Humanidades

A Divina Comédia e a Filosofia – Friedrich Wilhelm Schelling

700 anos da morte de Dante Alighieri: Minha homenagem ao Sumo Poeta. | by Eduardo França de Souza | Medium

Ensaio datado de 1803

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Aos que amam o passado mais que o presente não causará estranheza verem-se afastados dos espetáculos nem sempre recompensadores deste último e levados de volta a um tão longínquo monumento da filosofia ligada com a poesia como são as obras de Dante, há muito recobertas pela santidade da antiguidade.

Para justificar o espaço ocupado aqui por estes pensamentos, não desejo de início alegar nada, a não ser que o poema a que se referem é um dos mais notáveis problemas da construção histórica e filosófica da arte. A continuação mostrará que esta investigação encerra em si outra, muito mais universal, concernente às relações da própria filosofia, e para esta não é de interesse menor que para a poesia, já que a fusão mútua de ambas, a que tende todo o tempo moderno, requer, de ambos os lados, condições igualmente determinadas.

No sagrado Santuário, onde religião e poesia se aliam, ergue-se Dante como Sumo Sacerdote – e sagra toda a arte moderna para sua destinação. Representando não um poema individual, mas, o gênero inteiro da poesia moderna e, mesmo, um gênero por si, a Divina Comédia está tão inteiramente fechada em si mesma que a teoria abstraída de formas mais particular é totalmente insuficiente para ela, que, como um mundo próprio, exige também sua própria teoria. O predicado da divindade foi-lhe dado pelo autor porque ela trata da teologia e de coisas divinas; comédia, ele a chamou segundo os conceitos mais ele só é pensável se o saber, como imagem do universo e em perfeita concordância com ele, como a mais original e mais bela das poesias, já for em si mesmo e por si mesmo elementares desse gênero e de seu oposto, por causa de seu começo terrível e de seu feliz desenlace e porque a natureza mista de seu poema, de matéria ora mais sublime ora mais vil, tornava necessária uma espécie também mista de tratamento.

É fácil ver, porém, que segundo os conceitos usuais ele não pode ser chamado dramático, pois não apresenta nenhuma ação delimitada. Na medida em que se considere o próprio Dante como a personagem principal, que apenas serve de elo para a imensa série de visões e quadros e se comporta mais como passiva que como ativa, esse poema poderia parecer aproximar-se do romance; mas também esse conceito o esgota tão pouco que ele pode, segundo uma representação mais usual, ser chamado épico, uma vez que nos objetos da exposição mesma não ocorre nenhuma sucessão.

Considerá-lo como poema didático é igualmente impossível, uma vez que foi escrito em forma e propósito muito mais incondicionados que os do ensino. Não é, portanto, nada de tudo isso em particular, nem sequer, porventura, uma composição, mas uma mistura inteiramente própria, como que orgânica, que não pode ser reproduzida por nenhuma arte arbitrária, de todos os elementos desses gêneros, um indivíduo absoluto, não comparável a nada de outro, apenas a si mesmo.

Domenico di Michelino,  “Dante e seu poema” (1465)  

A matéria do poema, universalmente considerada, é a enunciação da identidade de todo o tempo do poeta, a interpenetração de seus acontecimentos com as Ideias da religião, da ciência e da poesia no espírito mais eminente daquele século. Não é nosso propósito captá-lo em sua referência imediata ao tempo, mas, pelo contrário, em sua validade universal e exemplaridade para toda a poesia moderna.

A lei necessária da poesia moderna, até o ponto, situado a distância ainda indeterminada, em que entrará em cena como totalidade acabada a grande epopeia do tempo moderno, que até agora se anuncia apenas rapsodicamente e em fenômenos isolados, é: que o indivíduo forme em um todo a parte do mundo a ele revelada e, da matéria de seu tempo, de sua história e de sua ciência, crie para si sua mitologia. Pois, assim como o mundo antigo era, universalmente, o mundo dos gêneros, o mundo moderno é o dos indivíduos: ali o universal é verdadeiramente o particular, a espécie atua como indivíduo; aqui, ao inverso, o ponto de partida é a particularidade, que deve tornar-se universalidade. Por isso mesmo, naquele, tudo é duradouro, imperecível: o número não tem, por assim dizer, nenhum poder, uma vez que o conceito universal e o do indivíduo coincidem em um; neste, variação e mudança são lei permanente, não é um círculo fechado, mas somente um círculo a ser ampliado ao infinito pela individualidade, que abrange suas determinações, e, porque a universalidade pertence à essência da poesia, a exigência necessária é esta: que o indivíduo, através da máxima singularidade, volte a tornar-se universalmente válido – através da perfeita particularidade, absoluto. Justamente pelo que há de puramente individual, comparável a nada de outro, em seu poema, Dante é o criador da arte moderna, que, sem essa necessidade arbitrária e esse arbítrio necessário, não poderia ser pensada.

