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Uma lição das eleições francesas

Macron x Le Pen: França vota segundo turno das eleições neste domingo (24) – Money Times

As eleições presidenciais francesas realizadas ontem deram a vitória a Emmanuel Macron sobre a candidata de direita radical Marine Le Pen. Seu governo prossegue até 2026, mas inicia sob o signo da contestação: manifestações espocaram nas ruas de Paris e outras cidades francesas pedindo uma França “sem Marine, nem Macron”. 

Não é o que se espera de um governo recém-eleito – afinal, não foi o povo francês, através de sua livre escolha democrática, quem conferiu a Macron a honra de liderar o país por mais quatro anos? De onde vem a insatisfação com o homem que acabaram de eleger?

Os números fornecem algumas pistas. A vitória de Macron veio com 58,2% dos votos. A segunda colocada, Marine Le Pen, somou 41,8%. No primeiro turno, as urnas deram a Macron 27,84% dos votos. Le Pen ficou com 23,15% e a candidatura de esquerda de Jean Luc Mélenchon, do partido “França Insubmissa”, ficou com 21,95%. Em outras palavras, Macron nunca foi o rei da preferência popular: seus dois adversários no primeiro turno obtiveram expressivas votações, próximas às dele, e com pautas muitíssimo distintas das dele. Mais: Le Pen e Mélenchon têm com vários pontos em comum, como a proposta para a França sair da OTAN,  o estímulo à industrialização e a nacionalização de setores da economia.

Há, contudo, diferenças óbvias. Jean Luc Mélenchon é um homem de esquerda e não apoiaria jamais – por exemplo – a pauta anti-imigratória de Le Pen. No segundo turno, não abriu apoio a Macron: disse apenas que não votaria em Le Pen. Sequer chegou a ensaiar o famoso “apoio crítico”, posição típica da extrema-esquerda brasileira quando decide somar forças com a esquerda “burguesa” contra um candidato explicitamente extremista. Le Pen pode ser uma péssima ideia para ele, mas não tão má a ponto de fazê-lo dividir palanque com um liberal atlantista pró-OTAN, pró-UE e pró- Ucrânia. Por outro lado, Macron não contrapôs a pauta protecionista e industrialista de Le Pen, de grande apelo entre os trabalhadores franceses. Precisou apoiar-se no discurso de combate ao populismo autoritário – evita-se, por alguma razão, o termo “fascismo” – para fazer-se eleger com o apoio da esquerda. Parte do eleitorado, horrorizado com a perspectiva de ser governado por Le Pen, votou nele a contragosto; outra parte não votou; e outra não votou em ninguém.

Se há uma lição que o cenário francês nos mostra é que esse discurso não é suficiente para quem quer combater extremistas. Quem enfrentará eleições nos próximos meses deveria tomar nota.

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