterior. Não sei o que é ter um estilo, mas imagino que significa exatamente isto: retomar experiências de projetos anteriores em projetos em construção. Acho que isso é, no mínimo, tedioso. Você não se impõe nenhum desafio, fica repetindo a fórmula que deu certo. Tenho tentado, ao longo da minha carreira, a cada novo projeto, esquecer o livro anterior. Esquecer aquela experiência.

Prazer do risco

Lembro do poeta Joseph Brodsky falando que literatura e poesia são espaços nos quais os profissionais que estão envolvidos são quase obrigados a abrir mão de suas experiências se não quiserem se frustrar. É diferente dos outros profissionais que se beneficiam das experiências que ganharam ao longo da realização de projetos. É exatamente essa a minha sensação. Quando começo um projeto, falo: “Bom, isso aqui não quero. Já sei exatamente o que não quero, que é o que sei fazer”. O que sei fazer é o que não quero. Quero algo arriscado. Sentir que estou fazendo pela primeira vez.

O processo criativo

O que aprendi como roteirista de cinema e TV é o que chamo “eficiência da narrativa”. No cinema e na TV você tem pouco tempo para contar uma história, então é preciso ser muito eficiente, saber exatamente como contar a história. O que eu trouxe dessas mídias foi isso, essa preocupação com a eficiência. Com conseguir articular uma narrativa, que é um arco. Ela tem desenvolvimento, ápice, tem que se resolver. Isso vem muito da preocupação como roteirista. Acho isso muito benéfico para minha literatura. Porque eu, como leitora, sou muito crítica no que diz respeito à eficiência das narrativas dos autores. Às vezes, me incomoda: estou lendo e percebo que o livro está cheio de gordura. Pra que isso? Sinto que é quando falta a mão do editor cortando. É difícil para o próprio autor cortar. Não consegue cortar, o livro fica com barriga, sem ritmo. São essas preocupações que eu trouxe do cinema e da televisão: ritmo, eficiência. Foi muito positiva essa temporada no audiovisual. • Processo criativo 1 Acabei um livro novo, e esse processo sempre se repete. Cada livro tem uma escritura, uma pesquisa, até uma rotina de trabalho diferentes. Mas o que se mantém sempre é o nascimento do livro. É sempre da mesma maneira. Estou no branco, sem saber o que vou fazer, não sei o que quero fazer no próximo projeto, aí começo a me interessar por alguma coisa específica. Geralmente é um tema. Sempre que estou lendo o jornal, escolhendo novos livros que vou ler, estou sempre privilegiando uma temática. Começo a mergulhar numa temática. Antes ainda de perceber que aquilo vai se transformar num livro. Na verdade, começo a pesquisar sem saber que estou pesquisando. E, de repente, penso: “Esse é um material que posso usar em um romance”. Assim que tenho um tema, a primeira coisa que penso é em quem vai contar a história. Quem são os personagens que podem incorporar a temática. É sempre nessa sequência: primeiro a temática, depois personagens, aí começo a pensar em uma história mesmo. Começo a fabular. Mas em uma fase muito experimental, sem saber até se vou seguir adiante com isso. • Processo criativo 2 De repente, tenho um ovo. Tenho esses personagens de que gosto, essa temática, aí começo a fase de pesquisa. Vou atrás de amigos que sei que podem me dar uma bibliografia, vou atrás de profissionais que trabalham com essa temática que quero conhecer. Geralmente é um assunto que desconheço totalmente. Isso dura uma média de um ano, mais ou menos. Só de leituras, anotações. Vou preenchendo um monte de caderninhos, até de conversas que tenho com pessoas que me interessam. Muita anotação de coisas que vejo, pessoas que conheço, trejeitos delas, frases que me falam. Vai tudo pra esse caderninho.

Ladrão e espião

Todo escritor é um bom ladrão. Mais do que ladrão, todo escritor é um espião. Ele está sempre olhando pelo buraco de fechadura. É impossível você deixar de ser espião sendo escritor. O tempo todo você fica com a maquininha de espião ligada.

A inspiração

Sopro das musas Tem muita angústia na escritura. O que é a escritura? Um momento de busca. Você está buscando uma série de coisas. Uma estrutura, um personagem. Parte da criação acontece fora da mesa de trabalho. Mas uma parte muito importante acontece quando se está escrevendo. É importante que aconteça quando se está escrevendo. Se você decide tudo antes, sobra muito pouco espaço para a improvisação. Para as musas. É na hora que você senta para escrever que há a possibilidade de se relacionar com as musas, receber um sopro delas.

Só começo um livro quando sei como vai acabar. Sei o começo e sei o fim. Nunca mudei. Pode ser que no futuro aconteça. Em todos os livros que escrevi até agora, a partida e a chegada eu sabia. O resto pode ficar um pouco sem saber, vai se desenvolvendo. Mas esses dois pontos acho importante de o ficcionista dominar, acho que isso dá um norte. No meu caso, pelo menos.

Vingança

No Mulheres empilhadas, tinha a questão da realidade que eu queria trabalhar. Mas queria, também, que houvesse espaço para a vingança. A vingança não poderia ser no plano da realidade, porque achava que, dessa forma, se a protagonista tomasse consciência da violência e fosse como um matador de saias, como a personagem da Uma Thurman no filme do Tarantino [Kill Bill], aí estaria transformando essa mulher em um assassino do mesmo tipo que mata as mulheres. Então, queria que a violência fosse uma fábula. Quase que um canal para extravasar, uma sublimação dessa violência. Desse desejo de vingança. Uma sublimação do desejo de vingança. Aí, as coisas foram se juntando na pesquisa. Queria que acontecesse no Acre, porque o Acre me dava vários tipos de mulheres: a da floresta, dos povos ribeirinhos, das comunidades indígenas, da comunidade rural. Uma coisa foi levando a outra, aí consegui criar — buscando nas próprias lendas amazônicas — uma realidade imaginária de guerreiras vingadoras que saem atrás dos homens que escapam impunes dos tribunais e fazem rituais de canibalismo com eles. Elas se vingam, matam, se divertem muito com os atos. Era uma estrutura que permitia, também, uma espécie de contrapeso à violência. Um olhar mais bem-humorado. O contrapeso da realidade. Fiquei muito feliz de conseguir. Foi uma matemática. No começo, estava com muita dificuldade de estruturar o romance. Precisei de uma estrutura tripartida para dar conta de tudo isso.

Lugar de fala e literatura

 Lugar de fala significa empobrecer a literatura. A literatura é um espaço de liberdade, não pode haver esse tipo de preocupação. O que significa ter lugar de fala na literatura? Que só posso escrever sobre o que vivo? Só sobre a minha experiência? Isso é de uma pobreza… É como se você colocasse toda sua imaginação numa caixinha. “Tem que ser assim agora, porque tem que ter o lugar de fala. Você não tem autoridade pra falar isso…” Eu, como ficcionista, tenho autoridade para falar sobre o que quiser. Assim como os críticos têm liberdade para odiar meu livro e achar que fiz muito mal. Que não convenço. Que os personagens que escrevi não têm densidade. Mas tenho que ter essa liberdade. Literatura e lugar de fala são duas coisas incompatíveis. Não dou a menor bola para essa discussão no âmbito da literatura. Não gasto nem tempo pensando nisso.

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