Desde o começo primeiro da poesia grega, nós a vemos, em Homero, puramente separada da ciência e filosofia, e vemos esse processo de separação continuar até a consumada oposição entre poetas e filósofos, os quais, pelas explicações alegóricas dos poemas homéricos, buscaram em vão criar artificialmente uma harmonia. No tempo moderno, a ciência tomou a dianteira da poesia e da mitologia, que não pode ser mitologia sem ser universal e atrair para dentro de seu círculo todos os elementos da cultura existente, a ciência, a religião, a arte mesmo, e ligar em uma unidade consumada não só a matéria do tempo presente, mas também a do passado. Nesse conflito, em que a arte exige o fechado, delimitado, e o espírito do mundo tende ao encontro do ilimitado e com imutável firmeza derruba todo limite, é preciso que intervenha o indivíduo, separe com absoluta liberdade, procure ganhar a mistura das figuras que duram o tempo e, no interior das formas traçadas por seu arbítrio, dê novamente ao produto de sua poesia, através da absoluta singularidade, a necessidade interna e a validade universal, externamente.

Foi o que fez Dante. Tinha diante de si a matéria da história do presente, assim como do passado. Não podia elaborá-la em uma pura epopeia, em parte por sua natureza, em parte porque com isso teria novamente excluído outros lados da cultura de seu tempo. À totalidade desta pertenciam também a astronomia, a teologia e a filosofia do tempo. Ele não podia expô-las em um poema didático, pois com isso voltaria a limitar-se, e seu poema, para ser universal, tinha de ser, ao mesmo tempo, histórico. Precisava de uma invenção, totalmente arbitrária, partindo do indivíduo, para ligar essa matéria e formá-la organicamente em um todo unitário. Expor as ideias da filosofia e teologia em símbolos era impossível, pois não existia uma mitologia simbólica. Mas tampouco podia ele fazer seu poema inteiramente alegórico, pois nesse caso, mais uma vez, não poderia ser histórico. Tinha de ser, portanto, uma mistura muito específica do alegórico e do histórico. Na poesia exemplar dos antigos não era possível uma saída dessa espécie: somente o indivíduo poderia lançar mão dela, somente a invenção absolutamente livre poderia ir a seu encalço.

O poema de Dante não é alegórico no sentido de suas figuras apenas significarem algo outro, sem serem, independentemente da significação e em si mesmas. Por outro lado, nenhuma delas é independente da significação de tal maneira que fosse ao mesmo tempo a própria ideia e mais que alegoria dela. Portanto, há em seu poema um meio-termo muito específico entre a alegoria e a configuração simbólico-objetiva. Não há dúvida, e o poeta mesmo o explicou em outra parte, de que Beatriz, por exemplo, é uma alegoria – ou seja, da teologia. Do mesmo modo suas companheiras, do mesmo modo muitas outras figuras. Mas, ao mesmo tempo, elas contam por si mesmas e aparecem como personagens históricas, sem por isso serem símbolos.

Dante, sob esse aspecto, é exemplar, pois enunciou o que o poeta moderno tem a fazer para inscrever o todo da história e da cultura de seu tempo, a única matéria mitológica que tem diante de si, em um todo poético. Ele tem de ligar com absoluto arbítrio o alegórico e o histórico, tem de ser alegórico, e o é mesmo contra sua vontade, porque não pode ser simbólico, e histórico, porque deve ser poético. A invenção que ele faz sob esse aspecto é sempre única, um mundo por si, pertinente inteiramente à pessoa.

O único poema alemão de vocação universal conjuga de maneira semelhante os extremos da tendência do tempo através da invenção inteiramente própria de uma mitologia parcial, a figura de Fausto, se bem que possa ser chamado comédia em um sentido muito mais aristofânico, e divino em outro sentido muito mais poético que o poema de Dante.

A energia com que o indivíduo dá forma à mistura particular da matéria existente no tempo e em sua vida determina a medida que ele adquire força mitológica. As personagens de Dante, já pelos lugares em que são postas e que são eternos, adquirem uma espécie de eternidade; mas não só o efetivo, que ele empresta de seu tempo, como a história de Ugolino, entre outras, mas também aquilo que ele inventa inteiramente, como o fim de Ulisses e de seus companheiros, têm no contexto de seu poema uma certeza verdadeiramente mitológica.

Só poderia ter um interesse muito subordinado expor em si mesmas e por si mesmas a filosofia, física e astronomia de Dante, uma vez que sua verdadeira singularidade está apenas no modo de sua fusão com a poesia. O sistema ptolomaico, que em certa medida é o fundamento de seu edifício poético, tem em si mesmo já um colorido mitológico; mas, se sua filosofia pode ser comumente caracterizada como aristotélica, com isso não deve ser entendida como a puramente peripatética, mas como a sua ligação, própria daquele tempo, com as ideias da platônica, como se pode demonstrar através de muitas passagens de seu poema.

Não queremos demorar-nos na consideração da força e solidez de certas passagens, da simplicidade e infinita ingenuidade de certas imagens, nas quais ele enuncia suas ideias filosóficas, como o conhecido trecho sobre a alma, que sai das mãos de Deus como uma garotinha, que chora e ri infantilmente, uma almazinha simplória, que nada sabe, a não ser que, movida pelo sereno Criador, gosta de voltar-se para ele e com isso se delicia: falamos somente da forma simbólica universal do todo, em cuja absolutez, mais que em qualquer outra coisa, se reconhece a validade universal e a eternidade desse poema.

Mesmo quando a ligação da filosofia e da poesia é captada apenas em sua síntese subordinada, como poema didático, é necessário, porque o poema não deve ter fim exterior, que a intenção (de ensinar) seja nele mesmo suprimida de novo e transmudada em uma absolutez, de tal modo que ele pareça ser em função de si mesmo. Isto, porém, poético. O poema de Dante é uma interpenetração muito mais alta da ciência e da poesia e, por isso mesmo, ainda mais adequada tem de ser sua forma, mesmo na mais livre autonomia, ao tipo universal da intuição do mundo.

A divisão do universo e ordenação da matéria segundo os três reinos, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, é, mesmo independentemente da significação particular desses conceitos no cristianismo, uma forma simbólica universal, de tal modo que não se vê por que nessa mesma forma toda época que se assinale não poderia ter a sua divina comédia. Assim como para o drama moderno a forma dos cinco atos é aceita como a usual, porque todo acontecimento pode ser considerado em seu começo, continuação, sua culminação, encaminhamento ao fim e fim efetivo, assim também aquela tricotomia de Dante é pensável como a mais alta poesia profética, que um tempo inteiro enunciasse, como forma universal cujo preenchimento pudesse ser infinitamente diverso, assim como ela poderia sempre de novo ser revivida pela potência da invenção original. Não só como forma exterior, porém, mas como expressão simbólica do tipo interior de toda ciência e poesia, aquela forma é eterna e apta a abranger em si os três grandes objetos da ciência e da cultura – natureza, história e arte. A natureza é, como nascimento de todas as coisas, a noite eterna e, como aquela unidade pela qual estas são em si mesmas, o afélio do universo, o lugar do distanciamento de Deus como verdadeiro centro. A vida e a história, cuja natureza é o progresso gradativo, é apenas explicitação, passagem a um estado absoluto. Este último só está presente na arte, que antecipa a eternidade, o paraíso da vida, e está verdadeiramente no centro.

O poema de Dante, portanto, considerado por todos os lados, não é uma obra isolada de uma época particular, de um estágio particular da cultura, mas é exemplar, pela validade universal, que unifica com a mais absoluta individualidade, pela universalidade, em virtude da qual não exclui nenhum lado da vida e da cultura, pela forma, enfim, que não é tipo particular, mas tipo geral da consideração do universo.

A particular ordenação interna do poema não pode, por certo, ter essa validade universal, uma vez que é formada segundo conceitos do tempo e propósitos particulares do poeta; em contrapartida, o tipo interior universal, como não se poderia esperar que fosse diferente em tal obra tão cheia de arte e totalmente intencional, é também simbolizado exteriormente por figura, cor e tom das três grandes partes do poema.

Dado o caráter incomum de sua matéria, Dante precisava, para a forma de suas invenções no particular, uma espécie de autenticação, a qual só lhe poderia ser dada pela ciência do tempo, que é para ele como que a mitologia e o fundamento universal que sustenta a audaciosa construção de suas invenções. Mas até no particular ele permanece inteiramente fiel ao propósito de ser alegórico sem deixar de ser histórico e poético. Inferno, Purgatório e Paraíso são como que apenas o sistema da teologia in concreto e arquitetonicamente executado. As medidas, números e proporções, que ele observa no interior deles, eram prescritos por essa ciência, e aqui ele se entregava deliberadamente à liberdade da invenção, para dar a seu poema, ilimitado em sua matéria, necessidade e delimitação pela forma. A universal santidade e significação dos números é outra forma exterior em que se fundamenta sua poesia. Assim, de modo geral, toda a erudição lógica e silogística daquele tempo é para ele apenas forma, que tem de ser-lhe concedida, para alcançar aquela região em que se encontra sua poesia.
Contudo, nessa adesão a representações religiosas e científicas como o mais universalmente válido que lhe oferecia seu tempo, Dante não busca nunca uma espécie de verossimilhança poética comum, mas, pelo contrário, justamente com isso suprime todo propósito de adular os sentidos grosseiros. Sua primeira entrada no Inferno ocorre, como tinha de ocorrer, sem nenhuma tentativa apoética de motivá-la ou torná-la concebível, em um estado semelhante ao de uma visão, sem que no entanto houvesse o propósito de fazê-la passar por uma visão. Sua elevação através dos olhos de Beatriz, através dos quais a força divina como que se comunica a ele, ele a exprime em uma única linha, mesmo o maravilhoso de seus próprios encontros ele transforma imediatamente em um símile de mistérios da religião e os autentica pelo Mistério ainda mais alto, como quando faz de sua acolhida na Lua, que se compara à da luz na água indivisa, uma imagem da humanização de Deus.
Expor a plenitude da arte, a profundeza da intencional idade que vai até ao pormenor, na construção interna das três partes do mundo, seria uma ciência própria, como pouco tempo depois da morte do poeta sua nação o reconheceu, ao instituir uma cátedra própria para o estudo de Dante, que Boccaccio foi o primeiro a ocupar.

Mas não só as invenções particulares de cada uma das três partes do poema deixam transparecer o universalmente significativo da primeira forma; ainda mais determinadamente exprime-se sua lei no ritmo interno e espiritual pelo qual são opostas uma à outra. O Inferno, como é o mais terrível em seus objetos, é também o mais vigoroso na expressão, o mais rigoroso na dicção, escuro e atroz também nas palavras. Em uma parte do Purgatório repousa uma profunda quietude, em que emudecem os lamentos de dor do mundo inferior; em suas elevações, as antecâmaras do céu, tudo se torna cor; o Paraíso é uma verdadeira música das esferas.

A multiplicidade e variedade dos castigos no Inferno foram criadas com uma inventividade quase sem exemplo. Entre o crime e o tormento nunca há outra conexão, a não ser poética. O espírito de Dante não se assusta ante o pavoroso: ele chega a ir até seu limite extremo. Mas é possível mostrar, em cada caso particular, que ele nunca deixa de ser sublime e, portanto, verdadeiramente belo; pois aquilo que certos homens, que não estão em condição de captar o todo, assinalaram, em parte, como vil, não o é em seu sentido, mas sim elemento necessário do caráter misto do poema, em virtude do qual Dante mesmo o denominou comédia. O ódio ao ruim, a cólera de uma mente divina, que se exprime na pavorosa composição de Dante, não são herança para almas comuns. Por certo é ainda muito duvidoso o que foi comum ente admitido – que somente o banimento de Florença, depois de ele ter, até então, consagrado a parte principal de sua poesia apenas ao amor, havia incitado seu espírito, inclinado ao sério e ao extraordinário, à sua mais alta invenção, em que exalou a totalidade de sua vida, dos destinos de seu coração e de sua pátria, ao mesmo tempo em que sua amargura. Mas a vingança que ele exerce no Inferno, ele a exerce como em nome do Juízo Universal, na qualidade de juiz criminal por missão, com força profética, não por ódio pessoal, mas com a alma devota revoltada pelas atrocidades do tempo e com um amor da pátria há muito não mais reconhecido, tal como ele próprio se apresenta, em uma passagem do Paraíso, em que diz: “Se um dia acontecer que o poema sagrado, no qual puseram mão o céu assim como a terra, e que me fez pálido ao longo de muitos anos, vencer a atrocidade do tempo, que me exclui do belo aprisco em que eu, um cordeirinho, dormia, inimigo dos lobos que o saqueiam: com outra voz então, e outro velo, retomarei, e no lugar de meu batismo receberei a coroa de louros”. O pavor do tormento dos danados, ele o modera através de sua própria sensibilidade, que ainda quase no alvo de tanta lástima inebria-lhe os olhos a tal ponto que ele tem vontade de chorar, e Virgílio lhe diz: – Mas por que te perturbas?

Já foi observado que a maioria dos castigos do Inferno são simbólicos para o crime que é castigado por eles, mas vários o são ainda em um aspecto muito mais universal.

Dessa espécie é, em particular, a exposição de uma metamorfose em que duas naturezas, ao mesmo tempo, se transformam uma na outra e uma através da outra e, por assim dizer, trocam de matéria. Nenhuma das metamorfoses da antiguidade pode-se medir com esta em inventividade, e um naturalista ou poeta didático que fosse capaz de delinear com tal força símbolos da eterna metamorfose da natureza poderia considerar-se feliz.

O Inferno não é diferente das outras partes somente segundo a forma exterior da exposição, como já foi observado, mas também por ser, privilegiadamente, o reino das figuras e, portanto, a parte plástica do poema. O Purgatório nós temos de reconhecer como o pitoresco. Não só as penitências que aqui são impostas aos pecadores são, em boa parte, tratadas de maneira inteiramente pictórica, até à jovialidade, mas, em particular, a peregrinação por sobre as colinas sagradas das paragens da penitência oferece uma alternância brusca de visões e cenas passageiras e múltiplos efeitos de luz, até que, em seus últimos limites, depois que o poeta chegou ao Letes, abre-se a máxima pompa da pintura e da cor, nas descrições dos divinos e antiquíssimos bosques dessa região, da celestial claridade das águas, que são cobertas por suas eternas sombras, da jovem que ele encontrou em suas margens, e da chegada de Beatriz em uma nuvem de flores, sob um véu branco, coroada de ramos de oliveira, envolta em um manto verde e vestida em púrpura de vivas flamas.

O poeta, atravessando o próprio coração da terra, conseguiu chegar até à luz: na escuridão do mundo inferior só podia distinguir a figura, no Purgatório acende-se para ele a luz, ainda como que com a matéria terrestre, e torna-se cor. No Paraíso só resta a pura música da luz, o reflexo cessa, e o poeta eleva-se gradualmente à intuição da incolor, pura substância da divindade.

A visão do sistema do mundo, da qualidade dos astros e da medida de seu movimento, ao tempo do poeta revestida de dignidade mitológica, é o fundamento sobre o qual se apoiam suas invenções nessa parte do poema; e se, nessa esfera da absolutez, ele entretanto deixa lugar para graus e distinções, suprime-os de novo pela esplêndida palavra que faz pronunciar uma das almas irmãs, com que se encontra na Lua: que todo onde, no céu, é Paraíso.

É consequência do plano geral do poema que, justamente durante a elevação através do Paraíso, sejam discutidas as proposições mais altas da teologia. A alta veneração para com essa ciência é prefigurada pelo amor a Beatriz. É necessário que, à proporção que a intuição se dissolve no puro universal, a poesia se torne música, a figuração desapareça e que, a esse respeito, o Inferno apareça como a parte mais poética. Só que aqui nada deve ser tomado à parte, e a excelência específica de cada uma das partes só é assegurada e verdadeiramente cognoscível pela concordância com o todo. Se a proporção das três partes é captada no todo, reconhece-se como necessário que o Paraíso seja o puramente musical e lírico, mesmo no propósito do poeta, que exprime a este, também nas formas exteriores, pelo uso mais frequente das palavras latinas dos hinos litúrgicos.

A admirável grandeza do poema, que refulge na interpenetração de todos os elementos da poesia e da arte, chega inteiramente, desse modo, à aparição exterior. Essa obra divina não é plástica, nem pitoresca, nem musical, mas tudo isso ao mesmo tempo e em concordante harmonia: não é dramática, nem épica, nem lírica, mas também destes gêneros uma mistura inteiramente própria, única, sem exemplo.

Acredito ter mostrado, ao mesmo tempo, que ele é profético, exemplar, para toda a poesia moderna. Capta em si todas as suas determinações e sobressai-se à sua matéria, ainda multiplamente misturada, como a primeira planta que se espraia sobre a terra e para o céu, o primeiro fruto da transfiguração. Aqueles que querem conhecer a poesia do tempo mais tardio, não segundo conceitos superficiais, mas em sua fonte, que frequentem este grande e rigoroso espírito, para saber por que meios a totalidade do tempo moderno é abrangida – e que não é tão fácil de atar o elo que a unifique. Aqueles que não estão destinados a isso, que desde já apliquem a si mesmos as palavras do início da primeira parte:
Deixai partir toda esperança, ó vós que entrais!

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